MAIRA M. FRÓES é biofísica, com mestrado e doutorado em ciências pelo Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (UFRJ), pós-doutora em neurofarmacologia pelo Collège de France, membro do Programa Avançado de Neurociências. Ocupa o cargo de Professora Adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro, exercendo direção de pesquisa no Laboratório de Neuroanatomia Celular do Instituto de Ciências Biomédicas
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Resumo: É possível extrair diferentes significados de um objeto de escrutínio científico lançando mão da subjetivação conferida por uma apreciação estético-emocional? Poderia ser a arte o mediador desta nova leitura da ciência? Proponho, provocativamente, que para chegarmos à objetividade, à precisão do discurso investigativo científico, o alargamento e a diversificação de nossos canais de percepção do mundo objetivo em ciência representam um precioso e desejável atalho, um complemento importante para a formulação lógica de nossas hipóteses. Esta nova condução do pensamento científico é endereçada hipoteticamente no presente artigo.
Palavras-Chave: interface arte/ciência; inovação; transdisciplinaridade; epistemologia; percepção multimodal.
Abstract: Is it possible to extract different meanings from an object of scientific scrutiny using an emotional/aesthetical appreciation of it? Could art be this mediator?
I propose, provocatively that the objective precision of the scientific arguments could benefit from both enlargement and diversification of the conscious channels to perception of the objective world, representing precious and desirable shortcuts to the logical formulation of our hypothesis. These possible new roads to scientific conception are hypothetically addressed in the present paper.
Keywords: science/art interface; inovation; transdisciplinarity; epistemology; multimodal perception.
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Conquanto dotado de recursos lógico-imaginativos, o homem por definição encontra-se amarrado à condição de transdutor de uma realidade física incomodamente inalcançável. De fato, nosso mundo exteroceptivo nos apresenta um repertório virtualmente infinito de estímulos sensoriais, e somente através destes, torna-se possível perscrutar os 'objetos' físicos que compõem o ambiente vivencial do homem. Estes mesmos estímulos se constituem em provocadores de um escrutínio lógico que corporifica o eixo central da construção do conhecimento científico e sua estruturação como ciência. A ciência, portanto, é definida como um campo intelectual artificialmente concebido, de natureza teórico-experimental onde, intencionalmente, idéias e fenômenos são amplamente aceitos, pois respaldados por interpretações lógico-consensuais e pela previsibilidade possível para o momento. Neste sentido, a ciência representa em si mesma um sistema de manifestação de objetos de conhecimento, sejam estes abstratos ou concretos, que os torna potencialmente acessíveis a todo e qualquer homem.
O caráter transversalizador da ciência, no entanto, o que a faz ainda que perecível, pois refutável, subsistir como verdade dinâmica no plano intelectual, é conferido por um recorte de nossas vivências cognitivas, de nossas 'traduções' perceptuais, reduzidas aos níveis da lógica pura e da experimentação controlada. Acredito que a lógica transita por níveis adicionais. Nestes, a lógica pura se revestiria de arcabouços cognitivos inatos, em si mesmos constituindo sensores, filtros capazes de perceber e projetar estruturas organizacionais físicas, emanentes de nosso mundo externo, numa relação de continuidade com a realidade subjetiva vivenciada na construção de concepções complexas, significadas como 'mundo' pleno, 'eu' e 'outro'. Esta 'matéria escura' perceptual, proponho, transparece em nossas vivências lógico-estéticas, lógico-sentimentais e lógico-éticas, e manifesta-se como sensações de êxtase estético e emocional complexas (apreciações formal e afetiva elaboradas) e como sensações referenciais de auto-identidade e empatia. A percepção desta suposta ordem física de enredamento do sujeito ao mundo, evidente em níveis de complexidade máximos no homem, seria coerentemente responsável pelo desenvolvimento da...
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... consciência individual, enquanto preservaria, na correspondência com o mundo físico, o caráter racional.
Menos explicitamente, e justificando a manutenção destes atributos de processamento cognitivo no homem, proponho que as lógicas estética, ética e emocional/sentimental estejam nas raízes das idiossincrasias, de processos criativos complexos e de interferências descomprometidas com planos evolutivos, somente alcançáveis (na plenitude que conhecemos) por nossa espécie. Por outro lado, através da ciência tradicional, somos apresentados a um universo de fenômenos físicos definíveis e controláveis por instrumentos intelectuais e experimentais baseados na lógica pura e no método cartesiano. Ainda que cientes de que nossas mais confiáveis 'verdades' encontram-se definidas no campo de uma ciência dependente de nossos filtros perceptuais (sejam nossos sentidos biológicos ou seus protótipos tecnológicos), resultando numa descrição parcial e freqüentemente imprecisa de uma imperscrutável realidade física objetiva, dependemos dos avanços científicos, reconhecemos a eficácia de seus pressupostos na busca por soluções pragmáticas para os nossos problemas e pelo alargamento de nossa consciência intelectual de mundo. Mas a ciência tradicional nos impõe limites para a apreciação, formulação hipotética e insight, que provavelmente justificam nossos atuais hard problems, nossos maiores desafios, emblematicamente exemplificados nas neurociências pela nossa completa incapacidade de definir a natureza intrínseca do pensamento e da consciência, ou mesmo de decifrar as bases fenomenológicas e conceituais do acoplamento mente-corpo.
