CORPO/PSIQUE E PULSÃO: REFLEXÕES CLÍNICAS A PARTIR DO PRIMEIRO FREUD (1)
NADJA NARA BARBOSA PINHEIRO
Doutora em Psicologia (PUC-RJ); Professora da Graduação e do Mestrado em Psicologia (UFPR); Coordenadora do Laboratório de Psicanálise (UFPR), Pesquisadora do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social -LIPIS (PUC-Rio).
ANA CLAUDIA DANTAS
Graduanda em Psicologia (UFPR).
ANTÔNIO FUMAGALLI JUNIOR
Graduando em Psicologia (UFPR).
ANDREA LIMA
Graduanda em Psicologia (UFPR).
GUSTAVO VIEIRA DA SILVA
Graduando em Psicologia (UFPR).
LUIZA CARTAXO
Graduanda em Psicologia (UFPR).
MATHEUS MUNHOZ
Graduando em Psicologia (UFPR).
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Resumo: O texto versa sobre as dificuldades encontradas por Freud no exercício inicial de sua clínica com as neuroses. Propõe que, diante dos impasses aí suscitados à compreensão das relações corpo/psique, o conceito de pulsão tenha sido a alternativa teórica forjada pelo autor para lidar com o (im) possível de tais relações. Movimento que, ao afastá-lo da lógica dualista cartesiana, o insere no campo do pensamento paradoxal característico da psicanálise. Tais considerações são refletidas para o exercício da clínica atual sobre as afecções que se expressam por meio do corpo.
Palavras-chave: Pulsão; Corpo/psique; Clínica Psicanalítica; Freud
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BODY/PSYCHE AND INSTINCT:
CLINICAL REFLECTIONS FROM EARLY FREUD
Abstract: The text is about the difficulties Freud found in the outsets of his clinic work with neurotic patients. It suggests that, faced with the dilemmas raised by his practice for the understanding of the body/psyche relations, the author constructed the concept of instinct as a theoretical alternative which enabled him to deal with the (im) possibility of these relations. This move takes him away from a dualistic Cartesian logic, and inscribes him in the paradoxical thinking that characterizes Psychoanalysis. Those considerations reflects on actual clinic for the affections which are expressed through out body.
Keywords: Instinct; Body/psyche; Psychoanalytical clinic; Freud
INTRODUÇÃO:
O presente artigo traz as primeiras conclusões alcançadas no desenvolvimento de uma pesquisa teórica desenvolvida no âmbito de uma universidade federal, cuja proposta básica nasceu das inquietações suscitadas pelo exercício da clínica psicanalítica, no contexto ambulatorial de um hospital geral. Neste, constantemente recebíamos pacientes que portavam uma patologia fisiológica que se mostrava resistente à transformação por meio de um tratamento medicamentoso, apesar do fato de haver um diagnóstico preciso que sustentasse um plano de trabalho médico detalhado. Em alguns casos, a percepção de tal situação fazia com que os médicos arriscassem pedir auxílio à seção de psicologia em busca de uma terapêutica que permitisse uma mudança no quadro apresentado pelo paciente. O curioso era que, na maior parte das vezes, diante da proposta de transformação subjetiva ofertada pela clínica psicanalítica quase nada se modificava também. Por esses motivos, partimos da hipótese de que, provavelmente, esses casos diziam respeito a adoecimentos que se referem aos limites e conexões entre o corpo e a psiquê e que, por isso mesmo, apresentam dificuldades teóricas e clínicas tanto para a medicina quanto para a psicanálise.
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Em desdobramento, o desafio clínico que nos era apresentado por esses casos foi tomado como ponto de partida para um estudo teórico mais aprofundado sobre as relações corpo/psiquê de forma a podermos traçar alguns horizontes instrumentais mais esclarecidos e eficientes. Nesse intento, tomamos a obra de Freud como a porta de entrada que nos possibilitou o acesso ao tema por meio da circunscrição dos modos como o autor apresentou, relacionou, concebeu e teorizou tais relações iniciando por seus primeiros ensaios teóricos publicados entre 1893 e 1896.
