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O CORPO COMO TRAVESSIA


Ivana Menna Barreto é bailarina e criadora. Tem formação em literatura, dança clássica e contemporânea, composição coreográfica e interpretação teatral. Graduada em Letras pela UERJ (1982), é Mestre em Artes Cênicas pelo PPGT, UNI-RIO (2007) e doutoranda em Comunicação e Semiótica na PUC-SP (2008). Interessa-se pelo diálogo entre corpo, palavra e imagem. Desenvolveu vários trabalhos com a Cia. Movimento e Luz, onde dirigiu e atuou, e atualmente desenvolve trabalho solo.

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Resumo: Este artigo propõe o corpo como travessia de linguagens, como mediador de um discurso polifônico, atravessado por diversas referências, o que problematiza os conceitos de autor e leitor no que se refere à participação dos diferentes intérpretes e/ou espectadores eventuais na coreografia. Relacionando a noção de texto desenvolvida por Roland Barthes com a de tessitura de imagens e formas, em que os sentidos são construídos por fragmentos em rede, minha abordagem privilegia a performance, a interpretação que pode transformar os rumos da criação.

Palavras-chave: corpo, dança, autoria

Neste artigo proponho uma breve reflexão sobre a colaboração autoral em processos coreográficos, em suas implicações no que se refere aos nomes próprios e aos nomes comuns, visto que o mundo propõe uma diversidade de interferências e informações sobre o corpo, situando-o numa zona de fronteira das artes entre si e com outros domínios do conhecimento, deslocando a criação de um território próprio e demarcado, com funções delimitadas ou hierarquizadas. Este deslocamento insere a criação num contexto mais amplo, que apresenta contaminações entre performance, dança, artes plásticas, vídeo, teatro, fazendo do corpo um ambiente midiático de trocas, numa dinâmica instável, incerta. Partindo de um exemplo mais específico, a participação de pessoas alheias à área específica da dança na criação de uma coreografia traz novos

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contornos à construção de uma autoria; e mudanças de caráter político, desviando o centro das atenções das companhias que dependem de uma estrutura econômica centralizada no nome próprio de um coreógrafo/diretor/autor, para iniciativas de artistas independentes que desenvolvem trabalhos solos ou em coletivos temporários.

Para este enfoque é relevante o conceito de corpomídia (GREINER e KATZ, 2005, 130-131), que situa o corpo como possibilidade de negociação entre as informações que vêm do mundo e as que já estão nele, como mediador de si mesmo e não como veículo de transmissão de idéias que estariam fora dele. Este conceito aponta o corpo mais como o motor de uma indisciplina que como o resultado de uma transdisciplinaridade, porque ele sempre pode modificar, subverter o que lhe é dado; como potência transformadora, não apenas permeável ao que vem de fora, mas que também edita, negocia e seleciona as informações que o atravessam.

Esta noção de trocas entre o indivíduo e o mundo me faz pensar no famoso estudo de Foucault(1) sobre autoria, em que descola o autor de um nome próprio (FOUCAULT, 1992,34) e enumera as possíveis referências e pensamentos contidos numa obra. Para Foucault o nome de um autor exerceria, na realidade, "uma função classificativa" (FOUCAULT, 1992, 44): é o nome do autor que permite à crítica agrupar e selecionar um certo número de textos e reconhecê-los como sendo daquele autor e este reconhecimento permite que este discurso seja "recebido de certa maneira" numa determinada cultura (idem). O nome precederia, portanto - seja para fins institucionais ou mercadológicos - a obra, que na verdade se construiria a partir de um somatório de interferências.

O autor nasceria, assim, a partir de uma crítica, portanto de uma leitura, e aqui faço uma ponte com o pensamento de Roland Barthes(2) - desenvolvido ao longo de seus

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ensaios publicados sobre a leitura - em que desloca a importância do autor para a urgência do lugar do leitor, indo ao encontro da análise de Foucault, que expõe a autoria como um lugar de poder, de um nome próprio legitimado por um reconhecimento. A este lugar Barthes contrapõe um nome comum, "sem história, sem biografia", que não origina a unidade do texto, porque é seu próprio destino, espaço "onde se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que é feita uma escritura":

... um texto é feito de escrituras múltiplas, oriundas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação; mas há um lugar onde essa multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o autor, como se disse até o presente, é o leitor: o leitor é o espaço mesmo onde se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que é feita uma escritura; a unidade do texto não está em sua origem, mas no seu destino, mas esse destino já não pode ser pessoal: o leitor é um homem sem história, sem biografia, sem psicologia; ele é apenas esse alguém que mantém reunidos em um mesmo campo todos os traços de que é constituído o escrito. (BARTHES, 2004,64)

Esta compreensão de texto como material feito de múltiplas escritas alarga o sentido de autoria, não só no que se refere ao texto escrito, mas também ao texto em seu sentido mais amplo, como tessitura de imagens e formas; como escrita cênica, performática, onde o leitor/espectador (enquanto criador invisível, anônimo) vem somar-se às outras instâncias do processo criativo. As várias leituras inscritas num mesmo trabalho colocam a escrita como releitura, potência geradora de novas escritas, infinitamente. O autor é antes de tudo um leitor, o leitor/espectador é sempre criador numa rede de produção de sentidos; assim a idéia de "morte" do autor e nascimento do leitor abre uma teia de conexões, que poderiam ser limitadas por uma assinatura individual.

