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PROCESSO COLETIVO E PROCESSO COLABORATIVO:
HORIZONTALIDADE E TEATRO DE GRUPO
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André Carreira
e Daniel Olivetto. Respectivamente: Professor do
Programa de Pós-Graduação em Teatro
(Mestrado da Universidade do Estado de Santa Catarina) e
diretor do Grupo (E)xperiência Subterrânea.
PQ CNPq; e Bolsista de Iniciação Científica
do CNPq, graduando em Artes Cênicas pelo CEART- UDESC,
ator e diretor da Cia. Experimentus (Itajaí –
SC).
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Atualmente, no seio do movimento teatral da América Latina,
a expressão teatro de grupo tem uma presença
que indica novas tendências organizacionais que têm
constituído um campo específico do fazer teatral.
Diferentemente das estruturas grupais características do
teatro dos anos 70, e começo dos anos 80 do século
XX, onde o grupo definia-se como espaço de coletividade
e, principalmente, de contestação aos regimes autoritários,
o teatro de grupo nos nossos dias parece representar
um modelo que se define mais pela articulação de
projetos cênicos.
No caso do Brasil, o movimento do teatro de grupo foi
o responsável pela introdução de prática
de criações coletivas (o processo coletivo).
Dessa forma, os grupos aparentemente levaram o ator para o centro
dos processos criativos. Posteriormente a este fenômeno
se deu, no período imediato da pós-ditadura, a chamada
década dos encenadores. Já no começo
dos anos 90, houve uma retomada das criações coletivizadas,
no entanto, neste momento estas prática receberam o nome
de processo colaborativo.
O teatro de grupo, e a implementação de processos
coletivizados de produção e criação,
têm se caracterizando pela contestação e resistência.
Conseqüentemente, a reivindicação da coletividade
representa a construção de um lócus de um
teatro que se opõe radicalmente ao teatro de elenco
e, fundamentalmente, ao ‘sistema da fama’, isto é,
ao império da celebridade por sobre o discurso criativo
da cena.
No seio das iniciativas (1) levadas a cabo pelos pesquisadores
do Projeto O Teatro de Grupo e a Construção
de Modelos de Trabalho de Ator, durante os anos de 2004 e
2005, foram coletadas informações que revelam diversas
semelhanças no que diz respeito ao passado e ao contexto
atual do teatro de grupo brasileiro. Entre estes elementos
podemos citar: o ideal coletivo; projeto estético definido;
necessidade da manutenção de um núcleo estável
de pessoas; existência de comunhão e afetividade
entre os membros do grupo; necessidade da coletividade; desenvolvimento
de pesquisas de linguagem; tomada de decisões horizontalizada,
e a presença de uma figura de diretor menos forte; e, principalmente,
a existência de um trabalho continuado que se estenda além
das montagens de espetáculos, configurando aquilo que seria
definido como um trabalho colaborativo.
Esse conjunto de elementos representa um referencial para se delimitar
a idéia de teatro de grupo que é reivindicada
por um grande número de projetos coletivos que estão
em funcionamento no país. O que caracteriza boa parte dos
grupos teatrais atualmente é a busca por formas de organização
do trabalho grupal que se sustentem em processos de pesquisas
atorais, como elemento de base para a criação do
texto dramático, e do espetáculo, de um modo geral.
Cabe destacar, nestas práticas grupais, uma valorização
da figura do ator na construção do objeto textual
e na própria definição dos rumos da encenação
em sua totalidade. Isso repercute de forma direta na instauração
de processos criativos que adquirem a forma de processo coletivo
ou de processo colaborativo. Nestes dois modos de trabalho,
o ator passa a ser fundamental na criação da dramaturgia,
e conseqüentemente cumpre uma função central
na criação do espetáculo.
A pesquisadora Adélia Nicolete, referindo-se ao processo
coletivo no Brasil, afirma que este diz respeito mais ao teatro
da época da ditadura militar. Segundo ela, este tipo de
criação era um processo “onde a figura
do diretor como condutor absoluto foi questionada ou abolida e
o intérprete tomava o centro do processo e dele irradiava
a obra” (2003). Neste sentido, era comum que se apagassem
as assinaturas individuais para a criação, isto
é, a criação do texto e a direção
passavam a ser assinadas pelo grupo.
No começo dos anos 90, começa a aparecer o uso do
termo ‘processo colaborativo’, que segundo Antonio
Araújo, diretor do Teatro da Vertigem, seria “o
compartilhamento da criação pelo dramaturgo, diretor,
ator, os outros criadores, sem uma hierarquia nessa criação.
O diretor não é mais importante que o dramaturgo,
o dramaturgo não é mais importante que o ator e
assim por diante” (Araújo apud Fischer 2005).
O que o difere do processo coletivo, seria centralmente o fato
de cada indivíduo assinar sua função, ainda
que todos discutam os aspectos relativos ao trabalho dos outros.
Portanto, no processo colaborativo, nos momentos de tomada
de decisões polêmicas cada um responde por sua respectiva
área, dando a ‘palavra final’.
