DESENVOLVER E ADOLESCER: REFLEXÕES ACERCA DA TEORIA SÓCIO-HISTÓRICA

CLÁUDIO MÁRCIO DE ARAÚJO é Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica de Goiás (2001) e Mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-graduação em Processos de Desenvolvimento Humano e Saúde (2008) - Área de concentração: Desenvolvimento Humano e Educação - Instituto de Psicologia- UnB. Professor substituto da Universidade Federal de Goiás. Contato: claudioaraujo.filo@gmail.com

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Resumo: O presente artigo tem por objetivo discutir concepções de desenvolvimento humano e adolescência como fenômenos complexos, dinâmicos e situados. No direcionamento de tal discussão adotou-se a teoria Sócio-histórica, para a qual o desenvolvimento humano tem sua gênese e é configurado nas relações do indivíduo e seu contexto sócio-cultural. Consequentemente, a adolescência é defendida como processo co-construído por meio de trocas do sujeito com seu contexto sócio-cultural, ao longo do tempo. Assim, são aspectos explorados na discussão desse artigo: (a) a necessidade do fenômeno adolescer ser investigado como parte integrante do processo de construção do ser humano; (b) a visão de adolescência como fenômeno vivenciado no contexto histórico-cultural; (c) a importância de que o fenômeno adolescer seja compreendido à luz da dinâmica cultural da sociedade.

Palavras-chave: Desenvolvimento humano, adolescência e teoria sócio-histórica.

DEVELOPMENT AND ADOLESCENCE: REFLECTIONS ABOUT THE SOCIAL HISTORICAL THEORY

Abstract: The present article aims to discuss concepts of human development and adolescence as complex, dynamic and situated phenomena. The direction adopted for this discussion is based upon the social-historical theory, for which human development has its genesis and is set in the relations of individuals and their socio-cultural context. Therefore, adolescence is advocated as a process co-constructed through exchanges between individuals and their social-cultural context, over time. Therefore, some of the aspects explored in this article are: (a) the need for adolescent phenomenon to be investigated as part of the construction of human beings; (b) the view of adolescence as a phenomenon experienced in historical and cultural contexts, and (c) the importance for the adolescent phenomenon to be understood in the light of the cultural dynamics of society.

Key-words: Human development, adolescence and socio-historical theory.

Reconhecendo seu caráter introdutório, o presente artigo se coloca como convite à reflexão dos fenômenos ‘desenvolver’ e ‘adolescer’, considerando o conjunto sistêmico de ...

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... transformações da pessoa na linha do tempo. Nesse sentido, desenvolvimento humano é visto como fenômeno complexo, dinâmico e situado, interdependente das interações sujeito-contexto. Da mesma forma, integrado ao processo de construção do ser humano, a adolescência deve ser compreendida considerando sua gênese histórico-cultural.

Tomada aqui como fundamento teórico, a Psicologia Sócio-histórica, fundada por L. Vygotsky, destaca a historicidade dos fenômenos sociais e humanos (Vygotsky, 1978, 1998, 2003). Vygotsky, fundamentado no materialismo histórico dialético, imprime um caráter cultural à psiquê (González Rey, 2003). Ele se interessou pela investigação da gênese e transformações do psiquismo na linha do tempo, onde tais transformações são concebidas como fenômenos complexos, dinâmicos e referidos ao contexto. Essa visão dialética da transformação dos fenômenos de forma constante e integrada fez com que Vygotsky e seus seguidos se posicionassem criticamente frente às visões materialistas mecanicistas e idealistas de sua época (Madureira & Branco, 2005).

Desenvolvimento humano e teoria sócio-histórica: alguns apontamentos

A perspectiva sócio-histórica enfatiza a complexidade do desenvolvimento humano, resultado de um embricamento das interações do ser humano com o contexto material (Vygotsky, 2003). Relações mediadas por significados historicamente construídos no encontro social. Portanto são processos complexos e multilineares, constituídos na linha do tempo, numa vinculação cultural, integrando variáveis intra e extra-orgânicas, relativas ao tempo e ao espaço. Assim, por meio da internalização de significados culturais-coletivos o sujeito configura sua subjetividade (González Rey, 1997), a qual, de modo algum, é uma mera expressão direta do social, mas uma síntese do encontro entre o novo experimentado e a histórica subjetividade do experimentador.

Para a perspectiva sócio-histórica o ser humano se constrói na relação/interação indivíduo-sociedade. Não existe uma natureza humana, o homem só se faz humano na ...

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... relação social (Valsiner, 1987, 1989). Portanto, as funções psicológicas superiores não são inatas ao sujeito, antes se constroem na interação dialética deste com o meio externo (Vygotsky, 1978, 1998, 2003). Segundo Valsiner (1994):

Sob condições de sugestões sociais, multifacetadas de diversos tipos, a pessoa constrói sua novidade cultural moldada por seu sentido pessoal, que se torna externalizada e, portanto, entra no processo de comunicação com as demais pessoas como parte do sistema de sugestão social (p. 53).

