Kenny Neoob –
O que é uma intervenção urbana, nas artes
visuais?
Ronald Duarte
– Há uma questão morfológica da palavra:
intervenção ou interferência? Intervenção
é uma maneira de inventar intervindo, reinventando alguma
coisa na cidade. Reinventar o urbano, dialogar com o espaço.
A interferência tem a intenção
de transgredir, de cortar, de fracionar, de ser a transversalidade
da cidade, não tem nada com a invenção do
espaço. Chamaria meu trabalho de interferência urbana.
Meu diálogo não é paisagista, não
é urbanista, nem arquitetônico. É estético.
O que é uma interferência
urbana? É um diálogo direto com o que a cidade que
agoniza, que grita o que mais necessita e, então, você
vai mostra a todo mundo. É bastante visível mas,
às vezes, as pessoas que vivem na cidade não conseguem
enxergar porque estão muito próximas.
Fogo cruzado e O
que rola é o que você vê são dois
casos sociais de fogo cruzado na madrugada, às três
horas da manhã, em Santa Teresa. Todas as madrugadas, tem
fogo cruzado em Santa Teresa. Eu dou nome à coisa. Uma
metodologia de Antônio Negri: como você estabelece
o que existe? Estar diante da coisa e nomeá-la, então,
é possível interagir, entendê-las de uma forma
inteligente. Eu coloco fogo nas ruas de Santa Teresa, às
três horas da madrugada. São mil e quinhentos metros
de trilho pegando fogo. Interfiro, firo realmente a cidade, ainda
mais: no patrimônio histórico.
KN – E
para você, Vogler, o que é uma intervenção
urbana?
Alexandre Vogler –
Um conceito simples: intervir na urbis.
Tive uma formação em Belas Artes mas, em certo momento,
não considerava mais tão importante a apresentação
de trabalhos em lugares padronizados. Na época, eu estava
terminando a faculdade, tive muitos contatos com múltiplas
referências, sobretudo midiáticas, que fizeram com
que eu me interessasse por trabalhar com a urbis.
A Avenida Brasil ? uma via expressa
onde quase não se consegue parar, forma um ‘batalhão’
de imagens, de outdoors etc. ? foi bastante significativa
para que meu trabalho se deslocasse para esse tipo de fruição
e, ao mesmo tempo, a mesma abrangência que o veículo
publicitário, tanto em escala quanto e redundância,
quanto em produtividade, em reprodutibilidade. No meu caso, a
intervenção foi puxada pela atuação
com os lambe-lambes. À medida que comecei a trabalhar na
rua, comecei a ver os efeitos resultantes e a investigar outros
meios. Não consigo pensar só na imagem, ela é
o efeito primeiro, bastante eficiente, mais prático e mais
fácil de ser produzido. A abrangência do trabalho
e o seu poder de comunicação, sempre foram prioridades
para mim. Mesmo com todas as dificuldades que tenho de produzir,
penso em formas táticas de inserir o trabalho dentro de
um outro circuito. E esta tática é a estratégia.
Hoje em dia não penso tanto em intervenção
urbana, mas intervenção em circuitos de comunicação.
RD – É interessante você falar
sobre isso tudo. Cada um pensa de uma maneira e vamos acrescentando,
dizendo como é que a interferência urbana funciona
na cabeça de cada um.
AV – Quando
você lida com o povo da rua, você usa uma linguagem
mais simples.
KN – E
para você, Guga?
Guga Ferraz -
Começou com a ingenuidade que poderíamos encher
de cartazes a cidade do Rio de Janeiro e ‘competir’
com a paisagem publicitária, usando o mesmo espaço,
a mesma linguagem, tentando lutar com o braço contra o
que já é instituído.
O importante é conseguir um retorno a partir de uma proposta
bem simples como, por exemplo, quando o meu trabalho saiu na capa
do EXTRA ao lado da foto do ônibus queimado por traficantes.
Fala a notícia: “enquanto isso, cresce o número
de placas adulteradas” ? as placas que interferi fazendo
referência aos incêndios de ônibus. Um jornal
popular como o EXTRA, com uma circulação bastante
intensa, atinge uma camada da população que é
difícil de comunicar. Vale muito pelo o que o Vogler falou,
uma comunicação mais direta com um número
maior de pessoas que normalmente não estariam interessadas
no meu trabalho de arte. É como se fosse uma conversa com
pessoas que não estão preparadas para aquela informação.
KN – Luis,
gostaria de acrescentar alguma reflexão sobre as intervenções?
Luiz Andrade
– Sim, tenho coisas a dizer que acho fundamentais. Há
um somatório de experiências, aqui no Brasil, que
fazem com que o Rio de Janeiro seja um terreno fértil para
este tipo de interferência, além de ser uma tremenda
experiência urbana, sem paralelo, desde a natureza até
a especulação geral, as pessoas... e, tudo isso
num país de escravocratas, aonde a comunicação
direta é fundamental e a formação não
está franqueada para todos.
Nós que trabalhamos na universidade
pública, talvez tenhamos também, lá num cantinho
da cabeça, um efeito colateral deste problema, algo que
se manifesta em qualquer coisa que a gente faz, mesmo que não
tenhamos muita consciência disso.
Vocês pontuaram coisas fundamentais.
Primeiro mandamento: intervir na urbis. O diálogo
direto como segundo mandamento. A orquestração,
outro mandamento ? lembro aqui de Vila Lobos orquestrando quarenta
mil crianças, o coro de crianças no Maracanã,
o maior coral que a história da música teria visto,
num lugar que não é teatro.
Eu acrescentaria o significado, o contexto,
os signos que estão por aí à mão para
quem quiser fazer uso. Faço questão de descrever
o que aconteceu na Espanha, em Barcelona. Vi o Colombo, no porto,
apontando para as Américas, e disse: que coisa estranha!
Queria ampliar uma imagem da estátua da liberdade. Queria
ver aquilo do tamanho de um jornal, por exemplo. Essas duas imagens,
naquele momento, me criaram uma convicção: isto
é um trabalho.
Quinto mandamento: o princípio de
atenção. Quando se está na cidade é
preciso ficar muito mais atento.
RD – Existe
uma anestesia natural de quem vive na cidade, acostuma-se com
essa loucura. Antigamente, tinha-se medo de ser assaltado no Rio
de Janeiro, hoje o medo é a bala perdida. O dinheiro perdido
a gente ganha. O carro o seguro paga. Está tudo certo.
Existe um certo conformismo com o nível de violência.
O meu trabalho é a tentativa de exacerbar algo que acontece
toda as madrugada no Rio de Janeiro, o sangue rola morro abaixo
e ninguém vê. Então vamos fazer ver.
GF – O
que estava óbvio, vamos deixar mais óbvio ainda.
E o pior é que muitos passam desatentos.
RD – Somos
contra a letargia.

