Objeto de inúmeras representações na História
da Arte, as diversas imagens do corpo humano e, principalmente,
do feminino, nos ajudam a tentar entender como se formou a idéia
do conceito de beleza que até hoje atravessa o imaginário
da sociedade ocidental, e até que ponto essa noção
mudou dentro da sociedade contemporânea.
Desde a descoberta da Vênus de Willlendorf na Áustria,
há mais ou menos 10.000 a.C., percebemos que o homem idealizava
um tipo feminino que atendesse suas necessidades culturais. Entretanto,
não sabemos se as formas arredondadas que foram objeto
de culto e adoração da sociedade pré-histórica
evocavam, naquela época, a idéia do belo. Na intenção
de representar a fertilidade, surgiu a figura feita em pedra,
com seios e ventre proeminentes. Um tipo de imagem que, embora
esteja na origem das diversas representações do
corpo feminino, há muito se distanciou das necessidades
humanas e em nada corresponde ao ideal de beleza inaugurado pelas
correntes do pensamento clássico ocidental.
Segundo as teorias de Platão, a idéia do belo sempre
foi inseparável da idéia do bem, o que confere um
caráter positivo ao conceito de beleza. O pensamento neoplatônico
foi completamente incorporado à arte ocidental, e segundo
Jacqueline Lichtenstein: "À medida que a beleza do
homem se afirma como princípio artístico, a teoria
das proporções torna-se uma preocupação
maior." A mesma autora reforça que: "conforme
a herança do Renascimento, a bellezza é
uma imagem interior do artista, que imita as coisas 'não
como elas são, mas como deveriam ser'. Ou seja, o ser ao
qual deveria se submeter, ao menos teoricamente, a mimese, transforma-se
agora em um belo concebido como pura idealidade, enquanto a idéia
se torna imperceptivelmente um ideal, como apontou Panofsky."
A observação do corpo humano e de sua nudez durante
o período clássico ajudou os teóricos da arte
a relacionarem posteriormente a beleza do corpo humano à
idéia de juventude, o que muito contribuiu para que pintores
e escultores construíssem suas obras segundo aqueles padrões.
As estátuas greco/romanas procuravam traduzir esses conceitos,
além de contribuir para formatar a noção de
imortalidade apoiada no misticismo dessas duas culturas.
Durante a Renascença, o pensamento de Alberti também
ajudou a inspirar a maioria dos artistas do período. Segundo
o autor, a beleza estava diretamente relacionada à harmonia
das formas e ficaria extremamente comprometida caso alguma parte
fosse adicionada ou suprimida.
Temos como exemplo a pintura O Nascimento de Vênus,
do pintor renascentista Sandro Botticelli, cujas formas delicadas
e já distanciadas da robustez da Vênus de Willendorf
fortaleceram a idealização das formas perfeitas.
E muito embora Botticelli, segundo Janson e Janson, não
estivesse interessado nos rigores anatômicos, a imagem dessa
figura feminina representou durante a Renascença uma mistura
de religiosidade e mitologia clássica correspondentes às
necessidades humanistas daquele período.
Essa 'Vênus celestial' se distanciou das representações
femininas da época cujos retratos, por mais elaborados que
fossem, procuravam muito mais celebrar o aspecto religioso do período
do que a mistificação de um padrão de beleza
construído pelas necessidades da sociedade ocidental. Podemos
entender melhor essa idéia, quando nos deparamos com as diversas
imagens das Madonas renascentistas, onde a elaboração
dos ideais de beleza ressaltam a glorificação da fé
cristã e onde o belo e o bem se fundem num mesmo propósito.
Muito embora o padrão de beleza inaugurado, segundo o pensamento
clássico tenha sido transportado para as artes plásticas
e, posteriormente, fosse questionado durante o processo evolutivo
da arte moderna onde o seu contrário, o feio, requisitou
o seu espaço na história da arte, não podemos
negar que, quando se trata da construção de um modelo
de beleza corpóreo, voltamos sempre ao ideal de beleza tradicional.