Sobre esse momento inicial da obra freudiana construímos o presente artigo. Nele percorremos, de forma temática, como o autor foi se aproximando e dando conta das intricadas relações corpo e psiquê a partir de suas observações clínicas. Nosso propósito será o de demonstrarmos como Freud, ao tentar compreender tais relações, se afasta progressivamente de uma lógica cartesiana, dualista e dicotômica, para propor soluções paradoxais e complexas. Complexidade que ganha sua expressão máxima através da apresentação do conceito de ‘pulsão’. Construto que, habitando uma fronteira entre o físico e o mental, entre o soma e a psiquê, funda, a nosso ver, um paradigma específico para se pensar a subjetividade e o sofrimento psíquico. Com isso, poderemos perceber que a proposta freudiana de não paralisar diante dos desafios que a clínica lhe impôs, abriu as portas para a construção de um campo teórico extremamente rico e inovador que sustenta, ainda hoje, a possibilidade de lidarmos com as afecções que se expressam por meio do corpo partindo de uma lógica paradoxal que nos permite ‘escutar’ o que há para além das palavras.
PRIMEIROS DELINEAMENTOS: SOBRE AS NEUROSES, TEORIA E CLÍNICA
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Para analisarmos como Freud trabalhou e desdobrou suas primeiras considerações sobre as relações corpo/psiquê, tomaremos como instrumento de análise suas hipóteses sobre a etiologia das afecções mentais denominadas, à época, como neuroses. A partir de suas observações clínicas, o autor (1895[1894]a) subdivide o campo das neuroses em dois grupos, dependendo da existência ou não, de um mecanismo psíquico responsável por sua formação. Ao grupo em que seus esforços clínicos falhavam em encontrar uma etiologia psíquica, Freud o denomina de Neuroses Atuais. Por outro lado, ao grupo de neuroses cuja etiologia repousava em mecanismos psíquicos observáveis, Freud denomina de Psico-neuroses. O autor acrescenta que ambos seriam relativos a questões sexuais, precisando, porém, que as neuroses atuais se referem à sexualidade adulta, enquanto que as psico-neuroses remontam a vivências infantis.
Se ambos os grupos se referem a formas inadequadas de organizar a sexualidade, Freud (idem) procura entendê-los a partir de uma noção sobre o funcionamento, supostamente, adequado do circuito da sexualidade. Nessa concepção, segundo o autor, há em termos somáticos a produção de excitações sexuais que percorrem as vias neurológicas até alcançarem uma intensidade capaz de fazê-las romper o limiar psíquico se transformando em estímulos para a psiquê os quais deverão ser escoados por meio de uma ação específica: a relação sexual. Somente esta é eficaz, pois é necessário que a energia seja escoada para que as vias de condução se tornem livres para que o caminho da excitação corporal à estimulação psíquica possa ser percorrido novamente.
Interessa observar que aqui Freud (1895[1894]a) faz uma distinção bastante importante entre energia sexual somática e energia sexual psíquica ao afirmar que a primeira, ao romper o limiar psíquico é capaz de investir representações mentais que colocam o aparelho em movimento, passando a denominar essa última de libido. O que o autor precisa aqui, nos parece ser fundamental para entendermos suas posteriores
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considerações a respeito do conceito de pulsão na medida em que ele afirma ser a libido aquela que funda o campo do desejo. Paradoxalmente, no entanto, Freud afirma, igualmente, que tal energia psíquica se relaciona intrinsecamente à uma excitação que tem sua origem no campo corporal sendo portanto externa ao aparelho psíquico sobre o qual produz seu impacto exigindo deste a produção de um trabalho que permita o seu escoamento.
O interessante é que o impasse percebido por Freud (1895[1894]a) na ‘indissociabilidade’ (que não significa uma identidade) entre excitação sexual somática e excitação sexual psíquica (libido) dá suporte à distinção por ele proposta entre neuroses atuais e psico-neuroses. Assim, em sua perspectiva, as primeiras consistiriam em formas inadequadas de se lidar com a excitação sexual somática e as segundas, formas inadequadas de se lidar com a energia sexual psíquica (libido).
Vejamos, inicialmente, como o autor define cada uma dessas afecções para que posteriormente possamos apontar o que tais definições colocam em jogo as relações corpo/psiquê e a necessidade de construção de um conceito que pudesse entrelaçá-las.
