MERCADO EDUCACIONAL E IDENTIDADE CULTURAL: EFEITOS DA GLOBALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO SUPERIOR
MARICI CRISTINE GRAMACHO SAKATA Profa. Dra. Pesquisadora do TECSI FEA USP da Universidade de São Paulo. e-mail mcsakata@usp.br
MARIA APARECIDA BACCEGA Dra. Escola da Comunicações e Artes ECA Universidade de São Paulo e Professora e Pesquisadora do Mestrado da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e-mail magba@usp.br
SANDRA RAQUEL PINTO ALVES Profa. Doutoranda. Escola Superior de Tecnologia e Gestão - Portugual e-mail raquel.alves@estg.ipleiria.pt
EDSON LUIZ RICCIO Prof. Livre Docente. Universidade de São Paulo. Faculdade de Economia, Adminstração e Contabilidade FEA. Diretor TECSI FEA USP e-mail elriccio@usp.br
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Resumo: Pesquisar a relação entre a globalização e a educação superior permite um melhor entendimento das questões locais, no âmbito das discussões mundiais e teorias sociais. Com isso, o objetivo deste artigo é analisar os efeitos da globalização no contexto educacional. Quanto à metodologia, foi feita uma pesquisa bibliográfica e documental. As teorias de globalização e modelos atualmente disponíveis na literatura serviram de base para um melhor entendimento da natureza, objeto, estrutura e dinâmica da globalização. Os resultados foram comparados com a literatura, e foram fundamentais para uma compreensão aprofundada de como a globalização influencia os processos educativos, assim como, em que ponto as ações podem ser tomadas em relação a esse fenômeno - como agentes ativos frente às mudanças globais. Outro resultado importante foi a prova de que as instituições educacionais são um espaço fundamental para a reflexão da identidade e cultura - portanto, o ensino superior não deve concentrar-se apenas no que for mostrado como sendo uma tendência – ou seja as práticas de mercado.
Palavras-chave: Globalização, Educação Superior, Identidades culturais, Imperativos, Desafios e Oportunidades
EDUCATIONAL MARKET AND CULTURAL IDENTITY: EFECTS OF GLOBALIZATION IN HIGHER EDUCATION
Abstract:The investigation on the relationship between globalization and higher education sponsors a better understanding of local issues within the context of global discussions and social theories. With that in mind, the objective of this article is to analyze the effects of globalization on the educational background of Business by examining higher education courses. As for methodology, literature research was done. At a first moment globalization theories and models currently available in the literature served as the basis for a better understanding of the nature, the object, the structure, and the dynamics of globalization. Results were compared with the literature, and they were invaluable for a deeper understanding of how globalization influences educational processes as well as where action can be taken – as active agents facing global changes – in regard to that phenomenon. Another major result was the evidence that educational institutions are a key space for reflection on identity and culture – therefore, higher education should not only focus what was shown to be a trend - market practices.
Keywords: Globalization of Higher Education:Cultural Identities, Imperatives, Challenges and Emerging Opportunities
1- Introdução
Incontáveis definições de globalização podem ser encontradas em artigos, livros e revistas. O termo globalização está presente nos meios de comunicação e é utilizado tanto para explicar as crises e os problemas mundiais como as grandes evoluções tecnológicas e o crescimento do fluxo de informações e produtos entre países.
Diferentemente dos processos de internacionalização, em um ambiente globalizado as ações e políticas definidas pelos órgãos internacionais passam a ser impostas e incorporadas às políticas dos países menos desenvolvidos em diversos planos, inclusive no plano educacional. Com isso, os países são pressionados pelos programas de financiamento a atenderem índices e padrões de qualidade. “A compreensão de tais movimentos e forças constitui parte fundamental da análise sociológica do desenvolvimento, já que este implica sempre alterações no sistema social de dominação e a redefinição das formas de controle e organização da produção e do consumo” (Cardoso e Faletto, 2004)(i);
As formas como os profissionais vêem o mundo a partir de seus valores e elementos identitários é fundamental para poderem exercer de forma plena seu papel na sociedade. É necessário superar o julgamento do que seja certo ou errado e entender o mundo como algo muito mais complexo e multicultural, onde os extremos das oportunidades, carências, religiões e tradições têm de conviver. Devemos compreender que a diversidade é uma reestruturação em função do conceito do direito à comunicação. (Matellart, 2002) (ii).
