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Resumo: Este artigo propõe o corpo como travessia
de linguagens, como mediador de um discurso polifônico, atravessado
por diversas referências, o que problematiza os conceitos de autor
e leitor no que se refere à participação dos diferentes intérpretes
e/ou espectadores eventuais na coreografia. Relacionando a noção
de texto desenvolvida por Roland Barthes com a de tessitura de
imagens e formas, em que os sentidos são construídos por fragmentos
em rede, minha abordagem privilegia a performance, a interpretação
que pode transformar os rumos da criação.
Palavras-chave: corpo, dança, autoria
Neste artigo proponho uma breve reflexão sobre a colaboração autoral
em processos coreográficos, em suas implicações no que se refere
aos nomes próprios e aos nomes comuns, visto que o mundo propõe
uma diversidade de interferências e informações sobre o corpo,
situando-o numa zona de fronteira das artes entre si e com outros
domínios do conhecimento, deslocando a criação de um território
próprio e demarcado, com funções delimitadas ou hierarquizadas.
Este deslocamento insere a criação num contexto mais amplo, que
apresenta contaminações entre performance, dança, artes plásticas,
vídeo, teatro, fazendo do corpo um ambiente midiático de trocas,
numa dinâmica instável, incerta. Partindo de um exemplo mais específico,
a participação de pessoas alheias à área específica da dança na
criação de uma coreografia traz novos
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contornos à construção de uma autoria; e mudanças de caráter político,
desviando o centro das atenções das companhias que dependem de
uma estrutura econômica centralizada no nome próprio de um coreógrafo/diretor/autor,
para iniciativas de artistas independentes que desenvolvem trabalhos
solos ou em coletivos temporários.
Para este enfoque é relevante o conceito de corpomídia (GREINER
e KATZ, 2005, 130-131), que situa o corpo como possibilidade de
negociação entre as informações que vêm do mundo e as que já estão
nele, como mediador de si mesmo e não como veículo de transmissão
de idéias que estariam fora dele. Este conceito aponta o corpo
mais como o motor de uma indisciplina que como o resultado de
uma transdisciplinaridade, porque ele sempre pode modificar, subverter
o que lhe é dado; como potência transformadora, não apenas permeável
ao que vem de fora, mas que também edita, negocia e seleciona
as informações que o atravessam.
Esta noção de trocas entre o indivíduo e o mundo me faz pensar
no famoso estudo de Foucault(1) sobre autoria,
em que descola o autor de um nome próprio (FOUCAULT, 1992,34)
e enumera as possíveis referências e pensamentos contidos numa
obra. Para Foucault o nome de um autor exerceria, na realidade,
"uma função classificativa" (FOUCAULT, 1992, 44): é o nome do
autor que permite à crítica agrupar e selecionar um certo número
de textos e reconhecê-los como sendo daquele autor e este reconhecimento
permite que este discurso seja "recebido de certa maneira" numa
determinada cultura (idem). O nome precederia, portanto - seja
para fins institucionais ou mercadológicos - a obra, que na verdade
se construiria a partir de um somatório de interferências.
O autor nasceria, assim, a partir de uma crítica, portanto de
uma leitura, e aqui faço uma ponte com o pensamento de Roland
Barthes(2) - desenvolvido ao longo de seus
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ensaios publicados sobre a leitura - em que desloca a importância
do autor para a urgência do lugar do leitor, indo ao encontro
da análise de Foucault, que expõe a autoria como um lugar de poder,
de um nome próprio legitimado por um reconhecimento. A este lugar
Barthes contrapõe um nome comum, "sem história, sem biografia",
que não origina a unidade do texto, porque é seu próprio destino,
espaço "onde se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as
citações de que é feita uma escritura":
... um texto é feito de escrituras múltiplas, oriundas de várias
culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia,
em contestação; mas há um lugar onde essa multiplicidade se reúne,
e esse lugar não é o autor, como se disse até o presente, é o
leitor: o leitor é o espaço mesmo onde se inscrevem, sem que nenhuma
se perca, todas as citações de que é feita uma escritura; a unidade
do texto não está em sua origem, mas no seu destino, mas esse
destino já não pode ser pessoal: o leitor é um homem sem história,
sem biografia, sem psicologia; ele é apenas esse alguém que mantém
reunidos em um mesmo campo todos os traços de que é constituído
o escrito. (BARTHES, 2004,64)
Esta compreensão de texto como material feito de múltiplas escritas
alarga o sentido de autoria, não só no que se refere ao texto
escrito, mas também ao texto em seu sentido mais amplo, como tessitura
de imagens e formas; como escrita cênica, performática, onde o
leitor/espectador (enquanto criador invisível, anônimo) vem somar-se
às outras instâncias do processo criativo. As várias leituras
inscritas num mesmo trabalho colocam a escrita como releitura,
potência geradora de novas escritas, infinitamente. O autor é
antes de tudo um leitor, o leitor/espectador é sempre criador
numa rede de produção de sentidos; assim a idéia de "morte" do
autor e nascimento do leitor abre uma teia de conexões, que poderiam
ser limitadas por uma assinatura individual.
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Desenvolvendo sua tese sobre a leitura, Barthes(3) diz que o leitor "não decodifica, ele sobrecodifica; não decifra,
produz, amontoa linguagens, deixa-se infinita e incansavelmente
atravessar por elas: ele é essa travessia" (BARTHES,2004,41).
