PARA CRIAR O SITE RADIOFORUM, EM BUSCA DE UM RÁDIO INVENTIVO... (1)
e-mail: maurosarego@gmail.com
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Resumo: Discussão do projeto e conteúdo de um site para a divulgação de gêneros radiofônicos pouco ouvidos em nosso dial, como radiodrama e radioarte, além das formas de design sonoro que também não contam com outros meios de divulgação – design sonoro para dança, performances, vídeos e cinema, arquiteturas e esculturas sonoras, etc.... Após a apresentação da comunicação, o site será mostrado em operação.
Palavras-chave: Radioforum, um site de rádio; outras formas de radio; diferentes formas de sound design.
Corpo do trabalho
A idéia de criar um site de rádio e sound design, surgiu durante o Radioforum, evento organizado em Londrina em setembro de 2008, por Janete El Haouli, juntando um grupo de produtores de rádio, teóricos e radioartistas de vários cantos do Brasil, além de Harri Huhtamaki, da Yleisradio de Helsinki, Finlândia; do compositor curitibano/berlinense
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Chico Mello e Vera Terra, compositora, musicóloga, estudiosa e melhor intérprete brasileira da obra de John Cage.
Durante o surto do evento – cinco dias de programação, debates, oficinas e apresentações de manhã, tarde e noite – brotou esse motif. A questão era, por que não temos um rádio que provoque, perturbe e faça pensar, apesar de tanta gente capaz de produzi-lo, como aquele grupo que estava reunido ali.
Para que serve o rádio hoje? Como anda ou não anda o tráfego, temperatura, vai chover ou fazer sol, hora certa, som (qualquer som, mas sempre sem muita invenção), notícias de última hora – aliás, as rádios jornalísticas são as melhores e mais bem feitas que surgiram ultimamente. Perguntamos se alguém liga o rádio para alguma outra coisa.
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Mais exemplos? Se você entende inglês e quer ouvir uma rádio politicamente impensável em nossas plagas, hoje, experimente a Radio Pacifica, uma rádio comunitária de Nova York(5), fundada por anarquistas/pacifistas em 1948. Serve igualmente para pensar o que pode ser isso: “radio comunitária”. A Rádio Pacifica (financiada por seus ouvintes) são cinco rádios – em Nova York, Washington, Houston, San Francisco e Los Angeles – e retransmite, eventualmente, para mais de cinqüenta rádios, cobrindo todo o país. Aí você pode ouvir um noticiário sobre America Latina, produzido por Mario Murillo, colombiano e professor da NYU, reportado por colaboradores, jornalistas, professores universitários, todos voluntários, das capitais e principais cidades da America Latina, sem uma só linha das agencias de noticias (sextas pela manhã, veja o horário no site); um programa sobre movimentos sociais em comunidades de qualquer parte do mundo, principalmente o Terceiro, que se articulam a movimentos comunitários de NY, na linha da luta pela globalização contra-hegemônica – Global Movements Urban Struggles - , terças de 10hs as 11hs (hor.NY); ou um programa mensal direto de Havana - Cuba in Focus - toda última segunda feira do mês, as 17h30 (hor. NY).
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Cristoph, da festa Moo, no Rio, no programa de 29 de abril de 2008. O site da B.I.S disponibilizava 471 programas, em 9 de junho passado quando o acessei.
Se a tua praia é outra, você pode baixar, sem custo, peças da maioria dos compositores brasileiros contemporâneos no site da Biblioteca Musical Digital do LaMuT - Laboratório de Música e Tecnologia - da Escola de Música da UFRJ(8)- músicas 'experimentais', acusmáticas, mistas, 'live', auxiliadas-por-computador, algorítmicas, música-vídeo, multimídia, intermídia, músicas instrumentais com vetores experimentais, poesia, etc. – como explica o cabeçalho do site. Coordenado pelo professor e compositor Rodolfo Caesar, sussurro é a maior e mais original biblioteca musical com acesso livre (sonoro) no Brasil, além de disponibilizar textos, artigos, programas de rádio sobre a música concreta, acusmática e eletroacústica.