Entretanto, durante o modernismo, a imaginação romântica
fez surgir uma série de representações do corpo
humano, cuja idéia de construção de um novo
padrão de beleza aponta para uma espécie de mutação
corpórea que, posteriormente, encontrou eco nas imagens surrealistas.
Do espírito melancólico dos românticos ao hibridismo
formal do ideal surrealista, as representações do
corpo humano sugerem um modelo novo, onde as noções
do belo e do feio caminhavam juntas, assim como as imagens projetadas
pelo inconsciente levaram à produção de uma
espécie de bestiário, onde o humano e o inumano se
fundem para dar lugar a uma mesma forma.
Eliane Robert Moraes, afirma que "ao otimismo do século
XIX, a imaginação romântica não cessa
de opor uma concepção sinistra da condição
humana: justamente quando o homem acreditava ter alcançado
os meios de tornar-se sujeito, ele é colocado diante da evidência
de sua condição de objeto."
No início do século XX, após ser motivo de
diversas experiências e representações, o
corpo humano salta para fora das telas e abandona os pedestais,
num gesto de libertação, homens e mulheres expõem
seus corpos em performances e happenings que,
desde a década de 60, caracterizam um novo tipo de expressão
artística, onde o corpo funciona muito mais como matéria
e suporte para as construções das obras de arte
da sociedade contemporânea. Enquanto isso, os meios técnicos
como fotografia, cinema e televisão reivindicam o apelo
do belo. A projeção de corpos perfeitos e jovens
nos direciona na busca incansável de um padrão de
beleza proclamado pela mídia, pela moda e ajudado pela
ciência.
A vontade de atingir o rejuvenescimento do corpo e livrá-lo
de todas as imperfeições e sinais de envelhecimento
vem mobilizando o ser humano a tomar atitudes bastante radicais.
Cirurgias, implantes, alimentação regrada, e ida
constantes às academias prometem a quem os procura uma
verdadeira metamorfose corporal. Entretanto, sabemos que o preço
que se paga para consegui-la nem sempre corresponde à imagem
desejada. A própria mídia contribui para divulgar
o lado negativo dessa busca insaciável. Casos de anorexia,
bulimia, cirurgias que levam à morte e deformações
corporais resultantes de verdadeiros equívocos científicos,
vem nos mostrando diariamente que o desejo de possuir um corpo
perfeito, que incorpore a idéia sublime de imortalidade,
não condiz com as características essenciais do
ser humano.
Essa necessidade obsessiva pela metamorfose pode ser melhor compreendida
segundo o pensamento de Eliane Robert Moraes que afirma que: "a
metamorfose seria então um intenso e interminável
processo de 'dispersão do Eu no objeto exterior' ... Seja
como for, essa capacidade de transformação sempre
implica a projeção do ser para fora de si."
A idéia permanente da busca de um corpo que atenda às
necessidades e fantasias do ser humano aponta também para
uma necessidade que o homem tem de ir ao encontro de sua identidade.
Um desejo de se diferenciar dos demais e de mostrar que, mais
do que ser belo, o importante é procurar se destacar dentro
dessa nossa sociedade ocidental.
Talvez esse pensamento explique as diversas mutações
aplicadas ao corpo humano, na atualidade. Diante de um verdadeiro
universo de tatuagens, piercings e modificações
corporais, surge um novo corpo feminino. Modismos a parte, as
várias inserções, tanto externas quanto internas,
contribuem para inaugurar um novo padrão de beleza. A opção
por essa espécie de metamorfose vem deixando marcas profundas,
tanto no corpo quanto na psiquê de cada uma dessas mulheres,
na medida em que perseguem um modelo corporal que atenda às
necessidades da moda e da mídia.
Assim, o corpo se torna um elemento de comunicação
dentro da sociedade contemporânea e impõe uma narrativa.