Os avanços da ciência dependem do desenvolvimento de uma frente dupla e complementar de leitura e ação do homem em seu mundo perceptual/representacional e em si mesmo, enquanto sujeito, alimentado pelas idiossincrasias, processos criativos e interferências intencionais, mencionados acima. Esta alça de retroalimentação positiva é uma base importante para a hipótese defendida por meu grupo, de que a ciência e o conhecimento como um todo carecem de um novo campo de apreciação, de imersão científica por subjetivação, um fertilizador de nossos caminhos conjecturais.
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Portanto, nossa proposta passa pelo redimensionamento das construções perceptuais em ciência mediante a contextualização multimodal, transdisciplinar dos objetos de interesse científico; não defendemos propriamente a transformação dos critérios de validação pela lógica ou pelo método científico tradicionais, mas dos caminhos perceptuais que nos levam ao objeto de ciência.
Apostamos na possíbilidade de extrair diferentes significados de um objeto de escrutínio científico, sobretudo na linha de continuidade deste com o homem, mediante a apreciação/análise em níveis das lógicas estética (a lógica da forma) e ético-afetiva. Implícita nesta proposta está a vivência de níveis mais elaborados e subjetivados da lógica racional, e por conseguinte, o alargamento dos níveis de introspecção analítica, sintética e hipotética, bases metodológicas essenciais em ciência.
Para chegarmos à objetividade, a subjetividade pode ser um precioso e necessário atalho. Na apreciação subjetiva, a lógica formal se complementa com imersões intelectuais de valor estético-emocional, galgando caminhos lógicos outros que, a despeito de potencialmente falíveis, representam no entanto, instrumentos de uma experimentação mais profunda e mais completa do mundo objetivo. Uma conseqüência seria a detecção de novos níveis de ordem física ainda não transpostos para a lógica pura, mas cujo conhecimento faz-se necessário para a percepção e compreensão de alicerces estruturais e operacionais de nossos mundos referenciados, a exemplo da consciência.
Acreditamos que as leituras acêntricas, atemporais, desterritorializadas que acontecem em níveis de consciência ultra-simbólicos (experimentados quando o sujeito atinge conscientemente a solução de um problema antes de percorrer sua construção lógico-formal completa) encontram-se favorecidas na imersão artística, levando freqüentemente à antecipação da objetividade lógica formal que ancora tradicionalmente a construção do conhecimento científico. Propomos, portanto, seja a arte o mediador por excelência desta releitura da ciência em bases das lógicas subjetivadas estética e ético-afetiva.
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Combinar explicitamente e intencionalmente arte e ciência pode ser mais confortável do que se supõe, uma vez que a separação destes dois gigantes intelectuais é uma imposição artificial diante do crescimento exponencial destas escolas, um recorte que tenta viabilizar a formação e atuação dos especialistas de uma e outra escola.
Podemos reconhecer paralelos entre motivadores cognitivos nos exercícios aparentemente díspares da produção artística e da investigação científica. Apesar de submetidos às regras rígidas do método científico, o cientista pode identificar ordem, beleza e congruência numa análise do objeto científico que beira a estética e que claramente reproduz valores da apreciação intelectual artística, denunciando o sujeito na figura do cientista. No entanto, esta é uma condição rasa no mundo árido da ciência formal, facilmente sobrepassada pela roupagem direta e impessoal da ambiência regrada e do pragmatismo científicos.
Conquanto no passado humanista/renascentista arte e ciência se complementassem num mesmo homem, em nossos dias, com o agigantamento das escolas, esta fusão torna-se possível e mais provável se deslocada ao nível dos objetos do conhecimento. Tão abstrato quanto um pensamento, ou tão concreto quanto a forma biológica, na visão de meu grupo este objeto de unificação intelectual ganha o caráter multimodal, torna-se um metaobjeto, eventualmente referenciável, portanto, nas diferentes escolas, científica, artística e filosófica. Ao agregarem valores de trânsito destas três escolas do saber, os metaobjetos elegeriam uma interpretação, uma apreciação igualmente multimodal, permitindo ao indivíduo transcender os vícios perceptuais de sua própria escola, e dando-lhe instrumentos para o aprofundamento de suas questões conceituais em níveis de livre trânsito intelectual proporcionado pela contextualização do metaobjeto. Desta forma, especulamos, estaremos fertilizando novos caminhos para a lógica formal, através de um novo observador, para uma nova ciência.
O universo precisa de todo o universo para se explicar. E isto é lógico.
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REFERÊNCIAS:
Curriculum vitae MMF (Plataforma Lattes) http://lattes.cnpq.br/3588792476990568
Link acadêmico do Projeto Anatomia das Paixões: Ciência e Arte no Caminho do Som: http://caminhodosom.blogspot.com/
Link para grande público do Projeto Anatomia das Paixões: Ciência e Arte no Caminho do Som: http://anatomiadaspaixoes.blogspot.com/
http://www.ufrj.br-docs-jornal-2008-outubro_JornalUFRJ38.pdf
http://www.ufrj.br/detalha_noticia.php?codnoticia=6522
http://www.casadaciencia.ufrj.br/AtividadesExtras/anatomiadaspaixoes/album/
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