Luís Alberto de Abreu, que tem uma extensa prática
como dramaturgo, inclusive no momento de gênese do processo
colaborativo, expõe uma possível evolução
deste conceito:
"O processo colaborativo provém em linhagem direta
da chamada criação coletiva, proposta de construção
do espetáculo teatral que ganhou destaque nos anos 70,
do século 20, e que se caracterizava por uma participação
ampla de todos os integrantes do grupo na criação
do espetáculo (...) A criação coletiva possuía,
no entanto, alguns problemas de método. Um deles era a
talvez excessiva informalidade do próprio processo. Não
havia prazos, muitas vezes os objetivos eram nebulosos e a experimentação
criativa era vigorosa, não havia uma experiência
acumulada que pudesse fixar a própria trajetória
do processo". (FREITAS, 2004)
A denominação processo colaborativo é
recente e, segundo Eduardo Freitas, cabe ressaltar que “não
é exclusiva do dramaturgo [Abreu], pois resulta de uma
prática adotada em fins da década de 90 por grupos
de teatro de São Paulo, principalmente, e por dramaturgos
como Fernando Bonassi, Hugo Possolo, Reinaldo Maia e Sérgio
de Carvalho” (idem 2004).
Mas o que distinguiria o processo colaborativo da já experimentada
criação coletiva? Segundo diferentes criadores,
o processo colaborativo traz como diferencial a presença
da figura do dramaturgo dentro do processo de trabalho. A ausência
desta figura na criação coletiva, ou processo
coletivo ocasionava, possivelmente, um acúmulo de
experimentações cênicas que geravam discursos
desorganizados, pela carência de um gesto que definisse
um estrutura textual.
Neste sentido a experiência do Teatro Experimental de Cali
(TEC), dirigido por Enrique Buenaventura, grande expoente da criação
coletiva latino americana, indica que o lugar de criador
da dramaturgia estava claramente preservado, e recaia sobre o
próprio Buenaventura que reunia ainda o papel de diretor
do grupo.
É interessante observar que se o ator pretendia, no processo
da criação coletiva, fugir do predomínio
do dramaturgo, e do texto ‘sacro santo’, no processo
coletivo não pode escapar do olhar centralizador do
diretor. Pode-se pensar que a predominância ora da figura
do diretor, ora do autor, que interferem de forma decisiva nos
processos propostos como experiência horizontais e frontalmente
coletivizas, não esconderia realmente uma potencial deficiência
desses modos coletivos. Seria inexorável para o funcionamento
do espetáculo uma ação individual que organizasse
finalmente o material coletivo?
A década de 80 caracterizou-se como um período de
grande presença do diretor na definição dos
rumos da cena nacional. O reaparecimento, nos anos 90, de um modo
operacional baseado no coletivismo e na reivindicação
de uma horizontalidade, que seria ponto de partida e ponto de
chegada da criação, não poderia ser pensado
como uma resposta à década dos encenadores?
O centralismo do diretor aparentemente é discutido com
a adoção de procedimentos e de poéticas horizontais.
O processo colaborativo pode ser pensando também
como um discurso político que ensaia um réquiem
para os diretores, sem, no entanto, produzir nenhuma ação
concreta que conduza ao enfraquecimento dessa figura que continua
sendo fundamental na estruturação da cena nacional.
Essa horizontalidade experimentada tanto no processo coletivo
como no processo colaborativo não implica no desaparecimento
factual das funções que compõem os procedimentos
básicos de criação teatral. Percebe-se que
estas funções adquirem novas formas, pois são
compartilhadas por diferentes membros dos grupos, ou até
mesmo funcionam de modo rotativo. As funções estão
presentes nos processos e são claramente reconhecidas pelas
equipes de trabalho, mas tais funções não
são assinadas por indivíduos que ficam particularizados
na ficha técnica.
Os processos criativos aqui tratados direcionam o ator para um
diálogo mais imperativo dentro da criação
do texto e do conjunto do espetáculo. Isso determina que
se reorganizem as posturas dos membros dos grupos de tal forma
que os próprios fundamentos do espetáculo sofrem
deslocamentos. Colocar o ator no centro do trabalho, como uma
voz que define os fundamentos do mesmo, parece ser o embrião
que permite surgir um gesto coletivo definido, que se diferencia
das iniciativas criativas tradicionais.
Surge então a idéia de um ator ‘propositivo’.
O estabelecimento de novos lugares para os sujeitos de uma criação,
tal como afirma Antonio Araújo, faz desse ator, "um
ator que já não é o ator da 'marca', é
um ator propositivo, o ator que pensa, que discute os rumos do
trabalho (...). Esse é um ator ligado ao conceito e discussão
do trabalho com o todo. É um ator muito propositivo"(Araújo
apud Fischer: 2005).
Neste quadro, rompe-se a autoridade da direção monolítica:
o dramaturgo sai do gabinete e vai para a sala de ensaio; o ator
discute a obra, dá idéias; e assim, todos os sujeitos
do grupo passam a criar em conjunto. Parece haver aqui uma profunda
relação com a idéia modelar do teatro
de grupo. Trata-se, sobretudo, de uma nova organização
do papel do ator na criação. De um executor de papéis
ele passa a fazer parte da discussão da totalidade do espetáculo,
daquilo que se quer ver em cena, coletivamente.
Em muitas produções do teatro de grupo existe uma
ênfase nas criações que articulam processos
coletivistas e isso reafirma a própria noção
de grupalidade. O trabalho que reivindica uma poética do
coletivo (mas não todo teatro um gesto coletivo?) busca
um outro diálogo com o conjunto da criação
teatral, e pretende desfazer as fronteiras que a rigidez das funções
criativas estabeleceu no teatro.
Nota
(1) Foram realizadas diversas entrevistas
nas cidades de Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, São
Paulo e Florianópolis, com 32 conjuntos teatrais conformados
a pelo menos cinco anos.
Referências
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Folhetim – Revista do Teatro do Pequeno Gesto. Rio
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Nr. 2, Agosto, 1998.
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GARCIA, Silvana. O Ator e Coletivo. In: O Teatro Transcende
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