A garotada, cada vez mais, faz sua própria programação musical, “baixando” as músicas que quer dos muitos sites de compartilhamento (lícitos ou ilícitos) de arquivos sonoros, para gravar nos seus i-pods ou fazer seus cd’s caseiros. Em alguns universos, como o do Hip-hop, por exemplo, a maior parte da produção musical circula pelas redes, nacionais e globais, sem que nada chegue a virar disco, independente da indústria fonográfica como das próprias rádios, criando circuitos culturais e econômicos paralelos. Além da busca livre na internet, há muitos sites com arquivos de mixtapes, seleções produzidas por dj’s e videoclips, como o bocadaforte, a radio boomshot, o http:// sopedrada.blogspot.com ou o www.rapnacional.com.br
Para que mais um?
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A questão é que mesmo com a variedade que comecei a enumerar, mesmo com o myspace(9), onde qualquer músico, grupo, compositor, pode postar suas obras, ainda sentimos necessidade de um site em que:
- se possa acessar outras criações sonoras que não são veiculadas em discos, e nem tem seus canais específicos na internet – assim como sound designs para dança, para filmes e vídeos, para teatro e performances, para videogames; o som e imagem de esculturas sonoras e arquiteturas sonoras;
- se possa acessar gêneros radiofônicos que não tem espaço de veiculação no Brasil mas que são produzidos por radioartistas brasileiros, e estrangeiros que tem interesse em divulgar suas produções aqui, como programas de radioarte, de radiodrama (na linha do neue hörspiel alemão), documentários sonoros (features), paisagens sonoras ou a poesia sonora.
- se possa acessar as discussões e a produção teórica sobre estes gêneros radiofônicos e de sounddesign, área igualmente deserta em nossos sites, revistas acadêmicas ou livrarias.
Por isso, o Radioforum, em busca de um radio inventivo.
Som de cinema... pelo menos, o que nos interessa, há muito tempo deixou de ser “trilha sonora”, musica e som para acompanhar o que a imagem mostra. Godard nos ensinou que o filme são duas trilhas, uma de imagem, outra de som. E que cada uma conta uma história(10). Wim Wenders é outro mestre nos movimentos ruídos-sons-música-palavras que tem vida própria. Ver “Para além das nuvens”, roteiro de Antonioni, que acompanhou as filmagens, já cego; ou “O Céu sobre Lisboa”, cujo personagem principal é um engenheiro de som, gravando os soundscapes de Lisboa (“Eu costumava dizer que minha profissão era fazer imagens, e isto é verdade dos meus primeiros filmes. Eu filmava, e6
cortava e editava, e cortava de novo e editava de novo e depois de uns dois meses, a edição final ficava pronta em três dias. Hoje é diferente. Corto as imagens em duas semanas e me tranco com o som por mais seis meses. Estou me tornando mais um cineasta do som que da imagem...”).(11) Pensar e produzir de outro modo as relações de som-ruído-diálogos-música no cinema é igualmente o que ouvimos de David Tygel, um dos nossos melhores sounddesigners para cinema (ultimamente trabalhando também com videogames), e que está conosco no radioforum.
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exposição “O que eu faço é Rádio!”, realizada ali durante o mês de setembro de 2006, reuniu trabalhos como o “Telembaum” do artista paulista Paulo Nenflidio voltado a explorar a utilização de objetos para transmissão de mensagens por código Morse ou ondas eletromagnéticas. Mais recentemente, a exposição Arte e Música montada em galerias da Caixa Cultural em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, curada por Luiza Duarte e Marisa Florido reuniu uma série de propostas onde o rádio se fez ouvir em paisagens sonoras dos artistas Paulo Vivacqua, ou no Chuveiro Sonoro do artista Romano (que reuniu uma série de vozes de “cantores de chuveiro” associados a emissões de programas de rádio) ou na instalação Rádio Rasgo de Luz, que montei utilizando um velho aparelho de rádio valvulado e vários MP4 , o novo “radinho de pilha” questionando essas muitas “caixas de rádio”, clausuras não apenas do rádio mas das próprias idéias que dele podemos extrair. Não chega a ser novidade se lembrarmos o trabalho na confluência do plástico e sonoro desenvolvido pelo músico suíço-baiano Walter Smetak, entre os anos 60 e 70, resultando em objetos classificados como “plásticas sonoras”, merecendo em 2008 exposição especial montada no Museu de Arte Moderna da Bahia e São Paulo, onde realizei um rádio documentário sobre o trabalho(13)”.
