A SUBJETIVAÇÃO DO CORPO OU A BIOLOGIZAÇÃO DA ALMA? TRIBUTO A FREUD
HENRIQUE FIGUEIREDO CARNEIRO
Psicanalista. Prof. Titular e Coordenador do PPG - Psicologia UNIFOR. PQ2/CNPq. Editor da Revista Mal-estar e Subjetividade e Latin American Journal of Fundamental Psychopathology on line. GT/ANPEPP Psicopatologia e Psicanálise. Pesquisador Associado do LIPIS.
E-mail:henrique@unifor.br
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Resumo: Como um tributo aos 70 anos da sua morte, o artigo defende a hipótese de que Freud estabelece uma ruptura na lógica da separação corpo e alma, na medida em que rompe com o primado da biologização da alma e propõe a subjetivação do corpo. Viabiliza este percurso desde os primórdios da sua clínica e vai, pouco a pouco, sedimentando a subjetivação do corpo com a metapsicologia e com os dispositivos de acesso ao inconsciente. No desenvolvimento do trabalho e partindo da separação defendida por Platão no diálogo FEDÓN, o corpo freudiano é construído em direção ao pathos que encerra paixão e sofrimento, exigindo do sujeito a construção de sua posição sobre a dor, a doença e a morte. Após demarcar momentos cruciais do percurso freudiano em direção ao processo de subjetivação, o trabalho destaca que o corpo discursado hoje traz a marca da intervenção dos diversos discursos sociais, porém atravessados pelos dispositivos de controle da biopolítica moderna. Finaliza com a dedução lógica de que Freud nos proporcionou o uso da escuta como forma de reconstituir a subjetividade e de destituir os dispositivos totalitários, na medida em que possibilita o contato do sujeito com o seu desejo e com a responsabilidade dos seus atos.
Palavras-chave: Subjetivação, biologia, sofrimento psíquico, totalitarismo, corpo, alma
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Abstract: As a tribute to the 70th anniversary of Freud´s death, this article defends the hypothesis that Freud establishes a logical rupture of the division body and soul when he breaks with the preeminence of biologization of the soul and suggests the subjectivation of the body. He makes this path possible since the beginning of his practice and he progressively sediments the subjectivation of the body with the metapsychology and with the procedure s of access to the unconscious. In the development of his work and beginning with the division defended by Plato on the dialogue Fédon, the Freudian body is build towards the pathos which means passion and suffering, demanding of the subject the elaboration of his position about pain, sickness and death. After delimitating the crucial moments of the Freudian course towards the process of subjectivation , this work highlights that the body, which is discoursed today brings the mark of the intervention of various social discourses, nevertheless is crossed by the devices of modern biopolitical control . The article finalizes with the logical deduction that Freud brought to us the possibility of the listening as a way of rebuilding the subjectivity and to dismantle totalitarian devices, considering that it enables the contact of the subject with his desire and with the responsibility of his acts.
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Keywords: subjectivation, biology, psychic suffering, totalitarianism, body, soul.
Dos Estudos sobre a histeria (1895), até os dias de hoje, passaram-se 114 anos desde que Freud lançou o que podemos chamar de a grande revolução do tratamento da dor e do sofrimento humano. Pouco mais de um século nos separa do advento freudiano que representa outra leitura sobre a luta constante entre corpo e alma, travada na disputa pela dominação do corpo. Neste tempo, a psicanálise aposta em articular o sofrimento pelo plano da subjetividade, enquanto a ciência, invariavelmente e de acordo com cada época, resiste e apresenta como solução ao sofrimento psíquico a ‘biologização’ da alma.
Este percurso demarcado entre corpo e alma, entretanto, não nasceu com Freud, é muito mais antigo. Seguindo Platão no diálogo FÉDON, vamos encontrar o ponto episódico mais significativo, talvez, de um movimento que inundou o pensamento ocidental e que determinou, sobremaneira, as relações sociais que fundamentaram as pilastras do pensamento ocidental instituído no campo da filosofia, das ciências, da religião, das artes, dentre outros.