O levantamento bibliográfico possibilitou verificar a existência de um vasto conjunto de artigos, livros e textos publicados, tanto a respeito do fenômeno da ...
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... globalização de forma geral, como também específicos à globalização e à educação superior - o que demonstra ser esta uma preocupação presente no campo.
A justificativa da pesquisa é a necessidade de sistematização do conhecimento surgido nas últimas décadas envolvendo a globalização, a educação e a comunicação para compreender como cada país tem reagido à globalização e à manutenção de seus valores e elementos identitários.
Este estudo é importante para entender como é possível, por meio dos modelos de globalização, analisar sua influência na educação superior. Isto é necessário para se entender as razões e as conseqüências a curto e longo prazos. Espera-se com os resultados perceber como é possível, a partir deste entendimento, maximizar as vantagens e minimizar as desvantagens neste novo cenário.
Devido à globalização, uma das principais mudanças que vem ocorrendo em muitas outras profissões, é a movimentação e o deslocamento de pessoas de um país para outro em busca de melhores condições de vida e oportunidades de crescimento profissional. Assim, os profissionais e recém-formados buscam, cada vez mais, estar em conformidade com os padrões mundiais de sua área para que possam ter mobilidade de atuação, seja em outros países, seja em empresas multinacionais em seu próprio país. As instituições de ensino passam a se preocupar com os resultados e não com o processo de formação – e é no processo que os valores e elementos identitários se reforçam. A modernização desenfreada leva à perda do bom senso e do que foi constituído ao longo do tempo a partir da utilização de novas técnicas e teorias de massas.
Procedimentos Metodológicos
Pesquisamos as teorias sobre modelos de globalização para compreender a natureza, o objeto, a estrutura e a dinâmica da globalização. Achamos importante distinguir os diferentes discursos sobre a globalização e definir a globalização do ponto de vista da educação.
A literatura sobre a globalização é ampla e apresenta diversas visões econômicas, sociais e culturais que utilizamos nesta tese para a construção e os fundamentos da estrutura de análise.
A globalização vai além da internacionalização e da multinacionalização, uma vez que os sistemas nacionais deixam de ser o núcleo central das atividades e estratégias humanas organizadas. O padrão moderno ocidental de homogeneização e uniformização, concebido por Leibniz e Marx, é substituído pela eliminação de fronteiras, concomitante à criação de particularismo e identidade étnica. (Santos, 2002) (iii)
Todas as práticas ocorrem por meio de instituições e são constituídas de uma lógica de poder, uma forma de direito, conflitos estruturais e critérios de hierarquização.
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A instituição social busca sempre o reconhecimento interno e externo. Para Chauí (2003 (iv)), a universidade deveria ser considerada uma instituição social e não uma organização social como tem sido considerada atualmente. Uma instituição social é uma:
prática social fundada no reconhecimento público de sua legitimidade e de suas atribuições, num princípio de diferenciação, que lhe confere autonomia perante outras instituições sociais, e estruturada por ordenamentos, regras, normas e valores de reconhecimento e legitimidade internos a ela.
Os elementos institucionais, por sua vez, movem-se no tempo e de um lugar para outro com ajuda de portadores (carriers). Scott (2003 )(v) define quatro tipos distintos de portadores: sistemas simbólicos, sistemas relacionais, rotinas e artefatos. Os portadores não são veículos neutros, e têm efeitos importantes nos elementos transmitidos. Definem, traduzem e disseminam idéias e conceitos racionalizados em um nível supranacional e legitimam as instituições de acordo com seus conceitos. Esta viagem de idéias e tradução de conceitos ocorre não pelas instituições propriamente ditas, mas pelos indivíduos que nelas atuam e definem os sentidos (Latour, 1987 (vi) )
Distinguimos aqui dois tipos de instituições: 1) as instituições organizacionais de ensino superior de cada país, e 2) as instituições portadoras, no caso as instituições organizacionais internacionais que atuam globalmente definindo padrões, regras e recomendações que afetam as políticas dos Estados e seus setores organizados. Por exemplo, os acordos políticos internacionais de harmonização do sistema educacional, como o Acordo de Sorbonne-Bologna-Prague (Vaira, 2004 (vii) ) e as políticas macroeconômicas originadas em determinados períodos da história que deram origem à criação de instituições como o Banco Mundial e o FMI - Fundo Monetário Internacional.
