BARBARA SZANIECKI é formada em Comunicação Visual pela École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs (1994), Mestre em Artes e Design pela Pontifícia Universidade Católica e doutoranda pela mesma instituição. Tem ampla experiência prática na área de Design Gráfico. É co-editora das revistas Lugar Comum - estudos de mídia, comunicação e cultura e Global/Brasil, além de autora do livro Estética da Multidão.
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Resumo: O presente texto procura provocar a reflexão sobre as práticas artísticas através de conceitos desenvolvidos por Deleuze e Guattari em Mil Platôs especialmente no capítulo dedicado à crítica dos postulados da lingüística. Agenciamentos entre arte e política, assim como variações no campo da arte, são observados em ‘heteroformances’ nas metrópoles contemporâneas.
Palavras-Chave: agenciamentos, variações, práticas artísticas
Abstract: The present text tries to provoke the thought upon artistic practices by the use of concepts introduced by Deleuze and Guattari in A Thousand Plateaus, especially in the chapter on criticism of the postulates of linguistic. Agency between art and politics as well as variations in the field of art are observed in ‘heteroformances’ in contemporary metropolises.
Keywords: agency, variations, artistic practices
Frente à emergência nos últimos anos de inúmeras propostas teóricas para apreender possíveis ampliações e transformações do campo da arte, apresentamos nossa reflexão com base no que denominamos ‘heteroformances’, isto é, acontecimentos tais como carnavalizações (paradas, procissões e escrachos carnavalescos), performances e ocupações de ruas e de prédios abandonados – verdadeiras ruínas da era fordista – nas metrópoles contemporâneas. Heterogeneidades em formação ‘acontecimental’ que em si não são propriamente artísticas mas que, no Brasil e no mundo, têm funcionado como laboratórios para experimentação de novas linguagens artísticas. Para analisar essa multiplicidade expressiva em suas lutas urbanas (luta dos Sem Teto, dos Sem Emprego e dos Sem Mídia ou, como preferimos, Sem Máquinas Expressivas), estenderemos certas reflexões de Deleuze e Guattari sobre o sistema da língua ao campo da arte. Trata-se de conceitos que permitem refletir sobre agenciamentos possíveis entre arte e política no território urbano, e sobre renovações do próprio campo da arte pela apreensão de suas variações – belas artes, artes aplicadas, arte erudita, popular,
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moderna, contemporânea, artesanal, industrial, gráfica, conceitual, decorativa –, e seus praticantes: artistas, artesãos, ‘criativos’ em geral e designers em particular, assim como produtores simplesmente familiarizados com a cultura artística inserida em um contexto cultural mais amplo como Maria, líder dos camelôs que produz bijuteria para vender na rua.
1. Agenciamentos corpóreos e expressivos – artistas e precários, arte e política
No capítulo Postulados da lingüística de Mil Platôs, Deleuze e Guattari criticam a lingüística e introduzem uma ‘pragmática’ ou ‘política da língua’ que não se interessa por aquilo que o enunciado significa, mas pelo que ele pode no sentido de promover transformações incorpóreas nos corpos individuais e sociais. E, ao considerar que o enunciado não deve ser atribuído a um sujeito único que lhe é externo, buscam os agenciamentos coletivos que operam por dentro e por fora dos enunciados.
Num campo social dado – nossas ‘heteroformances’, por exemplo, nos encontramos frente a dois tipos de formalização que não se excluem: a de conteúdo e a de expressão. Ao conteúdo e à forma correspondem formalizações distintas: “a forma de expressão será constituída pelo encadeamento dos expressos, assim como a forma de conteúdo será constituída pela trama dos corpos” (1). Quando um movimento social e artístico ocupa um prédio (forma do conteúdo), há misturas de corpos individuais e coletivos entre eles, e mistura desses corpos com o próprio corpo do prédio. Enquanto a notícia transmitida pela mídia (forma da expressão) “movimento de Sem Teto ocupa prédio abandonado” entre outros enunciados impressos em cartazes, camisetas e faixas exprimem transformação incorpórea mas que é obrigatoriamente atribuída a um corpo ou conjunto de corpos. Contudo, a forma de expressão não constitui uma representação da forma de conteúdo: expressões intervém nos conteúdos e conteúdos nas expressões, de modo recíproco mas não necessariamente simétrico e, sobretudo, sem primazia de um sobre o outro.
