RÁDIO NA EDUCAÇÃO ESCOLAR: POSSIBILIDADES PEDAGÓGICAS
ROSEANE ANDRELO
Doutora em Educação Escolar pela Unesp/Araraquara e mestre em Comunicação pela Unesp/Bauru. É professora e coordenadora dos cursos de Comunicação Social da Universidade do Sagrado Coração (USC). Foi bolsista da Capes (doutorado-sanduíche) na Université Paris III - Sorbonne nouvelle, onde desenvolveu parte desta pesquisa. Email:
randrelo@usc.br
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Resumo: O cenário que delineia este trabalho é marcado pela centralidade que as tecnologias da informação e comunicação ocupam na sociedade e pela necessidade de incorporá-las na educação, seja a distância ou presencial. Entre as TICs, foi escolhido para análise o rádio, pela penetração que tem no Brasil e pela história de mais de oitenta anos de ações pontuais educativas. Assim, o objetivo deste artigo é discutir o papel do rádio na educação formal. Apoiado em pesquisas de campo e na literatura existente, aponta as possibilidades pedagógicas deste meio de comunicação.
Palavras-chave: rádio na educação; mídia-educação; educação às mídias.
Abstract: The scenario that outlines this work is marked by the centrality of information technology and communication in the society and the need to incorporate them in either distance or classroom education. The radio was chosen for analysis among the ICTs, due to the penetration it has in Brazil and the history of more than eighty years of specific actions in education. The aim of this paper is to discuss the role of radio in formal education. Supported by field research and literature, it points to the pedagogical possibilities of this medium.
Key-words: radio in education; media education; media literacy.
Introdução
O papel de destaque que as tecnologias de informação e comunicação (TICs) assumiram na sociedade, sobretudo a partir dos anos 1990, coloca cada vez mais em pauta a discussão sobre seu uso na educação. Sob as mais diversas perspectivas, discute-se a utilização das TICs, seja na educação a distância ou presencial, como metodologia de ensino ou como conteúdo escolar, ao reconhecer a necessidade de formação para uma leitura crítica das tecnologias.
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Essa discussão é garantida por documentos oficiais, como as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental (1998), que sugerem a apropriação de novas linguagens e tecnologias de comunicação, e a Lei de Diretrizes e Bases no. 9.394/96, que salienta a importância do conhecimento das formas contemporâneas de linguagem no ensino médio e formaliza a proposta de educação a distância. Há, também, fatores situacionais, como a própria centralidade das tecnologias na sociedade e o papel da escola de preparar os alunos para um mundo cada vez mais midiatizado.
Mais do que um modismo, a apropriação das TICs no universo escolar merece uma discussão aprofundada. Caso contrário, elas correm o risco de tornarem-se meros recursos didáticos para ensinar determinados conteúdos, sem que haja qualquer reflexão sobre suas características, ou sejam encaradas como o fim do processo, em uma visão tecnicista da educação.
Dentre as várias TICs, o rádio foi escolhido para análise pela sua história de utilização concreta na educação brasileira e também pelas suas características, apontadas por Ortriwano (1985): baixo custo (é o mais barato, em relação às demais mídias); mobilidade que permite ao receptor (que pode ouvi-lo em casa, no trabalho ou no carro, inclusive fazendo outras atividades); oralidade (basta ouvi-lo, portanto atinge também quem não tem o hábito da leitura); penetração (em termos geográficos, é o mais abrangente, chegando, inclusive, a pontos remotos) e sensorialidade (envolve o ouvinte, fazendo com ele participe de um ´diálogo mental´ com o receptor).
Há que se ressaltar, contudo, que as experiências radiofônicas educativas centraram-se em concepções mais conservadoras, como o processo centrado no professor-emissor, na transmissão de conteúdos estagnados e na avaliação que cobrava do aluno a memorização de aspectos pontuais do conteúdo ensinado. Além disso, a tecnologia tem características próprias e um uso social específico que, nem sempre, atendem aos preceitos educacionais,
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como o fato de as emissoras divulgarem mensagens diversas, de forma fragmentada, em tempo reduzido e intercalando informações e peças publicitárias. Portanto, é necessária uma avaliação sistemática das reais possibilidades educativas do veículo. É esse caminho que percorre o presente artigo.
A mídia vai à escola
À priori, é possível afirmar que as TICs fazem parte da comunidade escolar. Alunos e professores levam, para dentro da sala de aula, informações adquiridas nas mais diversas mídias. Conversam sobre elas, vestem-se segundo a moda que difundiram e formam seus valores, não apenas, mas também pelo que assistiram, leram ou ouviram. Elas selecionam o que vai ser conhecido pelo público e, também, definem o grau de importância que cada assunto deve ter. O que merece ser veiculado em poucas linhas e o que será o grande destaque da edição. Enquanto mediadores entre a realidade concreta e o que a sociedade conhece dela, os meios de comunicação têm papel central não apenas do ponto de vista do conteúdo que divulgam, como também pela forma fragmentada de levar a informação a seu público, acostumando-o a produtos multimídias.