Durante muito tempo as IES mantiveram um mesmo padrão de funcionamento e valores, fundamentado em um sistema político e regulador nacional reproduzido ao longo da história. Estes padrões e valores estão sendo pressionados pelas mudanças ocasionadas pela globalização, que força a redefinição do papel das IES, das suas políticas e prioridades. (Vaira, 2004)(viii)
Embora a palavra “acordo” signifique harmonia, conformidade ou concordância de idéias, os acordos firmados entre atores em diferentes posições de poder não necessariamente refletem harmonia entre as partes. Os acordos econômicos e políticos refletem mais uma necessidade de manutenção do equilíbrio econômico do que um desejo social coletivo.
Os países hegemônicos possuem forte poder sobre os acordos comerciais mundiais, e por meio das instituições que os representam criam regras e determinam padrões para assegurarem o cumprimento dos acordos e contratos. Entendemos por hegemônico o Estado em posição privilegiada de poder e com capacidade de manter a estabilidade de seus...
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... sistemas. Os enfoques hegemônicos possuem um viés econômico para que se possa pensar em critérios do poder.
Assim, neste jogo, ou neste campo, como em Bourdieu, as regras a serem seguidas são definidas não por qualquer um dos jogadores mas por aquele que tem domínio e está em posição de destaque. Neste mesmo sentido, as regras e recomendações que as instituições internacionais impõem aos países dependentes de seus financiamentos e apoios são feitas pelos países que dominam o jogo.
Quanto à globalização, o ideal seria que os benefícios da globalização se estendessem a todos os países; que fossem removidos os obstáculos de desenvolvimento como déficits, instabilidade e protecionismos; que fossem dadas condições para uma integração bem-sucedida na economia global e que as políticas fossem pensadas e apropriadas para cada país e cada realidade, que os benefícios da globalização recaíssem sobre o sistema educacional de forma a melhorá-lo e ampliá-lo, e que fosse criada a consciência de que países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos devessem ter seus sistemas educacionais garantidos e protegidos dos efeitos negativos da globalização.
Por fim, a literatura sobre a Globalização nos mostra que as instituições de Ensino Superior transformadas em Organizações respondem, com maior ou menor resistência, às pressões econômicas, políticas e sociais transportadas ao seu ambiente por meio das instituições portadoras e por meio de políticas, adaptando seu sistema nacional ao sistema mundial.
A Globalização e a Internacionalização do Sistema Universitário
O termo “globalização” se popularizou nas décadas de 1960 e 1970. Hoje é tema de intenso debate intelectual e popular (Held e Mcgrew, 2001)(ix). O fenômeno da globalização é comumente visto como “a ordem do dia; uma palavra da moda, uma encantação mágica, uma senha capaz de abrir as portas de todos os mistérios presentes e futuros.” (Bauman, 1996)(x) ou “um fenômeno multifacetado com dimensões econômicas, sociais, políticas, culturais, religiosas e jurídicas interligadas de modo complexo (Santos, 2002)(xi).” Talvez a globalização seja tudo isso junto.
Para compreender a relação entre globalização e educação há a necessidade de se ter uma visão ampla que apreenda as relações entre as várias dimensões, a estrutura de suas interligações e as forças atuantes. Sem esta forma de análise não seria possível uma compreensão adequada. Por outro lado, é necessário que sejam feitos recortes para dar conta do objetivo proposto.
A globalização tem causado mudanças fundamentais na economia e na política mundial. Na visão de teóricos sociais o mundo de hoje é organizado e acelerado pela globalização (Hobsbawn, 1998 (xii) , Kellner, 2002 (xiii) , Bates, 2003(xiv) ). Do ponto de vista 2de ...
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... Hirst (2002 )(xv) a globalização tem promovido interconexão, em âmbito internacional. No entanto, para Zinkin (2001 ) (xvi), esta depende de uma idéia que por sua vez é materializada em produtos, instituições ou investimentos, como os projetos desenvolvidos pelo Banco Mundial, entre outros (Neu et al. 2002)(xvii) .
Muitas definições são dadas a este fenômeno e uma delas, onde a maioria dos conceitos é convergente, é a de que a globalização é um fenômeno comunicacional, tecnológico e principalmente econômico no qual o comércio internacional, investimentos e fluxo de capital crescente conduzem à integração de sistemas econômicos e políticos locais, sustentados por trocas sociais, culturais, e tecnológicas. (Riccio e Sakata, 2004)(xviii).