NEUROSES ATUAIS: VISSICITUDES DA EXCITAÇÃO SEXUAL SOMÁTICA
Para circunscrever o campo das neuroses atuais, Freud (1895 [1894]a) percebe, inicialmente, que há duas possibilidades dessa se estabelecer: ou o que ocorre é uma inadequação em se manejar a energia sexual somática através das atividades sexuais (neurastenia); ou a energia sexual somática falha em se tornar psíquica (neurose de angústia). Para elucidar o mecanismo de formação da neurose de angústia, Freud parte de
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três princípios: a suspeita de que há um acúmulo de excitação somática; a impossibilidade de se atribuir uma origem psíquica para a angústia que subjaz aos sintomas clínicos dessa neurose e o decréscimo extremamente acentuado da libido sexual. Ao definir a etiologia das neuroses de angústia, Freud (1895 [1894]a) destaca inúmeros sintomas que deixam claro a existência de uma relação estreita entre soma e psiquê na medida em que estes se referem ora a um estado de angústia ‘em livre flutuação’, ora a sensações corporais tais como sudorese, palpitações, falta de ar, distúrbios digestivos e somatizações diversas.
Acreditamos que esses apontamentos indicam a insistência freudiana em definir a existência de um fluxo contínuo entre os campos somático e psíquico na medida em que cada um deles, a seu modo, produz efeitos sobre o outro. É a isso que se refere, por exemplo, o fato de uma inabilidade da energia sexual somática em se tornar psíquica, produzir, em decorrência, efeitos psíquicos, sentidos como angústia e, simultaneamente, efeitos corporais.
Se as neuroses atuais refletem a dificuldade de manejar adequadamente a energia sexual somática, essa não é a única dificuldade encontrada pelos pacientes: há os casos em que tal dificuldade se entrelaça com os impasses relativos à energia sexual psíquica, tornando a produção neurótica ainda mais complexa. Vejamos como.
PSICO-NEUROSES: OS DESTINOS DA LIBIDO
Ao postular suas primeiras considerações a respeito das psico-neuroses entendendo-as como afecções mentais cuja etiologia repousa em uma inabilidade do paciente em lidar com a energia sexual que no plano psíquico investe determinadas representações, Freud (1894) as subdivide em histeria, obsessões e psicoses alucinatórias.
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Enfatizando a função da defesa como fundamento na construção dessas patologias, o autor propõe que cada uma dessas afecções se configura como uma tentativa de solucionar um conflito psíquico que o paciente enfrenta ao se deparar com alguns desejos seus considerados como moralmente reprováveis. Entre os mecanismos de defesa ativados o autor destaca duas possibilidades: ou esquecer ou anular a representação incompatível, como se ela nunca houvesse ocorrido. Para o autor, o esquecimento da idéia incompatível é o recurso utilizado tanto na histeria quanto nas obsessões. Em tal procedimento, o paciente ativa um processo através do qual imprime o desligamento da energia libidinal que investe a representação incompatível que se torna desinteressante, pouco importante, perdendo suas conexões com as outras representações da consciência. Será o destino dado à energia libidinal, liberada nesse processo, aquilo que definirá a constituição de uma histeria ou de uma obsessão. Na histeria, a energia libidinal encontrará nas vias somáticas a possibilidade de escoamento produzindo, em decorrência, os sintomas histéricos. Por seu turno, há pacientes que não possuem tal habilidade para proceder a conversão corporal da quota libidinal que, permanecendo no plano mental, passa a investir outras representações inofensivas para o eu do paciente, desencadeando uma neurose obsessiva.
É interessante observar que nessa concepção sobre a histeria Freud postula, assim como o fizera na neurose de angústia, a existência de uma ponte incessante entre o corpo e a psiquê. Ponte que, nos salienta o autor, pode ser percorrida em dois sentidos, tanto da psiquê para o soma, como do soma para a psiquê. Pois, ele é enfático ao nos afirmar que o fato do conflito psíquico ser solucionado pelo esquecimento da representação incompatível e pelo escoamento de seu afeto sobre as vias somáticas não finda, de uma vez por todas, o processo. Porém, encontra-se permanentemente ameaçado pela possibilidade da energia afetiva re-encontrar seu caminho do corpo à sua representação original, caso uma nova representação similar à original adentre ao fluxo associativo da consciência.