A partir desta baliza o corpo foi determinado por discursos que tomam de um lado uma cadeia de ideais e, por outro, as ameaças promulgadas por seus respectivos contrários. Fica bem claro no FÉDON que os discursos se organizam em torno aos pares: vida-morte, saúde-enfermidade, prazer-dor. No centro, no espaço das interseções formadas entre as vertentes destes discursos, o corpo é sustentado e conclamado a ocupar um ‘lugar discursado’ e, como tal, interditado. As interdições são inerentes a qualquer discurso constituinte. Não há discursos que não contemple o campo das interdições, pelo simples fato de que sem interdições um discurso não sobrevive.
Como campo das interdições por excelência, o corpo recebe toda a carga de valores que cada discurso encerra. Assim, o discurso da religião lança mão do corpo para deduzir as várias formas de interdições derivadas das normas reparadoras da fé e ao mesmo tempo implica em construir seu espaço de poder. A ciência, principalmente a médica, utiliza o corpo como resolução a ameaça constante ao seu saber e prepara sempre uma saída para caracterizar a sede de conhecimento. Por isso se trata de um campo de trabalho incessante.
Na figura 1 tratamos de ilustrar os percursos de cada campo discursivo, operando dentro da lógica da separação corpo e alma. Partindo do ponto 1, o corpo da dor se contrapõe ao corpo do prazer e pode ser visto como uma forma de controle que a religião exerce sobre a vida. Entretanto, como pode ser visto no círculo sombreado (central), se situa ao lado do corpo enfermiço e é o corpo perecível, passível de um fim, com a chegada da morte, localizado logo à direita. Juntos, a dor, a doença e a morte, com o advento da separação corpo e alma regulam o campo dos contra-ideais que ameaçam constantemente o campo dos ideais.
Esta lógica separatista, se tomada em contraposição ao lado superior da figura, demonstra que funciona constantemente como uma ameaça ao prazer, à saúde e à vida, selando, por conseguinte, a insistência que o campo da ciência trabalha em direção à ‘biologização’ da alma. Com esta ilustração podemos trabalhar diversas entradas sobre a posição que cada discurso, separadamente, joga enquanto um dispositivo de controle sobre a vida, o corpo e o prazer do sujeito. Não seguimos com a exposição desta lógica, por não ser este o intuito do presente trabalho, cabendo-nos neste momento avançar com a hipótese
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de que a psicanálise implanta a subjetivação do corpo e propõe um fim a dicotomização corpo e alma.
O CORPO FREUDIANO
Ao contrário de ser o discurso da dominação que age sobre o comportamento ameaçador à saúde do homem ou do controle da fé, como forma de inobservância às formas de gozar do corpo - fundamento religioso, o corpo freudiano se constitui do interstício da pulsão e desejo decorrente da inconsistência do Outro no ato de sustentar, equivocadamente, a ideologia do bem.
O corpo freudiano é ao mesmo tempo o corpo da dor que não expugna o prazer. É o corpo da morte que não cessa de se inscrever nos interstícios da linguagem e que põe em cena a todos que se mantêm vivos. Enfim, é o corpo do pathos na medida em que a saúde depende das paixões que todo sujeito constitui, perde e restitui no decorrer da sua existência. Com isso, o único bem que se pode tocar em um percurso realizado pelo sujeito é o bem-dizer, fato que subverte as demais lógicas da medicina e da religião, na proporção direta que as interdições podem ser suportadas e postas no plano do discurso do sujeito.
Com isso, podemos vislumbrar que o campo freudiano abomina a separação corpo e alma, mas, sem esquecer que este corpo só pode ser falado na medida em que é posto em cena, tal e qual podemos relembrar o corpo memorável de Sócrates, na cena da ingestão da cicuta, nos últimos momentos que antecediam sua morte. Aquela cena transpassada de dor e com prenúncios da morte é, ao mesmo tempo, índice de prazer e razão de viver. Com isso, podemos entender porque Freud costura este corpo com pulsão, imagem, identificação e propõe, na ordem da linguagem, uma saída para a subjetivação do corpo. É o que conhecemos como corpo matéria de gozo e que Freud vai apontar a partir de 1920.
A eliminação da dicotomia entre corpo e alma é desenhada desde seu Projeto de uma Psicologia para neurologistas. É um texto que abre um percurso na lógica da subjetivação do corpo. Incompreendido ainda hoje por posições sectárias que o acusam de biologista, Freud trata em 1895 da árdua tarefa de utilizar uma referência nominativa no campo da neurologia, porém com a meta clara de sustentar o que constata na ordem da palavra. Carga, descarga, aparelho, neurônios, formam parte da bateria terminológica da qual, inevitavelmente, Freud teria que cruzar para desconstruir o edifício da ‘biologização’ da alma.