Essa centralidade da mídia mereceria uma atenção maior na escola, que deveria incluir os meios de comunicação em seu conteúdo, deixando de tratá-los apenas como metodologia. Essa lógica vale para todos os meios e também para todos os gêneros, seja o informativo - como se deu a seleção de determinado assunto em detrimento de outro? todos os lados envolvidos puderam se expressar?; o entretenimento - por que determinadas músicas são veiculadas várias vezes ao dia?; ou o publicitário - qual o valor de uso e o valor simbólico de determinado produto? por que a exploração do corpo feminino na venda de determinados produtos?
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De uma forma ainda mais profunda, é preciso discutir a função dos meios de comunicação, essencialmente o rádio e a TV, considerados serviço público. Por essa perspectiva, os professores farão mais do que utilizar determinada mídia como um mero instrumento, seja o rádio para veicular uma música ou a TV para mostrar uma matéria sobre meio ambiente, como forma de sensibilizar a classe para depois discutir a temática. As tecnologias podem ser um meio para inserir determinado debate, mas só isso não basta para suprir as demandas educacionais.
Ao inserir os meios de comunicação na escola, é possível fazer uma distinção entre duas correntes: a educação às mí0dias, que pressupõe a leitura crítica dos meios de comunicação, e a educação pelas mídias, baseada no uso de suporte midiático, seja na educação a distância ou presencial. O pressuposto deste trabalho é que as duas devem ser integradas. Afinal, não é mais possível ensinar com o rádio, a televisão, o jornal ou a internet sem ensinar ao mesmo tempo a competência midiática e a análise das mídias tão presentes na vida cotidiana da escola (PICHETTE, 1996).
Por que o rádio?
A literatura, o depoimento de professores e o acompanhamento em escolas (1) permitem uma avaliação geral do uso do rádio enquanto ferramenta pedagógica. De forma
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resumida, pode-se elencar as seguintes possibilidades (ASSUMPÇÃO, 1999, 2002; CLEMI, 2002; DAY, 2007; ÉTIENNE, 2006; LUCAS, 1997):
- Abertura do espaço escolar ao que acontece no meio em que estão inseridos: seja ao levar trechos de programas jornalísticos ou, principalmente, ao permitir que os alunos produzam um radiojornal. Afinal, entre os assuntos escolhidos estão aqueles ligados diretamente à escola, mas também outros do mundo em geral;
- Exercício de cidadania: os alunos vão se informar sobre o que acontece no mundo e também discutirão a relevância de aborda-los na rádio da escola, escolhendo as informações que os demais colegas deverão ter sobre aquele assunto;
- Despertar da responsabilidade: o trabalho desenvolvido não ficará mais restrito ao professor, já que o programa será ouvido por um número maior de pessoas. Isso serve como motivação, mas também requer maior seriedade;
- Trabalho em equipe: um programa radiofônico não se faz sozinho. A escolha dos assuntos do radiojornal é feita em reunião, com a sugestão e análise de todos os participantes. Além disso, é preciso uma divisão do trabalho;
- Melhora na produção textual: embora o que chega aos ouvintes seja apenas som, o que é dito pelos alunos é fruto de um texto previamente escrito;
- Poder de síntese: uma das características do texto radiofônico é seu tamanho mais curto. É preciso dar todas as informações relevantes em curto espaço de tempo;
- Hierarquização das informações: discutir e compreender quais as informações são mais relevantes para serem veiculadas;
- Expressão oral: um dos pontos indiscutíveis na produção radiofônica, com os alunos que falam ao microfone;
- Incentivo à pesquisa e gosto pela leitura: para coletar as informações que serão divulgadas, é necessário pesquisar em diversos suportes;
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- Visão crítica à realidade e à mídia: como um dos conceitos básicos do jornalismo é a pluralidade de idéias, os alunos precisarão ouvir vários pontos de vista para compor suas matérias;
- Expressão dos jovens: eles ganham um verdadeiro canal de comunicação com a comunidade na qual estão inseridos;
- Integração dos alunos à escola: atividades como essa agem sobre o afetivo, como motivação, tendo um papel de instrumento de valorização individual e do grupo;
- Transdisciplinaridade: conteúdos de várias disciplinas podem ser trabalhados de forma natural e espontânea;
- Desenvolvimento da imaginação e espaço à criatividade: o rádio é veículo rico em possibilidades de produção. Os alunos podem trabalhar com informação jornalística, peças publicitárias, dramáticas entre outras.
Todas essas possibilidades estão ligadas a diferentes atividades pedagógicas com o rádio - da análise à produção de programas. A escolha da atividade depende de vários fatores, entre eles as habilidades e competências que pretende-se desenvolver. Girardot (2004) destaca as capacidades desenvolvidas no quadro da aquisição da linguagem escrita e falada. A cada grupo de capacidades corresponde uma situação radiofônica capaz de direcionar as potencialidades dos alunos ao caminho desejado.