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ONDE OS CAMPOS SE ENTRELAÇAM
Porém, podemos observar que embora o autor tenha tentado sustentar a distinção etiológica das neuroses sobre os planos somático e psíquico, tal distinção não se sustenta. Pois Freud (1894) nos oferece também interessantes correlações sobre histeria e neurose de angústia para pensarmos as relações corpo/psiquê ao assinalar que há uma semelhança muito grande nas manifestações sintomáticas dessas duas patologias. Isso porque, em ambas, há o acúmulo da excitação sexual, e, em ambas, há uma insuficiência psíquica em conseqüência da qual alguns processos somáticos anormais ocorrem. Nos dois casos, em vez de haver uma elaboração psíquica da excitação sexual, há um desvio desta para a esfera somática, fazendo com as duas se entrelacem constantemente de maneira a Freud precisar que a neurose de angústia seria o equivalente somático da histeria. (FREUD, 1895 [1894]a)
De forma coincidente, as suspeitas se reafirmam ainda mais quando Freud (1895[1894]b) avança em suas observações sobre as conexões corpo/psiquê, ao se ocupar, na clínica, com a questão da angústia e suas relações com as fobias e as obsessões. Procurando compreender a etiologia das fobias, o autor propõe que de forma distinta ao mecanismo das obsessões, nas fobias não encontramos uma representação incompatível recalcada a ser substituída. As fobias emergem sobrepostas à uma neurose de angústia, quando nestas, a angústia em ‘livre flutuação’ no plano psíquico busca por uma resolução. Resolução que é encontrada ao se acoplar o afeto de angústia a um objeto a ser temido. A partir daí, a construção de mecanismos obsessivos seriam desdobramentos bastante comuns na medida em que a fobia não consegue dar conta completamente de aplacar a angústia, exigindo que se encontre novos mecanismos defensivos, ou seja, que o sujeito consiga manter o deslocamento de objeto fóbico a objeto fóbico incessante. Fato que nos indica, novamente, as intricadas relações corpo/psiquê, na medida em que todos esses mecanismos
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teriam como ponto inaugural a angústia desencadeada pelo impacto produzido pela energia somática sobre o campo psíquico, eclodindo uma neurose de angústia.
OS IMPASSES DAS RELAÇÕES CORPO/ PSIQUÊ
Apontamos, ao longo de nosso texto, inúmeros momentos em que Freud se depara com impasses na sua tentativa de constituir um quadro nosográfico e suportes etiológicos precisos para as neuroses a partir de uma concepção dualista a respeito dos planos somático e psíquico. Sobre esses impasses, as explicações fracassam. Porém, ao fracassarem permitiram desdobramentos que fundaram o campo próprio da psicanálise. Tomando o conceito de pulsão como um dos exemplos dessa originalidade, entendemos sua emergência como uma tentativa teórica, perpetrada por Freud, para responder aos impasses teóricos e clínicos por ele enfrentados ao lidar com as relações estabelecidas entre o corpo e a psiquê. Relações que se tornaram centrais para o pensamento freudiano pois, se a etiologia das neuroses repousava na sexualidade, esta se sustentava sobre a articulação entre a energia sexual somática e sua possibilidade de transformar-se em energia sexual psíquica (libido) e investir representações mentais. Nossas argumentações se baseiam, sobretudo, no fato de Freud, ao postular a existência de um circuito adequado da sexualidade, indicar a necessidade de pensarmos este circuito envolvendo dois pólos distintos, o somático e o psíquico que, paradoxalmente, só podem ser teorizados a partir de suas inter-relações. Porém, tal entrelaçamento não significa uma subordinação, anterioridade ou hierarquia posto que cada um dos planos sofrerá efeitos das ações exercidas pelo outro, se organizando a partir de uma lógica própria. Pois, se por um lado, a energia somática impacta o mental, exigindo deste um trabalho que pode resultar em um conflito desencadeador de uma psico-neurose, tal trabalho elaborativo impõe impactos no campo
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somático, ora enfraquecendo a potência sexual energética (neurastenia), ora não oferecendo possibilidades de conexão da energia em um representante psíquico (neurose de angústia).
Dessa forma, acreditamos que as dificuldades que o conceito de pulsão veio responder podem ser refletidas a partir de quatro eixos argumentativos. Primeiramente, como Freud poderia, a partir de uma lógica dualista, entender as relações corpo/psiquê aqui destacadas? Suas observações clínicas e suas elaborações teóricas apresentavam a ‘indissociabilidade’ entre ambos, porem, simultaneamente, demonstravam que o psíquico não poderia ser entendido como um epifenômeno do somático, ou vice-versa.
