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AS VÊNUS CONTEMPORÂNEAS

Dayse Marques é Mestre em História da Arte pela UFRJ, professora do curso de Moda da Universidade Veiga de Almeida e do curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá, onde trabalha com a disciplina Estética e Teoria da Imagem. Atualmente realiza pesquisas sobre o tema Corpo/Imagem e suas Conexões com a Vida Contemporânea.

Objeto de inúmeras representações na História da Arte, as diversas imagens do corpo humano e, principalmente, do feminino, nos ajudam a tentar entender como se formou a idéia do conceito de beleza que até hoje atravessa o imaginário da sociedade ocidental, e até que ponto essa noção mudou dentro da sociedade contemporânea.

Desde a descoberta da Vênus de Willlendorf na Áustria, há mais ou menos 10.000 a.C., percebemos que o homem idealizava um tipo feminino que atendesse suas necessidades culturais. Entretanto, não sabemos se as formas arredondadas que foram objeto de culto e adoração da sociedade pré-histórica evocavam, naquela época, a idéia do belo. Na intenção de representar a fertilidade, surgiu a figura feita em pedra, com seios e ventre proeminentes. Um tipo de imagem que, embora esteja na origem das diversas representações do corpo feminino, há muito se distanciou das necessidades humanas e em nada corresponde ao ideal de beleza inaugurado pelas correntes do pensamento clássico ocidental.

Segundo as teorias de Platão, a idéia do belo sempre foi inseparável da idéia do bem, o que confere um caráter positivo ao conceito de beleza. O pensamento neoplatônico foi completamente incorporado à arte ocidental, e segundo Jacqueline Lichtenstein: "À medida que a beleza do homem se afirma como princípio artístico, a teoria das proporções torna-se uma preocupação maior." A mesma autora reforça que: "conforme a herança do Renascimento, a bellezza é uma imagem interior do artista, que imita as coisas 'não como elas são, mas como deveriam ser'. Ou seja, o ser ao qual deveria se submeter, ao menos teoricamente, a mimese, transforma-se agora em um belo concebido como pura idealidade, enquanto a idéia se torna imperceptivelmente um ideal, como apontou Panofsky."

A observação do corpo humano e de sua nudez durante o período clássico ajudou os teóricos da arte a relacionarem posteriormente a beleza do corpo humano à idéia de juventude, o que muito contribuiu para que pintores e escultores construíssem suas obras segundo aqueles padrões. As estátuas greco/romanas procuravam traduzir esses conceitos, além de contribuir para formatar a noção de imortalidade apoiada no misticismo dessas duas culturas.

Durante a Renascença, o pensamento de Alberti também ajudou a inspirar a maioria dos artistas do período. Segundo o autor, a beleza estava diretamente relacionada à harmonia das formas e ficaria extremamente comprometida caso alguma parte fosse adicionada ou suprimida.

Temos como exemplo a pintura O Nascimento de Vênus, do pintor renascentista Sandro Botticelli, cujas formas delicadas e já distanciadas da robustez da Vênus de Willendorf fortaleceram a idealização das formas perfeitas. E muito embora Botticelli, segundo Janson e Janson, não estivesse interessado nos rigores anatômicos, a imagem dessa figura feminina representou durante a Renascença uma mistura de religiosidade e mitologia clássica correspondentes às necessidades humanistas daquele período.

Essa 'Vênus celestial' se distanciou das representações femininas da época cujos retratos, por mais elaborados que fossem, procuravam muito mais celebrar o aspecto religioso do período do que a mistificação de um padrão de beleza construído pelas necessidades da sociedade ocidental. Podemos entender melhor essa idéia, quando nos deparamos com as diversas imagens das Madonas renascentistas, onde a elaboração dos ideais de beleza ressaltam a glorificação da fé cristã e onde o belo e o bem se fundem num mesmo propósito.

Muito embora o padrão de beleza inaugurado, segundo o pensamento clássico tenha sido transportado para as artes plásticas e, posteriormente, fosse questionado durante o processo evolutivo da arte moderna onde o seu contrário, o feio, requisitou o seu espaço na história da arte, não podemos negar que, quando se trata da construção de um modelo de beleza corpóreo, voltamos sempre ao ideal de beleza tradicional.

Entretanto, durante o modernismo, a imaginação romântica fez surgir uma série de representações do corpo humano, cuja idéia de construção de um novo padrão de beleza aponta para uma espécie de mutação corpórea que, posteriormente, encontrou eco nas imagens surrealistas. Do espírito melancólico dos românticos ao hibridismo formal do ideal surrealista, as representações do corpo humano sugerem um modelo novo, onde as noções do belo e do feio caminhavam juntas, assim como as imagens projetadas pelo inconsciente levaram à produção de uma espécie de bestiário, onde o humano e o inumano se fundem para dar lugar a uma mesma forma.

Eliane Robert Moraes, afirma que "ao otimismo do século XIX, a imaginação romântica não cessa de opor uma concepção sinistra da condição humana: justamente quando o homem acreditava ter alcançado os meios de tornar-se sujeito, ele é colocado diante da evidência de sua condição de objeto."

No início do século XX, após ser motivo de diversas experiências e representações, o corpo humano salta para fora das telas e abandona os pedestais, num gesto de libertação, homens e mulheres expõem seus corpos em performances e happenings que, desde a década de 60, caracterizam um novo tipo de expressão artística, onde o corpo funciona muito mais como matéria e suporte para as construções das obras de arte da sociedade contemporânea. Enquanto isso, os meios técnicos como fotografia, cinema e televisão reivindicam o apelo do belo. A projeção de corpos perfeitos e jovens nos direciona na busca incansável de um padrão de beleza proclamado pela mídia, pela moda e ajudado pela ciência.