É o suporte que traduz os anseios artísticos, políticos,
sociais e psicológicos de uma sociedade. Sobre a pele que
envolve os corpos, depositamos uma série de informações
que traduzem a nossa cultura e nossas experiências e, por
mais que desejemos alcançar o inalcançável
e apagar as marcas que representam a verdadeira condição
de sermos humanos, ainda assim, o nosso corpo está sujeito
a uma verdadeira insatisfação que mobiliza pulsões
e sensações diversas e contribui para transformar
esse invólucro da alma num suporte bastante rico para profundas
metamorfoses.
Beatriz Ferreira Pires comenta que:
"a necessidade existente de criar uma identidade
e se diferenciar dos demais faz do corpo um outdoor de
si mesmo, onde as interferências aplicadas à pele,
ao marcar momentos e situações, constituem um registro
da história do indivíduo. Elas representam um resultado
físico e outro psicológico – o primeiro ligado
à estética a funcionalidade, e o segundo, ao gozo,
à satisfação que advém da realização
de superar os próprios limites e estar de posse de um determinado
elemento."
Assim sendo, verificamos que,
no tocante às questões sobre a utilização
do corpo feminino e suas possíveis modificações,
seja como forma de representação idealizada do mesmo,
ou como uma necessidade de transformá-lo em algo que seja
o tradutor das suas buscas inconscientes, a imagem da mulher na
sociedade contemporânea representa muito mais um simulacro
repleto de referências e artificialismos do que a verdade
de um corpo realmente humano.
O desejo pela transformação corporal setorizou a
sociedade feminina. De um lado, encontram-se os tipos cuja busca
por um padrão de beleza idealizado transformou os corpos
femininos num tipo de beleza artificial e simulada. Neste campo
encontram-se artistas de cinema e TV, modelos e manequins e todo
um universo de celebridades de poses estudadas e expressões
robotizadas e que, de certa forma, corporificam os ideais de beleza
clássica que muitas de nós, ainda que com alguma
crítica, de certa forma perseguimos.
Do outro lado estão aquelas que utilizam os seus corpos
como suportes para expressões artísticas, são
elas artistas plásticas, adeptas das body modifications
e de modismos como tatuagens e piercings. Muitos desses
corpos femininos tornaram-se a expressão do feio, do sujo
e do bizarro e se encontram hoje muito distantes da imagem delicada
representada pela Vênus de Botticelli.
Um terceiro e último grupo podemos chamar de neutras, pois
não são adeptas do artificialismo proclamado pelas
mídias e nem sujeitam seus corpos aos modismos efêmeros
e interferências radicais. Este grupo, bastante raro na
atualidade, remete à imagem da Vênus de Willendorf,
pois suas representantes se encontram muito mais perto dos aspectos
naturais do corpo.
De qualquer maneira, a popularização das imagens
femininas na sociedade atual, seja pelos meios tradicionais ou
digitais e a crescente inserção das mulheres no
meio artístico, vem caracterizando um novo tipo feminino
que encontra nas metamorfoses do corpo um instrumento de comunicação
e se inscreve como um novo modelo feminino, que se torna o espelho
onde se miram nossas Vênus contemporâneas.
Referências Bibliográficas
DEL PRIORE, Mary. Corpo a Corpo
com a Mulher: pequena história das transformações
do corpo feminino no Brasil. São Paulo: Senac, 2000.
JANSON, H.W. e JANSON, Antony F. Introdução à
História da Arte. São Paulo: Martins Fontes,
1996.
LICHTENSTEIN, Jacqueline (Org.). A pintura – Vol: O Belo.
São Paulo: Ed. 34, 2004
MORAES, Eliane Robert. O Corpo Impossível. São
Paulo: Iluminuras, 2002.
PIRES, Beatriz Ferreira. O Corpo como Suporte da Arte: piercing,
implante, escarificação, tatuagem. São
Paulo: Senac, 2005.