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Quando pensamos nos outros gêneros radiofônicos é bom lembrar que Julio de Paula – outro que nos acompanha na organização do radioforum – tem espaço para a produção de seus documentários sonoros numa de nossas poucas rádios “culturais” - “Veredas”, na Rádio Cultura FM, São Paulo - . Mas o universo dos documentários sonoros (ou features, na leitura anglo-americana) tem um amplo espectro na produção de rádios educativas e culturais pelo resto do mundo. Nossa referencia mais recente foi com a obra de Harri Huhtamaki, que há vinte e oito anos mantém seu “RadioAtelier”, na YleisRadio de Helsinque. Muitos dos features de Huhtamaki, que ouvimos, são um gênero fronteiriço entre o documentário sonoro e a radioarte ou o radiodrama, como o Calewalayana (changes in the ecology of the mind) inspirado no épico fundador da nacionalidade finlandesa – o Kalevala –.
O programa começa questionando explicitamente sua “classificação”: “este é um documentário / das mudanças nos estados d’alma / da história da música / da história dos pensamentos e sentimentos dos músicos / de nossas maneiras de interpretar o épico nacional finlandês / o Kalevala, de onde vem seu versos cantados / da identidade finlandesa / da quebra de fronteiras, da nostalgia, da dor / do mau gosto e do amor por programas / que exigem ambos os ouvidos e / uma mente aberta e relaxada/”(15)
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Radioarte é outro gênero, que sobrevive basicamente de encomendas por algumas poucas rádios culturais, como foi o caso de Janete el Haouli, convidada pela WDR - (Westdeutscher Rundfunk, de Colônia, Alemanha) - para realizar o projeto Stratosound - um retrato acústico do pesquisador e performer da voz Demetrio Stratos; e em 1999, pela DeutschlandRadio, de Berlin, para desenvolver a obra Brasil Universo em parceria com Hermeto Pascoal, com a co-produção da WDR. Assim também Regina Porto, produtora por 11 anos na Radio Cultura FM de São Paulo e comissionada pela WDR, em 2002, para produzir a peça Metrópole - São Paulo, um retrato acústico da cidade de São Paulo.(17)
Continua Lilian Zaremba: “ Observamos a tendência um tanto recente em se incluir o rádio como arte em diferentes pontos: seja em centros como o Oi Futuro (no evento Oi da Rádio) ou em feiras e eventos como a Bienal do Mercosul que em sua sétima edição no ano de 2009 reservou espaço para uma emissora radiofônica denominada RádioVisual. Segundo sua principal curadora, a artista plástica Lenora de Barros esta emissora pretende ser “...experimental, se propondo ao desafio de excitar freqüências em formas abertas (...) irradiando novos sentidos e sonoridades”.(18)”
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"O Novo Hörspiel não é um gênero literário ou musical, mas meramente um gênero acústico de conteúdos indeterminados."(19)
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fundamentadas em uma percepção hanslickiana, séc. XIX. Foi nesse terreno des-antenado que o estúdio de Paris e o de Colônia se combateram, tendo o de Paris perdido a luta exatamente por conta e no momento de ter aceito o desafio. Se Schaeffer pensasse a mc como algo a ser proposto sem diálogo com o ‘mundo da música’, ela talvez ainda estivesse em 'nossos' rádios. Duvido que isso tivesse repercussão nas rádio brasileiras de então, vista a tradição de subserviência política de nossas emissoras (...)”(21)
Então é com estes “conteúdos”, pouco comuns na radiofonia brasileira que pretendemos encher nosso radioforum. O grupo que está na origem do projeto, além de mim, Mauro Sá Rego Costa, inclui, Janete El Haouli, Lilian Zaremba, Rodolfo Caesar e Julio de Paula. Na esteira da organização do fórum, foram convidados, e colaboram conosco Cecilia Conde, do Conservatório Brasileiro de Música, assim como os compositores Tato Taborda (cuidando do sounddesign Dança) e David Tygel (sounddesign Cinema), por enquanto.
E é isso que gostaríamos de apresentar a vocês agora, abrindo o site do radioforum cujo endereço é http://www.radioforum.zt2.net/
NOTAS:
(1) Trabalho apresentado no GP Rádio e Mídia Sonora, IX Encontro dos Grupos/Núcleos de Pesquisas em Comunicação, evento componente do XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.