Por não ocorrer de forma homogênea em todos os países, isto significa que algumas regiões podem ser mais globalizadas que outras - dependendo do que é considerado como o objeto de globalização, isto é: capitais financeiros, produtos físicos, serviços, profissionais, educação, informação, conhecimento e cultura, ou o conjunto de todas elas. A informação, o conhecimento e a cultura, por exemplo, podem ser facilmente globalizados porque podem ser compartilhados simultaneamente ao redor do mundo devido ao desenvolvimento dos sistemas de comunicações (Giddens, 1999)(xix). O termo sistema é bastante utilizado neste contexto, e em especial o termo sistema-mundo que Ortiz (2003)(xx) define “como um conjunto articulado no interior do qual todos os elementos se encontrariam funcionalmente determinados pelo todo”.
Organismos Internacionais e a Educação como Serviço
Além dos órgãos nacionais, existem atualmente diversas organizações internacionais de natureza intergovernamental que atuam no campo educacional. Podem-se distinguir os organismos internacionais envolvidos com o sistema de educação superior em organismos financeiros e de recomendação. Os principais organismos financeiros são o Banco Mundial (World Bank), o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os principais organismos de recomendações são a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), Organização Mundial do Comércio (OMC), Organização das Nações Unidas (ONU) e a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), entre outros.
Embora não exerçam poder de decisão, os organismos internacionais, principalmente os financeiros, têm grande influência sobre as políticas dos países, e suas metas emergem a partir dos modelos dos países à frente do desenvolvimento. Cada organismo segue sua linha de políticas e não necessariamente concordam entre si. Tanto os financeiros como os de recomendação atuam fortemente em pesquisas e estatísticas, e inúmeros documentos são disponibilizados em formato digital para acesso. Tais ...
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... documentos são altamente relevantes para a análise do desenvolvimento dos setores em determinados países e em comparação aos demais.
2. O PAPEL DA EDUCAÇÃO NA TRANSMISSÃO DE ELEMENTOS IDENTITÁRIOS E CULTURAIS EM TEMPOS DE GLOBALIZAÇÃO
A Transmissão de Elementos Identitários e Culturais
Os conhecimentos e técnicas desenvolvidas e acumuladas ao longo da história são necessários para nossa manutenção, por isso, somos capazes de acumular conhecimentos adquiridos de forma direta através de nossas experiências vividas, mas também através da cultura e da educação. Assim, criamos o mundo artificial (xxi) à nossa volta através do trabalho incorporado em outras atividades, na cultura e nos valores, também criamos novas necessidades e novos valores e liberdades de opções. Nesse processo, não somente transformamos a natureza, mas também transformamos a nossa própria natureza. Desta forma, nos apropriamos dessa evolução e a transmitimos, e isso passa a constituir nossa história, caracterizando-nos, assim, como um ser histórico, atuante no mundo. A escola não é uma instituição isolada. Ela se insere em um quadro político, econômico e social e por isso, sofre influências do ambiente externo e, portanto a escola também sofre influências da globalização.
Por razões econômicas e políticas, a globalização tem sido um dos principais fenômenos responsáveis pela crescente pressão para a definição de identidades – sejam elas identidades nacionais, culturais ou de outra natureza. A tecnologia disponível tem servido para unir as pessoas em grupos e tem dado vozes a movimentos emancipatórios. Por outro lado, também tem provocado uma perda de autonomia e fragmentação do sujeito. Para Hall (xxii) “novas” identidades estão surgindo e o homem moderno está cada vez mais fragmentado, descentrado social e culturalmente e em “crise de identidade”, ou seja, sua identidade tornou-se móvel e corre o risco de ser, inclusive, contraditória. A globalização tem contribuído ainda mais para esta fragmentação do sujeito, pois produz uma variedade de possibilidades de identificações, tornando as identidades mais políticas e posicionais. Ao mesmo tempo em que são criados grupos que tentam recuperar tradições puras do passado, estes mesmos grupos acabam excluindo e afastando o outro.
No contexto deste trabalho, entendemos Identidade como construções sociais e culturais formadas pela alteridade. Tal identidade não é escolhida, mas inscrita em relações de poder e, portanto, está em constante processo de movimentação (e transformação) dependendo como o sujeito é representado pelos sistemas culturais e sociais que o rodeiam. (Magalhães, Coracini, Grigoletto, 2006) (xxiii).