Podemos distinguir um eixo horizontal composto por dois segmentos. Por um
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lado, o agenciamento de corpos apresenta heterogeneidades corpóreas, singulares ou coletivas: ocupantes (homens, mulheres e crianças) de um prédio com seus pertences, artistas, designers, arquitetos e urbanistas com seus instrumentos, polícia com seus cassetetes, advogados, professores e estudantes universitários, jornalistas com seus aparatos eletrônicos, entre muitos outros ‘corpos’ que agem uns sobre os outros por atração ou repulsão, cada qual com suas respectivas práticas de funcionamento enquanto corpos sociais e tecnológicos; por outro, o agenciamento de enunciações intervém sobre estes mesmos corpos com seus gritos de protestos estampados em cartazes, camisetas e faixas, performances artísticas, manifestações carnavalescas, imagens e sons capturados por militantes, leis sobre propriedade, pedidos de reintegração de posse e sentenças jurídicas, teses acadêmicas e reportagens jornalísticas entre muitos outros enunciados. O agenciamento corpóreo é uma máquina social que excede todo objeto e sua produção, assim como o agenciamento enunciativo é uma máquina expressiva que transborda todo sujeito e sua ideologia. Qual é a relação entre esses complexos agenciamentos que não se limitam a dois níveis distintos – corpos e enunciações, mas se entremeiam em milhares de platôs?
Perpendicularmente, em um eixo vertical, estes agenciamentos são tensionados por movimentos de territorializações e desterritorializações, por estabilizações e arrebatamentos, por tensões entre tentativas de sistematização de constantes e lutas por variações de uma multiplicidade de práticas. Se por um lado, as palavras de ordem são mais desterritorializadas que os corpos dos Sem Teto, por outro, um relato de mídia pode ser mais territorializado do que a própria ocupação do imóvel. São variáveis os níveis de territorialização e de desterritorialização de expressões e conteúdos – de fatores intrínsecos e extrínsecos à língua propriamente dita. A percepção de Deleuze e Guattari nos permite refletir sobre a linguagem em geral, e sobre as linguagens artísticas em particular, para além da representação de um mundo entendido como objeto de realidade por um sujeito de enunciado. E nos permite apreender uma ontologia da multiplicidade que não tem nem sujeito nem objeto, apenas determinações, dimensões, velocidades, intensidades. E enfim, no caso de nossas
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‘heteroformances’, afirmar simultaneamente uma ‘política da arte’ e uma ‘arte da política’ para além da distinção antiga e moderna (2) entre práxis e poiésis: intervenção.
2. Variações contínuas – renovação do campo da arte
Diante de uma multiplicidade de práticas, é grande a tentação de se reduzir variáveis a constantes e assim instituir um sistema (da língua) ou um campo (da arte). Diferentemente dos lingüistas que se interessam pelas constantes e universais da língua para fundar sua unidade, Deleuze e Guattari apontam a criação de máquinas abstratas em torno de variáveis e variações de uma multiplicidade consistente. Se inspiram na noção de variação-inerente de Labov que afirma é a própria variação que é imanente à língua. Um jovem negro, por exemplo, passa do inglês standard ao black english (o inglês dos guetos) ‘n’ vezes em um mesmo enunciado: trata-se da passagem alternada entre dois sistemas definidos arbitrariamente ou de variações contínuas?, pergunta-se Labov. No caso de nossas ‘heteroformances’, seus participantes passam das práticas artesanais à arte contemporânea, e da comunicação visual à informação mídiatica ‘n’ vezes em um mesmo enunciado, desenvolvendo desse modo linhas de variações na arte, que se prolongam no trabalho e na cidade. Trata-se de uma variação em continuum de práticas e linguagens que, somente de modo disciplinar ou autoritário, poderiam se constituir como campo autônomo.