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Desenvolvendo sua tese sobre a leitura, Barthes(3) diz que o leitor "não decodifica, ele sobrecodifica; não decifra, produz, amontoa linguagens, deixa-se infinita e incansavelmente atravessar por elas: ele é essa travessia" (BARTHES,2004,41). O leitor não teria então a função explicativa de decodificar um sentido, ele seria essa "travessia" por onde as linguagens se entrecruzam, instaurando aí, nesses cruzamentos, novas significações.

Neste contexto teórico que situa a autoria num entre-lugar, entre a leitura e a escrita, entre um nome próprio e um nome comum, entre um lugar próprio e sua ausência, observo o universo da criação coreográfica, propondo o corpo como espaço de travessia, entre, atravessado, leitor/escritor do mundo e de si mesmo. Um corpo que lê um mundo imprevisível e instável (e é lido por ele), interferindo na cena contemporânea, uma cena em que falam muitas vozes [o lugar das "simultaneidades", da "polifonia" (COHEN,1998, XXIII)]. Este lugar demanda autores conectados com as várias camadas de expressão que se "inseminam" na obra (COHEN, 1998), porque nesse caso os sentidos não são dados a priori, por um único autor; eles são construídos no percurso, por fragmentos, em rede.

Nesta perspectiva das trocas, da polifonia, da instabilidade, observo práticas como os trabalhos da coreógrafa e performer Cláudia Müller, que privilegiam interações com outras linguagens, como as artes plásticas, o teatro, o vídeo; operando desterritorializações, transitoriedades no espaço-tempo, priorizando conceitos como a alternância de suportes e a obra como work-in-progress. Há nessa experiência uma ausência da dança como único suporte, ou ausência de um corpo que se move como resultado de treinamentos específicos. O que vemos é, antes, um corpo conectado ao mundo que o rodeia e neste mundo, como diz o filósofo e professor Peter Pál Pelbart, o corpo não aguenta mais: "o que é que o corpo não aguenta mais? Ele não agüenta mais tudo aquilo que o coage, por fora e por dentro" (PELBART, 2006). Pelbart fala de uma

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centralização excessiva, na contemporaneidade, sobre o corpo; sobre as imposições que a sociedade estabelece através da cultura do bem-estar (estabelecendo divisões entre o grupo dos obesos, dos fumantes e não-fumantes, dos hipertensos etc.), de treinamentos e coerções contínuas já enraizadas e absorvidas pacificamente por cada um, para obter uma vida adequada e saudável, banindo de si qualquer traço de loucura.

A postura do corpo que analiso situa-se bem mais como indisciplina a este contexto de coerção, confundindo-se, contrapondo-se ao espaço que o rodeia; sua identidade é móvel, as trocas que estabelece com o ambiente provocam/transformam/desmancham suas formas. Cláudia Müller, em seus solos, usa o público como parceiro próximo, que solicita por telefone suas intervenções, apresentando-se em espaços não-convencionais. Recentemente tem apresentado seu Dança Contemporânea em Domicílio em mostras, festivais e encontros, dando um número de telefone para o público agendar seu "serviço de entrega", que é a apresentação de uma coreografia (que não se repete, no entanto, da mesma forma em todas as apresentações); e oferece seu corpo como mercadoria para ser fruída com duração prevista de dez minutos. A falta de espaços e a intrincada política de liberação de verbas no país são dribladas, neste caso, por suas apresentações pontuais e compatíveis com os recursos restritos de que dispõe para produzir seu trabalho. A partir deste contexto, a bailarina cria novas possibilidades de identidade e de configuração espacial, já que o olhar do espectador e o local em que se apresenta são peças fundamentais desta autoria-em-trânsito, que emerge de uma interação. A colaboração, neste caso, se dá na busca da artista por um compartilhamento que inclui também não-artistas.

Observo nesta prática um foco considerável na performance, na interpretação que pode transformar os rumos da criação, e este é um componente significativo para uma análise autoral, porque torna o contato artista/espectador um fator determinante na evolução do trabalho, como processo aberto a transformações a partir de sua própria

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exposição, podendo a autoria emergir, nestes casos, pela qualidade do nível relacional que provoca organizações/reorganizações possíveis no sistema coreográfico.


Referências Bibliográficas

1- BARTHES, Roland. "A Morte do Autor" in O Rumor da Língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

2- COHEN, Renato. Work in Progress na Cena Contemporânea. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1998.

3- FOUCAULT, Michel. O que é um autor? Lisboa: Ed. Veja, 1992.

4- __________________ Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 6ª ed, 1986.

5- GREINER, Christine. O Corpo: pistas para estudos indisciplinares. São Paulo: Annablune, 2005.

6- IMSCHOOT, Myriam van. "Lettres sur la Collaboration", in ROUSIER, Claire (org.). Être Ensemble: Figures de la communauté en danse depuis le XXe siècle. Pantin: Centre National de la Danse, 2003.

8- PELBART, Peter Pál. "Vida Nua, Vida Besta, Uma Vida", in

http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2792,1.shl

9- ___________________ Vida Capital, ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003.

10- VIEIRA, Jorge de Albuquerque. Teoria do Conhecimento e Arte. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2008.

 

Notas

(1) FOUCAULT, Michel. O que é um autor? Lisboa: Ed. Veja, 1992

(2) BARTHES, Roland. "A Morte do Autor" in O Rumor da Língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

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