Quanto à identidade cultural, vemos que a Cultura não busca o particular, mas sim o indivíduo e sua relação com o universal. Eagleton (2000) (xxiv).
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A literatura também nos mostra que a educação é responsável pela transmissão de nossos valores, nossa cultura e nossos elementos identitários, ou tradição, como em Arendt, tanto por meio da relação professor-aluno, instituição-aluno, como também de seu plano pedagógico, sua missão e estrutura curricular. Concordamos com Oliveira (2006) que as instituições e seus projetos educacionais são matéria-prima privilegiada na construção de identidades. (xxv)
No entanto, verificamos que a educação é uma das formas – que está perdendo força - de reforçarmos valores e cultura. Se o movimento de globalização leva a uma homogeneização dos cursos (xxvi), padronização e diminuição dos currículos, seja para concorrer com o mercado internacional seja para diminuir custos, isso nos leva a crer que cada vez mais os valores culturais e elementos identitários não estarão expressos na grade curricular, ficando a cargo da relação professor-aluno, sem garantias formais para que isso ocorrera.
Por outro lado, a pressão pela busca de identidades continua a ocorrer na sociedade devido à globalização e à fragmentação do sujeito. Desta maneira, formam-se grupos com elementos e objetivos comuns. Alguns grupos têm se destacado pelos movimentos que realizaram nas últimas décadas, como os nacionalistas, os de direitos civis, feministas e ecológicos, entre outros.
Os elementos identitários estão representados na sociedade pelas instituições, pelas práticas, pelos rituais e pelas estruturas de poder e por isso, a instituição de ensino tem grande importância em pensar as múltiplas identidades. No contexto da educação, Bernstein (xxvii) cunhou o termo “discurso pedagógico oficial” que Oliveira (2006) (xxviii) utiliza para explicar que as “identidades pedagógicas” têm como objetivo o controle sobre os discursos que regulam os conteúdos e o processo de “entrada” na instituição escolar. Desta forma mantêm e preservam (se assim o quiserem) as tradições, seja no campo religioso, cultural ou nacionalista. As práticas discursivas desempenham papel fundamental nesse processo de construção de representações coletivas. Atualmente, o sistema educacional tem se adaptado às leis mercadológicas e simbólicas e, conseqüentemente tem reconstruído sua identidade a partir de elementos retrospectivos e prospectivos.
A questão da identidade não é um problema somente nos países e povos menos desenvolvidos, mas tem sido um ponto de grande discussão dentro da Comunidade Européia. Para Mauleón (2003) (xxix) a Europa deve ser entendida dentro de uma estrutura complexa e não-linear. Os europeus devem criar uma identidade européia por razões políticas e devem manter sua identidade nacional. No entanto, no campo educacional, segundo Figueiral (2003)(xxx) as mudanças impostas pela comunidade européia nem sempre têm sido feitas levando em consideração esta estrutura, e muitos professores adaptaram suas aulas e seu programa para integrar-se aos diferentes modelos sem realmente saber os ...
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... fundamentos destes novos modelos. Com isso, elementos identitários nacionais podem ser perdidos.
3. CONCLUSÃO
Bourdieu e Passeron (1967(xxxi)) já havia o comentário de que a educação apta a formar homens integrais havia sido substituída desde 1940 por uma reflexão de cunho mais técnico e operacional, para se alcançar a rentabilidade da educação no processo de desenvolvimento econômico. Segundo nota, deste mesmo artigo, esta questão pode ser verificada também nos escritos do século XIX sobre a necessidade da educação profissional em contraposição ao excesso de educação clássica. De fato, o problema surge com o capitalismo e a racionalidade econômica. Freqüentemente, lemos nos jornais estudos sobre a crise da educação e vemos que todos os resultados são medidos a partir de indicadores que medem apenas a racionalização dos recursos, ou seja, número de evasões, número de diplomados, a produtividade e o rendimento, entre outros. Também nos deparamos com comparações entre sistemas educacionais de diferentes países, diferentes culturas e sistemas políticos. Cada sistema de ensino está fortemente ligado à sua história, regime político e cultura local. As comparações que não levam em conta estas questões correm o risco de descaracterizarem um sistema e induzirem à criação de outro que não corresponde às características locais.