A vontade de atingir o rejuvenescimento do corpo e livrá-lo de todas as imperfeições e sinais de envelhecimento vem mobilizando o ser humano a tomar atitudes bastante radicais. Cirurgias, implantes, alimentação regrada, e ida constantes às academias prometem a quem os procura uma verdadeira metamorfose corporal. Entretanto, sabemos que o preço que se paga para consegui-la nem sempre corresponde à imagem desejada. A própria mídia contribui para divulgar o lado negativo dessa busca insaciável. Casos de anorexia, bulimia, cirurgias que levam à morte e deformações corporais resultantes de verdadeiros equívocos científicos, vem nos mostrando diariamente que o desejo de possuir um corpo perfeito, que incorpore a idéia sublime de imortalidade, não condiz com as características essenciais do ser humano.

Essa necessidade obsessiva pela metamorfose pode ser melhor compreendida segundo o pensamento de Eliane Robert Moraes que afirma que: "a metamorfose seria então um intenso e interminável processo de 'dispersão do Eu no objeto exterior' ... Seja como for, essa capacidade de transformação sempre implica a projeção do ser para fora de si."

A idéia permanente da busca de um corpo que atenda às necessidades e fantasias do ser humano aponta também para uma necessidade que o homem tem de ir ao encontro de sua identidade. Um desejo de se diferenciar dos demais e de mostrar que, mais do que ser belo, o importante é procurar se destacar dentro dessa nossa sociedade ocidental.

Talvez esse pensamento explique as diversas mutações aplicadas ao corpo humano, na atualidade. Diante de um verdadeiro universo de tatuagens, piercings e modificações corporais, surge um novo corpo feminino. Modismos a parte, as várias inserções, tanto externas quanto internas, contribuem para inaugurar um novo padrão de beleza. A opção por essa espécie de metamorfose vem deixando marcas profundas, tanto no corpo quanto na psiquê de cada uma dessas mulheres, na medida em que perseguem um modelo corporal que atenda às necessidades da moda e da mídia.

Assim, o corpo se torna um elemento de comunicação dentro da sociedade contemporânea e impõe uma narrativa. É o suporte que traduz os anseios artísticos, políticos, sociais e psicológicos de uma sociedade. Sobre a pele que envolve os corpos, depositamos uma série de informações que traduzem a nossa cultura e nossas experiências e, por mais que desejemos alcançar o inalcançável e apagar as marcas que representam a verdadeira condição de sermos humanos, ainda assim, o nosso corpo está sujeito a uma verdadeira insatisfação que mobiliza pulsões e sensações diversas e contribui para transformar esse invólucro da alma num suporte bastante rico para profundas metamorfoses.

Beatriz Ferreira Pires comenta que:

"a necessidade existente de criar uma identidade e se diferenciar dos demais faz do corpo um outdoor de si mesmo, onde as interferências aplicadas à pele, ao marcar momentos e situações, constituem um registro da história do indivíduo. Elas representam um resultado físico e outro psicológico – o primeiro ligado à estética a funcionalidade, e o segundo, ao gozo, à satisfação que advém da realização de superar os próprios limites e estar de posse de um determinado elemento."

Assim sendo, verificamos que, no tocante às questões sobre a utilização do corpo feminino e suas possíveis modificações, seja como forma de representação idealizada do mesmo, ou como uma necessidade de transformá-lo em algo que seja o tradutor das suas buscas inconscientes, a imagem da mulher na sociedade contemporânea representa muito mais um simulacro repleto de referências e artificialismos do que a verdade de um corpo realmente humano.

O desejo pela transformação corporal setorizou a sociedade feminina. De um lado, encontram-se os tipos cuja busca por um padrão de beleza idealizado transformou os corpos femininos num tipo de beleza artificial e simulada. Neste campo encontram-se artistas de cinema e TV, modelos e manequins e todo um universo de celebridades de poses estudadas e expressões robotizadas e que, de certa forma, corporificam os ideais de beleza clássica que muitas de nós, ainda que com alguma crítica, de certa forma perseguimos.

Do outro lado estão aquelas que utilizam os seus corpos como suportes para expressões artísticas, são elas artistas plásticas, adeptas das body modifications e de modismos como tatuagens e piercings. Muitos desses corpos femininos tornaram-se a expressão do feio, do sujo e do bizarro e se encontram hoje muito distantes da imagem delicada representada pela Vênus de Botticelli.

Um terceiro e último grupo podemos chamar de neutras, pois não são adeptas do artificialismo proclamado pelas mídias e nem sujeitam seus corpos aos modismos efêmeros e interferências radicais. Este grupo, bastante raro na atualidade, remete à imagem da Vênus de Willendorf, pois suas representantes se encontram muito mais perto dos aspectos naturais do corpo.

De qualquer maneira, a popularização das imagens femininas na sociedade atual, seja pelos meios tradicionais ou digitais e a crescente inserção das mulheres no meio artístico, vem caracterizando um novo tipo feminino que encontra nas metamorfoses do corpo um instrumento de comunicação e se inscreve como um novo modelo feminino, que se torna o espelho onde se miram nossas Vênus contemporâneas.



Referências Bibliográficas


DEL PRIORE, Mary. Corpo a Corpo com a Mulher: pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. São Paulo: Senac, 2000.
JANSON, H.W. e JANSON, Antony F. Introdução à História da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
LICHTENSTEIN, Jacqueline (Org.). A pintura – Vol: O Belo. São Paulo: Ed. 34, 2004
MORAES, Eliane Robert. O Corpo Impossível. São Paulo: Iluminuras, 2002.
PIRES, Beatriz Ferreira. O Corpo como Suporte da Arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Senac, 2005.

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