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Cinco anos mais tarde lança o que foi para ele sua frustração editorial, com um texto que, indiscutivelmente, jorrou um avanço significativo na subjetivação do corpo. O campo da representação, do pensamento e da linguagem, e todo o corolário do inconsciente, tomam o corpo e o situa na realidade psíquica, sendo mostrado por Freud na Interpretação dos sonhos (1898-9). Todos sonham. Todos alucinam. E este é um dado de relevância, a alucinação onírica é um componente importante na atualização do aparelho psíquico e necessariamente não é uma patologia da alma. É uma leitura possível do corpo elevada ao plano da subjetivação.
Com esta lógica construída sobre o estatuto do prazer, destaca o corpo erógeno da criança. É um corpo que para ser constituído demanda um agalma. É demandado um trabalho que somente a biologização não dá conta, pois é impossível que o circuito que coloca o corpo de pé, prescinda do sentido erógeno da relação com o mundo. Em um trabalho árduo da identificação, no jogo nominativo do eu pelo Outro, o corpo destacado neste trabalho é o ensaio que Freud nos brinda com a sexualidade infantil. Estamos já em 1905 e a criança não é mais posta como o portador da “bondade de coração”, como diziam os Padres da Igreja.
É um corpo que em 1908 acompanha a subjetivação guardando laços importantes com o que ele chama de uma “Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna” e que põe em cena o sentido da relação impossível entre a concordância selada pela pulsão e o desejo. Há um trabalho funcional que mostra que do corpo biológico podemos extrair o campo subjetivo da função. Por isso, seu projeto avança e em 1912 lança um corte rigoroso em forma de um mítico texto sobre as conseqüências do assassinato do Pai. Este corpo passado ao plano da subjetivação perde definitivamente sinais de suas origens. Passa a exigir que uma seara mítica da interdição dê o sentido para que a matéria pautada no perecível suporte a carga do biológico e demarque a diferença com o biós das espécies.
Na relação entre corpo e mente, o corpo pulsa e o sujeito pode enfim ir construindo uma nomeação. Nome, ideais e perdas irrecuperáveis, este é o quadro nominativo que a figura de Narciso indica a Freud (1914) na construção do corpo subjetivado. Um corpo constituído para além da exclusividade hedonista, na medida em que o sujeito dá sinais de uma paixão pelo sofrimento. As pulsões (1915) indicam que unido ao referencial do prazer a morte subjaz perene. E é isso que Freud vai explicitar quando descreve que existe um além do princípio do prazer, em nome do qual o sujeito vai exibir n o corpo uma desrazão que o oprime, tornando-o muitas vezes o signatário de um sofrimento aos olhos do outro, mas, uma paixão para o sujeito.
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Um passo, importante para o avanço da construção da subjetivação do corpo e um recorte possível de ser dito somente quando Freud constata que existe uma aposta além do prazer, aponta que o corpo e a alma obedecem a uma economia dos investimentos objetais. Entretanto, esta relação está permeada eminentemente pela primazia da subjetividade sobre o biológico. Já estamos em 1924 e Freud destaca que há um problema econômico que vai contra a corrente do guardião do psiquismo. Se o princípio do prazer, regulador de todo investimento do sujeito para a obtenção do prazer e termostato do equilíbrio psíquico, admite atos contra o próprio corpo é porque submete o sujeito a uma condição narcotizante.
A dimensão do gozo fica explicitada. Não se goza apenas com aquilo que está sob a égide do princípio do prazer, pois a dor pode ser prazerosa e o corpo deixa de ser o império do biológico, obedecendo a regras construídas por demandas subjetivas que se afastam do sentido construído pelos discursos da medicina e da religião. Em nome da falta de sentido que o sujeito constrói em função da inconsistência de quem serviu de ordenamento para as práticas das regras estabelecidas, o sujeito erra. E é nesta condição de fading que ele existe. Portanto, os discursos sobre o corpo, sejam tomados pelo plano da saúde ou do limite do prazer moralizado, capitulam diante da construção de uma saída sustentada pelo sujeito para dar conta a desrazão que o Outro lhe causou.