Para Deleuze e Guattari, seguindo Labov, todo suposto sistema se encontra em variação contínua, o que equivale a dizer que ele não é definido por invariantes (homogeneidades), mas por variações (heterogeneidades) que ‘trabalham’ o sistema por dentro. A renovação lingüística, ou artística como desejamos demonstrar, se faz menos por ruptura do que por “modificação gradual de freqüência, por coexistência e continuidade de usos diferentes.”(3) Por oposição à lingüística e seu interesse pelas constantes definidoras de um sistema, a pragmática define a língua pela linha de variação agenciadora de uma máquina abstrata. Os invariantes se definem por um algo
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como uma função de centro que organiza sistemas lineares de tipo arborescente. Contudo, é possível desagregar o princípio central substituindo suas formas centradas pelo contínuo processo de formações que não cessam de se dissolver e de se recompor e que, desse modo, subordina a própria forma. As variações se libertam das formas e liberam forças. No caso da música citado por nossos autores, ao nos afastarmos do centro, não há matéria organizada pela forma, mas um material complexo que torna audível forças não sonoras. Se transferimos o exemplo musical para o visual, percebemos que ao nos afastarmos do centro, encontramos um material complexo que torna visível as forças não visíveis que atravessam os ‘sistemas’ cidade, trabalho e arte.
Diferentemente de lingüistas que consideram a fala individual como único fator de variação do sistema da língua, Deleuze e Guattari apresentam, através de uma análise da relação entre voz e música, a variação contínua de elementos heterogêneos lingüísticos e não lingüísticos, de elementos de expressão e de conteúdo, como um cromatismo generalizado. Expressões estrangeiras e atípicas produzem variação do sistema da língua arrancando-a de seu estado de constante. De modo semelhante, podemos dizer que ‘estrangeiros à cidade formal’ como os Sem Teto produzem variações do sistema de moradia tais como ocupações e acampamentos pré ou pós-despejos entre outras variações. E que ‘estrangeiros ao trabalho com carteira assinada’ como os Sem Emprego – entre os quais catadores e camelôs, e todo um ‘precariado’ – produzem variações no sistema de trabalho tais como cooperativas e associações entre outras formas de autonomização para além do trabalho assalariado. E que ‘estrangeiros à mídia hegemônica’ como todo um ‘cognitariado’ que une artistas e intelectuais Sem Máquinas Expressivas produzem variações no sistema da comunicação e da cultura. E finalmente, ao agenciar-se com esses nômades das metrópoles contemporâneos, ‘artistas’ – praticantes de arte de toda sorte – ganham em expressividade-movimento.
‘Heteroformances’ abrem variações para além dos invariantes com função de centro tais como os axiomas funcionalistas do sistema urbano, como os princípios racionalistas do trabalho fordista, ou ainda como as disciplinas acadêmicas que se submetem a estes ‘centros’ ao organizar de modo arborescente belas artes e artes
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aplicadas, arte erudita e arte popular, arte moderna e arte contemporânea, artes gráficas e desenho industrial, arte industrial e artesanato, arte sem fins e arte com fins, entre outras práticas. Por fim, ‘heteroformances’ são acontecimentos entendidos como momentos onde as práticas artísticas se libertam de suas próprias arborescências de princípio e processo, conceito e expressão, pausa e ritmo, texto e imagem, tipografia e imagem, criação e execução. Todas essas linhas de variação para moradia, emprego e práticas artísticas nas metrópoles pós-fordistas desenham resistências à ‘centralização’ homogeneizante que sustenta o modelo político de dominação através de uma língua maior, seja na cidade com seu modelo de habitação e de trabalho ‘formal’, seja no campo da arte com o status adquirido de algumas práticas. Enquanto a aquisição da maioria equivale ao exercício de dominação através da extração de constantes, o devir minoritário conecta elementos de minorias heterogêneas – conexões possíveis da ocupante-de-prédio e produtora-vendedora-ambulante-de artesanato com artistas e intelectuais precarizados –, colocando-os em variação contínua. Não se trata de enfatizar a distinção tradicional entre ‘maior’ e ‘menor’ dentro de cada campo específico – entre moradia formal e informal, entre trabalho assalariado e autônomo, entre belas artes e artes aplicadas, por exemplo –, mas de pensar nos possíveis devires menores de ‘línguas’ maiores que vislumbramos transversalmente nas ‘heteroformances’ contemporâneas: este é o sentido para nós de pensar o acontecimento, tal como proposto por Deleuze e Guattari.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Capitalisme et Schizophrénie – Mille Plateaux. Paris: Les Éditions de Minuit, 1980.
ZOURABICHVILI, François. Deleuze – Une philosophie de l’événement. Paris: Presses Universitaires de France, 1994.
Recebido: 27/10/2009
Aceito: 06/11/2009
NOTAS:
(1) DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Op. Cit. p. 109.
(2) De Aristoteles a Hanna Arendt.
(3) DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Op. Cit. p. 119.