Segundo Teixeira (1969) (xxxii) “ninguém desconhece que se a educação é cada vez mais fraca, o anúncio e a propaganda são cada vez mais fortes e a nossa sociedade é uma sociedade cujo objetivo se reduz ao de consumir cada vez maiores quantidades de bens materiais”. Neste sentido, Santos que (2000)(xxxiii) diz que na atualidade as empresas produzem o consumidor antes do produto e por isso necessitam de um império de informação e publicidade e como conseqüência, vivemos em um sistema ideológico construído ao redor do consumo e da informação ideologizada, que acaba sendo o motor das ações públicas e privadas. Para Santos, o consumismo unido à competitividade levam a um emagrecimento moral e intelectual da pessoa, à redução da personalidade e da visão de mundo.
As instituições globalizadas, no limite, se não forem regulamentadas, tendem naturalmente à geração de serviços/produtos a serem consumidos e à competitividade. Não por serem contra a educação integral ou por desprivilegiarem a educação, mas pelo simples fato de que são Organizações/Empresas que têm a educação como um serviço a ser vendido visando ao lucro.
Não podemos negar que há uma ambivalência na Indústria Educacional. Há uma razão instrumental movida por questões econômico-financeiras, mas há também um ganho social. De uma escola destinada apenas à elite passamos para uma escola de massa que resulta um crescente número de diplomados anualmente, com maiores chances de alcançar ...
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... um bem-estar mínimo e espaços na sociedade. No entanto, estes espaços alcançados se limitam às funções de mão-de-obra e não de cidadãos atuantes na sociedade. Porém, não podemos nos contentar com estes ganhos, é necessário irmos além e buscar uma outra globalização, assim como defendeu Milton Santos.
Os efeitos da globalização estão sendo discutidos ao redor do mundo, não são irreversíveis. Os debates e a atenção que têm sido dados aos desmatamentos e ao aquecimento global demonstram que é possível repensar a globalização, buscar alternativas e agir de forma diferente apesar das barreiras e dificuldades encontradas ao longo do caminho.
A tecnologia permite que em vez de uma única voz, indivíduos e grupos se manifestem e tenham espaço para se expressar. Por enquanto, são discursos fragmentados, mas que podem tomar corpo e força em pouco tempo.
A crise da educação também tem sido discutida e a má qualidade de algumas organizações educacionais também tem levado a se questionar o sistema. Embora o momento atual seja de expansão da Indústria Educacional esta também terá seus resultados analisados pela população.
Acreditamos que uma possibilidade de se ter um sistema educacional equilibrado seria alterar o sistema privado para um sistema misto. O sistema privado da forma como se apresenta não é capaz de cumprir com os objetivos da verdadeira Educação.
Recebido: 09/10/2009
Aceito: 05/11/2009
NOTAS:
(i) CARDOSO, F. H. e FALETTO, E. Dependência e desenvolvimento na América Latina: Ensaio de interpretação sociológica, 8ª ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2004. pg.37
(ii) MATTELART, A. La diversité culturelle: entre histoire et géopolitique, GRICIS, Globalisme et Pluralistme, Montreal, avril 2002 (Disponível em www.infoamerica.org/documentos_pdf/Mattelart2.pdf) Acesso em 18/07/2005.
(iii) SANTOS, Boaventura de S, A Globalização e as Ciências Sociais, 2ª Ed. São Paulo: Cortez Ed., 2002
(iv) CHAUÍ, Marilena, Seminário: Universidade: Por que e como reformar? MEC/SESu: 6 e 7 de agosto 2003 Disponível em http://firgoa.usc.es/drupal/node/19336 acesso em 27/12/2207
(v) SCOTT, W. Richard Institutional carriers: reviewing modes of transporting ideas over time and space and considering their consequences Industrial and Corporate Change. Oxford University Press journal Volume (Year): 12 (2003) 4 Pg: 879-894 Disponível em http://ideas.repec.org/a/oup/indcch/v12y2003i4p879-894.html 09.02.2006
(vi) LATOUR, B. (1987) Science in Action: How to Follow Scientists and Engineers through Society. Cambridge, MA: Harvard University Press.
(vii) VAIRA, M. Globalization and Higher Education … 2004, Op. Cit.
(viii) VAIRA, M. Globalization and Higher Education … 2004, Op. Cit.(ix) HELD, D. e McGREW, A. Prós e Contras da Globalização, Rio de Janeiro: Zahar, 2001 do original: an introduction to the globalization debate.
(x) BAUMAN, Z. Globalização, as conseqüências humanas, tradução Marcus Cortesão e Ianni, O. A sociedade Global, 4ª Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, pg. 7
(xi) SANTOS, Boaventura de S. A Globalização e as Ciências ....., 2002 pg.26.