Este é o espaço da tensão que o sujeito há de suportar, isto é, o corpo com todo o complexo funcional dos órgãos, porém, revestido do sentido que pode paralisá-lo, seja pela via da perecibilidade inscrita quando o biológico entra em cena ou simplesmente pelo destino que a subjetividade o submete. Com isso, chegamos ao que Freud em 1930 vai tratar nas origens do mal-estar.
O CORPO DISCURSADO
O mal-estar na cultura, referência discursiva para entendermos a subjetivação do corpo em convívio social é a base para o corpo discursado que a fizemos referência no início deste trabalho. É o encontro dos campos que sustentam o corpo pelas visões discursivas instituídas e, ao mesmo tempo, o embate que o sujeito enfrenta quando discursa em nome da vigência dos discursos constituídos.
Há uma defasagem entre estes dois parâmetros pela simples razão que tratamos de uma posição subjetiva que regula as relações que o sujeito estabelece com o outro, mas, como se coloca também em cena, a partir do discurso que ocupa a dimensão além do prazer. O corpo é subjetivado, sobretudo, ao entrar no espaço da cultura. É banhado pelos discursos vigentes através dos que já habitam o espaço da cultura.
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É este o contexto que Freud encontra para nos indicar que não importa a época da história da humanidade, pois todo e qualquer avanço da ciência, dos preceitos religiosos e das tecnologias encontradas para redimir imaginariamente a finitude do biológico a defasagem entre o que é discursado e o discurso do sujeito, entram em choque. Com este dado, Freud atualiza todo o percurso realizado até então, 9 anos antes de sua morte.
Do lado social, continuarão existindo discursos científicos, religiosos, artísticos, filosóficos, enquanto que do outro lado, o sujeito é tomado por um corpo que há de dar conta apesar dos impasses. Assim, chegamos à questão que hoje é gritante e que Agamben (2002) atualiza em Homo Sacer – O poder soberano e a vida nua I. Há um império da dominação do impossível que se lança em direção ao sujeito e é sustentado pelos discursos vigentes. Há um dispositivo de controle que atravessa os discursos seja qual for sua ordem. A lógica do controle se coloca na captura dos órgãos, do corpo, eliminando-o em nome da vida. O chocante desta constatação é que o corpo é reclamado pela ciência, pela religião e por tantos discursos, para fins ideológicos da sobrevivência, ainda que seja pela manutenção da vida de terceiros em detrimento da vida do próprio sujeito.
Com isso, podemos agradecer a Freud que dedicou sua vida a construir desde o início a eliminação dos limites entre a separação corpo e alma. Podemos dizer que dentro da visão de Agamben, Freud foi um autêntico lutador contra o totalitarismo que hoje assistimos nos campos a céu aberto e colocados na transitoriedade dos laços que parcamente se sustentam. A invenção freudiana, 70 anos após sua morte é o grande legado da aposta no sujeito e um soco no estômago dos dispositivos de poder promulgado pela biopolítica moderna.
A importância destacável é que Freud apontou a uma política cuja referência ética não é a de um bem moral, ideológico ou materializado na lei do apetite, como hoje constatamos nas relações que inundam e regulam os discursos que representam a biopolítica moderna. Estes discursos tentam a todo custo apagar a subjetivação do corpo, imprimindo uma lógica da supressão do mal-estar com receitas que também tentam suprimir a dor do sujeito. A dor do sujeito, seja no corpo oncológico, na desesperação da fé ou na materialização de uma saída, encontra-se representada e passível de uma ressignificação quando se reconhece que a biologização da alma é um recurso de controle da biopolítica moderna.
O corpo discursado é um corpo político no sentido ideológico do termo. E a política da subjetivação do corpo é balizada pelo desejo, uma báscula que entre sofrimento e paixão, descortina prazer e dor, saúde e enfermidade, vida e morte. Em outras palavras, tratamos de uma ética do real que difere radicalmente de uma moral da realidade social.
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A biologização da alma nos convoca abandonar a nossa própria história e ser a história do corpo da ciência, da religião e de tantos outros saberes. O que Freud nos deixou foi a experiência e um caminho a ser constantemente reinventado em cada história de dor, de doença e de ameaça de morte. Por estes caminhos não podemos biologizar a alma pelo simples fato de que o pensamento é indomesticável.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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PLATÓN. Fedón. Traducción y presentación de Luis Gil. Barcelona. Labor, 1993.
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Recebido: Setembro 2009.
Aceito: setembro 2009