O leitor não teria então a função explicativa de decodificar um
sentido, ele seria essa "travessia" por onde as linguagens se
entrecruzam, instaurando aí, nesses cruzamentos, novas significações.
Neste contexto teórico que situa a autoria num entre-lugar, entre
a leitura e a escrita, entre um nome próprio e um nome comum,
entre um lugar próprio e sua ausência, observo o universo da criação
coreográfica, propondo o corpo como espaço de travessia, entre,
atravessado, leitor/escritor do mundo e de si mesmo. Um corpo
que lê um mundo imprevisível e instável (e é lido por ele), interferindo
na cena contemporânea, uma cena em que falam muitas vozes [o lugar
das "simultaneidades", da "polifonia" (COHEN,1998, XXIII)]. Este
lugar demanda autores conectados com as várias camadas de expressão
que se "inseminam" na obra (COHEN, 1998), porque nesse caso os
sentidos não são dados a priori, por um único autor; eles são
construídos no percurso, por fragmentos, em rede.
Nesta perspectiva das trocas, da polifonia, da instabilidade,
observo práticas como os trabalhos da coreógrafa e performer Cláudia
Müller, que privilegiam interações com outras linguagens, como
as artes plásticas, o teatro, o vídeo; operando desterritorializações,
transitoriedades no espaço-tempo, priorizando conceitos como a
alternância de suportes e a obra como work-in-progress. Há nessa
experiência uma ausência da dança como único suporte, ou ausência
de um corpo que se move como resultado de treinamentos específicos.
O que vemos é, antes, um corpo conectado ao mundo que o rodeia
e neste mundo, como diz o filósofo e professor Peter Pál Pelbart,
o corpo não aguenta mais: "o que é que o corpo não aguenta mais?
Ele não agüenta mais tudo aquilo que o coage, por fora e por dentro"
(PELBART, 2006). Pelbart fala de uma
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centralização
excessiva, na contemporaneidade, sobre o corpo; sobre as imposições
que a sociedade estabelece através da cultura do bem-estar (estabelecendo
divisões entre o grupo dos obesos, dos fumantes e não-fumantes,
dos hipertensos etc.), de treinamentos e coerções contínuas já
enraizadas e absorvidas pacificamente por cada um, para obter
uma vida adequada e saudável, banindo de si qualquer traço de
loucura.
A
postura do corpo que analiso situa-se bem mais como indisciplina
a este contexto de coerção, confundindo-se, contrapondo-se ao
espaço que o rodeia; sua identidade é móvel, as trocas que estabelece
com o ambiente provocam/transformam/desmancham suas formas. Cláudia
Müller, em seus solos, usa o público como parceiro próximo, que
solicita por telefone suas intervenções, apresentando-se em espaços
não-convencionais. Recentemente tem apresentado seu Dança Contemporânea
em Domicílio em mostras, festivais e encontros, dando um número
de telefone para o público agendar seu "serviço de entrega", que
é a apresentação de uma coreografia (que não se repete, no entanto,
da mesma forma em todas as apresentações); e oferece seu corpo
como mercadoria para ser fruída com duração prevista de dez minutos.
A falta de espaços e a intrincada política de liberação de verbas
no país são dribladas, neste caso, por suas apresentações pontuais
e compatíveis com os recursos restritos de que dispõe para produzir
seu trabalho. A partir deste contexto, a bailarina cria novas
possibilidades de identidade e de configuração espacial, já que
o olhar do espectador e o local em que se apresenta são peças
fundamentais desta autoria-em-trânsito, que emerge de uma interação.
A colaboração, neste caso, se dá na busca da artista por um compartilhamento
que inclui também não-artistas.
Observo nesta prática um foco considerável na performance, na
interpretação que pode transformar os rumos da criação, e este
é um componente significativo para uma análise autoral, porque
torna o contato artista/espectador um fator determinante na evolução
do trabalho, como processo aberto a transformações a partir de
sua própria
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exposição, podendo a autoria emergir, nestes casos, pela qualidade
do nível relacional que provoca organizações/reorganizações possíveis
no sistema coreográfico.
Referências
Bibliográficas
1-
BARTHES, Roland. "A Morte do Autor" in O Rumor da Língua. São
Paulo: Martins Fontes, 2004.
2-
COHEN, Renato. Work in Progress na Cena Contemporânea. São Paulo:
Ed. Perspectiva, 1998.
3-
FOUCAULT, Michel. O que é um autor? Lisboa: Ed. Veja, 1992.
4-
__________________ Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal,
6ª ed, 1986.
5-
GREINER, Christine. O Corpo: pistas para estudos indisciplinares.
São Paulo: Annablune, 2005.
6-
IMSCHOOT, Myriam van. "Lettres sur la Collaboration", in ROUSIER,
Claire (org.). Être Ensemble: Figures de la communauté en danse
depuis le XXe siècle. Pantin: Centre National de la Danse, 2003.
8-
PELBART, Peter Pál. "Vida Nua, Vida Besta, Uma Vida", in
http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2792,1.shl
9-
___________________ Vida Capital, ensaios de biopolítica. São
Paulo: Iluminuras, 2003.
10-
VIEIRA, Jorge de Albuquerque. Teoria do Conhecimento e Arte. Fortaleza:
Expressão Gráfica e Editora, 2008.
Notas
(1) FOUCAULT,
Michel. O que é um autor? Lisboa: Ed. Veja, 1992
(2) BARTHES, Roland. "A Morte do Autor" in O Rumor da Língua.
São Paulo: Martins Fontes, 2004.