Entre as capacidades de ordem intelectual, há aquelas ligadas à atenção, como permanecer concentrado sobre uma mesma tarefa e perseverar durante o tempo necessário. Outras estão relacionadas à organização do trabalho, preparando-o com rigor e método, segundo um plano preciso e respeitando regras. Há as capacidades de percepção, memorização e discriminação auditivas e as de percepção temporal.
No domínio da afetividade, destaca-se a aprendizagem de regras da vida coletiva e a sensibilização ao trabalho em grupo. Entre as capacidades lingüísticas, estão a prática da linguagem oral em situação comunicativa; a capacidade de escuta e de reprodução de
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leituras curtas; de releitura e reescuta para corrigir faltas; de compreensão dos outros e dele próprio em relação aos demais; metalingüísticas ao jogar com as palavras e classificar os sons e de dicção adaptada à situação.
Por fim, as capacidades ligadas à função simbólica, dividida em capacidade de expressão e comunicação, de escolha de modos de comunicação e de construção da significação de mensagens recebidas e produzidas. A cada uma dessas mencionadas, cabe uma atividade diferenciada de forma a integrar o uso do rádio ao projeto político pedagógico do curso em questão.
Considerações finais
As tecnologias da informação e da comunicação ocupam um lugar central na sociedade, embora o acesso a elas seja desigual. Dos vários aspectos dessa centralidade, é essencial reconhecer seu papel na educação não-formal, tanto pelo conteúdo difundido quanto pela forma fragmentada com que ele chega ao público. O reflexo dessa centralidade pode ser percebido na educação formal, seja quando as TICs são utilizadas como método de ensino, como conteúdo, no caso dos programas de educação às mídias, ou mesmo sem que haja intencionalidade, já que os atores sociais levam informações, valores e formas de ver o mundo que foram construídos com a ajuda das tecnologias. Cabe à educação formal a sistematização e a reflexão sobre esses aprendizados. O pressuposto é que o papel da escola deve ir além do ensino de conteúdos escolares, trabalhados de forma estanque e, muitas vezes, sem relação com a realidade dos alunos. Esse é um dos pontos que o rádio pode contribuir enquanto uma ferramenta pedagógica.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ASSUMPÇÃO, Zeneida Alves de. Radioescola: uma proposta para o ensino de primeiro grau. São Paulo: Annablume, 1999.105
___________________________. A rádio no espaço escolar: um estudo de caso comparativo. Revista de Estudos da Comunicação, Curitiba, no. 5, mar. 2002, p. 61-68.
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional no. 9.394/96, de 20 de dezembro de 1996 [LDB]. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil/LEIS/L9394.htm. Acesso em: 1º. dez. 2007.
_______. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares para o Ensino Fundamental. Brasília: Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, 1998. Disponível em: http://www.diariooficial.hpg.com.br/fed_res_cne_ceb_021998.htm. Acesso em: 1 dez. 2007.
Centre de Liaison de l'Enseignement et des Médias d'Information [CLEMI]. La radio, média des jeunes - en milieu scolaire et associatif. Paris: CFPJ Éditions, 2002.
DAY, Karine. Radio, télé, cinéma ... ouverture sur le monde au CDI. Revue Inter CDI, Etampes (França), no. 207, p. 12-15, mai/jun. 2007.
ÉTIENNE, Bénédicte. La radio en cours de français - élaboration d'une parole radiophonique. Les cahiers innover e réussir, Créteil (França), no. 12, p. 20-24, mar. 2006.
GIRARDOT, Jean-Marie. La radio en milieu scolaire: un outil pédagogique pour la maîtrise des langages et l'approche de la citoyenneté. Besançon (França): Clemi; CRDP, 2004.
LUCAS, Éric. " Ce n'est pas parce qu'on est jeune qu'on n'a rien à dire ". In : CHENEVEZ, Odile (Coord.). Les élèves acteurs de leurs médias. Paris: Centre National de Documentation Pédagogique, 1997.
ORTRIWANO, Gisela Swetlana. A informação no rádio: os grupos de poder e a determinação dos conteúdos. 3ª ed. São Paulo: Summus, 1985.
PICHETTE, Michel (Org.). Vivre avec les médias: ça s'apprend ! Québec/Montreal : Centrale de l'enseignement du Québec ; Service aux collectivités de l'Université du Québec à Montreal, 1996.
NOTAS:
(1) Para compreender melhor o papel do rádio enquanto recurso didático foi acompanhado o trabalho de professores da França e da Bélgica, dois países que incluíram a educação às mídias em suas políticas educacionais. Trabalho desenvolvido em 2007, com bolsa de doutorado-sanduíche concedida pela Capes.
Recebido: 07/10/2009
Aceito: 05/11/2009