(3) musicadiscreta.blog.uol.com.br; http://feeds.podcast1.com.br/musica_discreta.xml
(4) http://radioboomshot.uol.com.br/
(5) http://www.wbai.org/
(6) http://www.beatsinspace.net/playlists.html
(7) http://wnyu.org/
(8) http://sussurro.musica.ufrj.br/
(9) http://www.myspace.com
(10) GODARD, Jean-Luc. Introdução a uma verdadeira história do cinema. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
(11) Trecho de uma conversa telefônica entre Wim Wenders, Bono e Brian Eno, publicada em Cinema Sounds Magazine , 1993.
(12) Depoimento de Lilian Zaremba para o autor (junho, 2009).
(13) Smetak Imprevisto – rádio documentário em quatro partes roteirizado e produzido por Lilian Zaremba, para o MAM, São Paulo e transmitido pela Rádio Cultura Brasil AM em quatro sábados de novembro e dezembro de 2008.
(14) Gil, José. Movimento Total. O Corpo e a Dança. Relógio d’Água, Lisboa, 2001, 48; Cage, John. Silence. Wesleyan University Press, 1973, 94.
(15) Do roteiro de Kalevalayana, radio documentary, de TeppoHauta-aho, Harri Huhtamäki, Pekka Lappi, Seppo Paakkunainen e Pekka Ruohoranta, Yle radio.
(16) V. referencia em http://www.abc.net.au/classic/daily/stories/s629927.htm (em26 jun 2009)
(17) Janete El Haouli, Rádio Arte no Brasil 1, in www.guiadamusica.org -http://www.guiadamusica.org/conteudo/reflexoes/reflexoes.php?id_reflexao=3 - em 25 jun 2009.
(18) Saiba mais em www.bienalmercosul.art.br
(19) PORTO, Regina. “A Poética do Som: utopia e constelações”. Polêmica (Labore/UERJ) n.6, julho/agosto/setembro 2002.
(20) “Acusmática” é uma denominação criada por Pierre Schaeffer – inspirada no conceito pitagórico dos acusmáticos, os discípulos que apenas ouvem o mestre sem vê-lo, nem poder fazer perguntas - para a música/som que se ouve sem que se veja sua fonte de produção – músicos, instrumentos, etc... – como na música concreta, sempre apresentada a partir de uma gravação, ou a música ouvida no rádio. V. SCHAEFFER, Tratado de los objetos musicales, Madrid, 1988, p.56.
(21) Depoimento de Rodolfo Caesar ao autor (junho, 2009).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GODARD, Jean-Luc. Introdução a uma verdadeira história do cinema. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
GIL, José. Movimento Total. O Corpo e a Dança. Lisboa: Relógio d’Água, 2001.
CAGE, John. Silence. Lectures and Writings by John Cage. Middletown, CT: Wesleyan University Press, 1973.
SCHAEFFER, Pierre. Tratado de los objetos musicales: ensayo interdisciplinar. Madrid: Alianza, 1988. [version abreviada].
Periódicos:
Cinema Sounds Magazine , 1993. Trecho de uma conversa telefônica entre Wim Wenders, Bono e Brian Eno.
PORTO, Regina. “A Poética do Som: utopia e constelações”. Polêmica (Labore/UERJ) n.6, julho/agosto/setembro 2002.
EL HAOULI, Janete, “Rádio Arte no Brasil1”, in www.guiadamusica.org
Documentos:
Roteiro de Kalevalayana, radio documentary, de TeppoHauta-aho, Harri Huhtamäki, Pekka Lappi, Seppo Paakkunainen e Pekka Ruohoranta, Yle radio.
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Sites:
www.nooradio.com.br
musicadiscreta.blog.uol.com.br ; http://feeds.podcast1.com.br/musica_discreta.xml
http://radioboomshot.uol.com.br/
(Radio Pacifica – New York) http://www.wbai.org/
http://www.beatsinspace.net/playlists.html
(Rádio da New York University) http://wnyu.org/
http://sussurro.musica.ufrj.br/
http://www.myspace.com
http://www.guiadamusica.org/conteudo/reflexoes/reflexoes.php?id_reflexao=3
www.bienalmercosul.art.br
http://www.radioforum.zt2.net
Recebido: 24/09/2009
Aceito: 27/10/2009