Em segundo lugar, tomando as afecções neuróticas como índice desta não identidade entre o corpo e a psiquê, a angústia emerge como o afeto que expressa tal condição, posto que sua presença perpassa a sintomatologia de todas as neuroses. A angústia emerge como aquilo que sobra da operação entre o somático e o psíquico, como a excitação que permanece em estado de livre flutuação sem investir uma representação mental, produzindo ora efeitos corporais (somatizações e conversões), ora efeitos psíquicos (fobias e obsessões). Indagamos, então: como Freud poderia, nesse momento teórico, operacionalizar tais conexões que indicavam, sobretudo, a possibilidade de transformação de uma quantidade energética em qualidade psíquica?
Em terceiro lugar, como entender a etiologia das neuroses dicotomicamente? Interessa observar que Freud (1895), ao perceber a complexidade da trama neurótica, introduziu o conceito de neuroses mistas indicando a impossibilidade de organizá-las partindo de uma lógica dualista e excludente segundo a qual cada plano, somático e psíquico, organizaria suas construções independentemente um do outro. Ao contrário, frisa o autor, as neuroses se entrelaçam.
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Por fim, como se poderia conceber que os processos patológicos se sucederiam em uma dimensão temporal linear e cronológica fundando neuroses infantis ou adultas. Como indica Freud, a angústia referente a uma neurose de angústia, em estado de livre flutuação, poderia se tornar o fator desencadeante para a constituição de uma fobia e, posteriormente, de uma obsessão. Tais articulações nos parecem indicar a possibilidade de colocarmos sob suspeita a ‘atualidade’ das neuroses atuais, ou seja, seria possível pensarmos em uma sexualidade adulta desatrelada da sexualidade infantil? As considerações freudianas parecem indicar que pensar em termos genéticos e desenvolvimentistas se apresenta como mais um impasse a ser enfrentado apontando irremediavelmente à necessidade de um conceito que rompendo com essa lógica entrelaçasse os momentos da constituição subjetiva de forma a tornar possível compreendê-los como capazes de se re-atualizarem a qualquer instante de nossa existência.
CORPO/PSIQUÊ/PULSÃO E CLÍNICA
Nossas indagações partiram de uma questão que nos foi imposta pelo exercício da clínica psicanalítica desenvolvida em um hospital geral. Acreditamos que o hospital, por ser um lugar no qual as doenças que se expressam por meio da corporeidade encontram acolhimento, se torna ponto de referência para as pessoas que procuram por ajuda para seus padecimentos ainda que esses não se refiram exclusivamente à uma doença orgânica. Porem, por se tratar de um adoecimento limítrofe, entre o soma e a psique, se mostram resistentes tanto ao discurso médico quanto ao psicanalítico. O que, no entanto, não significa que devemos abdicar de tratá-los. Ao contrário, nossa proposta se coloca justamente no inverso dessa possibilidade e procura inserir uma perspectiva de tratamento que visa criar condições para que a transformação ocorra. Para tal acreditamos que a
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postura freudiana, aqui descrita, deva ser tomada como paradigmática na medida em que ela aponta para a necessidade de tomarmos o conceito de pulsão como operar das relações corpo/psique a partir de uma perspectiva não reducionista, ou seja, se há aí algo da ordem do impossível e do irredutível, tal fato deve ser tomado como ponto de partida e não de chegada, como princípio e não como fim. Com isso estaremos, certamente, fazendo um convite para que ali onde não há palavras, algo seja possível de ser dito, se nunca em completude, que pelo menos parcialmente. Quem sabe assim, as coisas se modifiquem....
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREUD, Sigmund (1893). Rascunho B. A Etiologia das Neuroses. In:Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
_______________ (1894). As neuropsicoses de defesa. In: Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
_____. (1895 [1894]a). Sobre os fundamentos para destacar uma síndrome específica denominada neurose de angústia. In: Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
_____. (1895 [1894]b). Obsessões e Fobias. In: Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
_____. (1895). A psicoterapia da histeria. In: Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
_____. (1896). A Etiologia da Histeria. In: Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
NOTAS:
(1) Artigo referente à pesquisa “Corpo e Psicanálise: reflexões sobre os fenômenos psicossomáticos a partir do trabalho clínico. Laboratório de Psicanálise (UFPR) e-mail: laboratoriodepsicanalise@ufpr.br
Recebido: Junho 2009.
Revisado e aceito: Julho 2009