Falar de desenvolvimento humano na perspectiva sócio-histórica é falar de um sujeito que constantemente está em transformação e que não possui um ponto ‘certo, um fim’ a ser alcançado. Sendo assim, esta perspectiva investiga como a socialização constrói, reconstrói e transforma as funções psicológicas superiores no sujeito, detonando, portanto, processos de desenvolvimento humano. Considerando essa valorização do caráter processual dos fenômenos sociais e humanos, proponho pensarmos no discurso relativo à categoria adolescência, a qual, na perspectiva sócio-histórica, se configura historicamente canalizada por limites e possibilidades dados pelo biológico e pelos contextos sócio-culturais.

Adolescência, categoria configurada histórica e socialmente

Como categoria moderna, a adolescência teve maior visibilidade a partir do momento em que a educação formal, enquanto projeto da modernidade, passou a ser de controle do Estado (Magro, 2002). A categoria adolescência é incorporada socialmente entre os séculos XVII e XIX, e tal incorporação se mostra diretamente ligada a processos sócio-históricos como: a chegada da modernidade, a emergência da família burguesa, o modo de produção capitalista e o ensino formal (Lopes de Oliveira, 2006). Contudo, desde sua concepção a adolescência vem sendo caracterizada de forma preconceituosa, ...

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... descontextualizada e naturalizante (Bock, 2004, 2007; Lopes de Oliveira, 2006; Ozella, 2003).

Considerando a historicidade dos fenômenos sociais e humanos, a perspectiva sócio-histórica vê a adolescência como um fenômeno construído na dinâmica sócio-cultural. Isso implica uma interdependência entre o desenvolvimento do adolescente e os sistemas de significação e práticas da cultura. Portanto, a adolescência é resultado de uma pluralidade de experiências relativas ao adolescer, que são significadas e re-significadas nas relações sociais concretas (Lopes de Oliveira, 2003, 2006; Ozella, 2003). Sendo assim, a adolescência ganha espaço como representação e como fato social e psicológico, historicamente configurado.

Considerar a adolescência na perspectiva sócio-histórica é dar visibilidade à sua gênese sócio-cultural. Consequentemente é pontuá-la como momento constituinte do processo de construção do ser humano no ciclo de vida, processo que emerge e é significado na cultura. Assim, o adolescer deixa de ser visto como uma fase natural, passageira, patológica e conturbada, marcada por comportamentos universais, para ser visto como fenômeno significado no social, com variadas possibilidades de expressão (Ozella, 2003) na interdependência com o contexto social concreto e a própria atividade do sujeito.

Nesse sentido, sendo o desenvolvimento síntese da interação sujeito-contexto, é preciso reconhecer que visões preconceituosas do adolescer acabam por se colocarem como sugestões sociais na configuração do próprio adolescente. Assim, a idéia de crise adolescente, natural e inevitável, acaba por se propagar entre e pelos adolescentes (Araújo, 2008; Campolina, 2007). São significações construídas no contexto social e que se colocam como sugestões sociais na configuração da identidade dos sujeitos.

Em uma pesquisa desenvolvida por nós, considerando a temática: desenvolvimento na adolescência (Araújo, 2008), investigou-se o processo de construção de significações acerca do desenvolvimento humano e da adolescência no contexto de um projeto social ...

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... educativo. O estudo defende a importância de reflexões críticas acerca de concepções orientadoras, presentes em projetos sociais, visto que estas concepções acabam por se colocarem como material concreto na promoção de desenvolvimento humano.

Os resultados da referida pesquisa, por um lado, ressaltaram a importância do projeto social educativo investigado como instrumento de transformações no processo de desenvolvimento, visto que contribuía para que os adolescentes adotassem posicionamentos autônomos e de auto-proteção. Por outro lado, evidenciaram indicadores de posicionamentos normativos sobre o adolescer e o desenvolver, decorrentes de uma visão rasa e pouco dinâmica do fenômeno desenvolver. Portanto, visões desprovidas de uma contextualização histórico-social do fenômeno desenvolvimento humano acabam por canalizar concepções preconceituosas do adolescer. O que muitas vezes faz com que a adolescência seja tida como fase natural e universal, negligenciando, assim, sua inserção histórica e as condições concretas de vida em que se formam e transformam os sujeitos de uma dada geração (Bock, 2007; Ozella, 2003).

Tudo isso evidencia a necessidade do desenvolvimento de pesquisas que se posicionem criticamente frente ao discurso social que caracteriza e marca o adolescer por intermédio de comportamentos estereotipados. É preciso compreender o adolescente como parceiro social, sujeito que, dialeticamente, se desenvolve na relação com os contextos que compartilha, influenciando-os e sendo influenciado pelos mesmos. Portanto, não podemos falar em adolescência, mas em adolescências (Ozella, 2003), garantindo assim as variadas formas de expressão do adolescer que, constantemente, contradizem o modelo hegemônico de adolescência, construído sócio-historicamente.

Considerando a atividade do sujeito, garantida na perspectiva sócio-histórica, devemos encarar os adolescentes como capazes de saírem de uma posição de atores de um modelo social que os exclui, idealiza e controla; e, assim, atuarem como autores de si ...

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... próprios, construindo novas formas de ser adolescente, criando novas possibilidades existenciais, sociais e políticas (Araújo, 2008; Lopes de Oliveira, 2006).

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Recebido: 29 de setembro de 2009
Aceito: 5 de novembro de 2009

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