(xii) HOBSBAWN, E, The Nation and Globalization, Constellations Volume 5, N1, Blackwell Publishers, USA, 1998
(xiii) KELLNER, D. Theorizing Globalization, Sociological Theory 20:3 Nov. American Sociological Association, USA, 2002
(xiv) BATES, R., Administering the Global Trap, The Role of Educational Leaders, Educational Management & Administration, Sage Publication, London, Vol 30(2) 139-156, 2002
(xv) HIRST, P and Thompson, G. (2002) The Future of Globalization, Cooperation and Conflict: Journal of the Nordic International Studies Association, Vol.37(3): 247-265 Sage Publications
(xvi) ZINKIN, M, Not New and Never Costless: Globalization, International Relations, Sage Publications,Vol. 15(5):27-36. 2001
(xvii) NEU, D. Ocampo Gomez, E., Ponce de León, O, Flores Zepeda, M. (2002), ‘Facilitating’ globalization processes: Financial technologies and the World Bank, Accounting Forum; Sep-Dec, Vol. 26 Issue 3/4 , p.271
(xviii) RICCIO, E. SAKATA, M. Globalization and Internationalization. Prague, 2004 Proceedings of 27th European Accounting Conference, April 2004
(xix) GIDDENS, A. Runaway World: How Globalization is Reshaping our lives, London: Profile Books, 1999, p.10
(xx) ORTIZ, R. Mundialização e Cultura, São Paulo, Brasiliense, 2003, p.24
(xxi) Marx e Weber apresentam o conceito de mundo artificial
(xxii) HALL, Stuart, A identidade cultural na pós-modernidade, DP&A, Rio de Janeiro, 2003
(xxiii) MAGALHÃES, I, GRIGOLETTO, M, e CORACINI, M. (org.) Práticas Identitárias, Língua e Discurso, São Carlos, Claraluz, 2006. pg.5
(xxiv) EAGLETON, T. A idéia de Cultura, Editora Unesp, 2000
(xxv) OLIVEIRA, M. B. F., Alteridade e Construção de Identidades pedagógicas: (re) visitando teorias dialógicas, In: Magalhães, I, Grigoletto, M, e Coracini, M. (org.) Práticas Identitárias, Língua e Discurso, São Carlos, Claraluz, 2006.
(xxvi) Há propostas de homogeneização internacional dos currículos, como no caso do curso de Ciências Contábeis onde há a sugestão do currículo mundial definido pelo ISAR UNCTAD
(xxvii) O termo “discurso pedagógico official” (official pedagogic discourse) foi firmado pelo sociologo ingles Basil Bernstein (1924-2000), que o utilizou para categorizar os discursos do Estado na educação revelados nos documentos de políticas públicas, currículos e critérios de avaliação. Para ele, o discurso pedagógico oficial estabelece relações entre o governo e todos os demais envolvidos na educação, e isso auxilia na construção de diferentes identidades e diferentes categorias de alunos. In: Bourne, Jill (2008) Official pedagogic discourses and the construction of learners’ identities. In, Hornberger, Nancy H. (ed.) Encyclopedia of Language and Education., Springer. (In Press) Disponível em http://eprints.soton.ac.uk/41452/, acesso em 04/12/2006
(xxviii) OLIVEIRA, M. B. F., Alteridade e Construção de Identidades ....., 2006. pg. 29-30
(xxix) MAULEÓN, Xavier Etxeberría, Borderline Europeans: Nationalism and Fundamentalism, In: Gomes, Ines European Identity: Individual, Group and Society, Chacon, Universidad de Deusto, Bilbao, Espanha. 2003, p. 128
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(xxx) FIGUEIRAL, Lurdes, Is the European Model being rejected? Repercussions in the field of Education In: Gomes, Ines European Identity: Individual, Group and Society, Chacon, Universidad de Deusto, Bilbao, Espanha, 2003, p. 121
(xxxi) BOURDIEU, Pierre, PASSERON, Jean-Claude, La reproduction. Eléments pour une théorie du système d'enseignement Paris, Editions de Minuit, 1970.
(xxxii) TEIXEIRA, A. Educação e o mundo moderno, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1969, p.158
(xxxiii) SANTOS, M. Por uma outra globalização, Editora Record, Rio de Janeiro, 2000, (14º Ed. 2007), p.49