“Verdadeira
ou falsa, a l’aisthesis modifica imediatamente a anima [o
pensamento-corpo], deslocando sua disposição para
o bem-estar ou o mal-estar.”
J-F. Lyotard
A proposta de Pollock
integra uma série de transformações que ocorreram
imediatamente após a Segunda Guerra, abrindo espaço
para interrogações sobre a função
da arte, a partir daquele momento. Como exemplo, em 1966, Adorno
se afirmva partidário de criações artísticas
que fossem refratárias à ‘indústria
cultural’, propondo uma ‘autonomia radical’,
que não mais levasse em consideração as necessidades
do mercado, nem as necessidades ‘comerciais’. Essa
reflexão de Adorno, ainda que integre o contexto específico
das discussões acerca da arte ‘Pós-Auschwitz’,
é de grande alcance, se pensamos a série de movimentos
que ocorrem nessa época: propostas artisticas que visam
investir no mundo, de maneira concreta ou metafórica (1),
expandindo-se em direção à cidade, sob forma
de intervenções, performances e happenings,
em que o corpo do artista passa a servir de lugar, de suporte,
ainda que efêmero, para a arte. A relação
espectador/obra assume novos aspectos quando a arte sai do espaço
habitual dos museus e galerias para acontecer também no
espaço urbano, na paisagem, na natureza. Certamente, podemos
situar esse momento numa dinâmica de ‘autonomia radical’
da arte em relação ao próprio sistema que,
então, a sustentava; uma interrogação de
seus preceitos, de seus limites físicos e conceituais,
de maneira distinta, mas filiada ao gesto duchampiano do início
do século XX.
Os limites do ateliê tradicional são, assim, pulverizados,
os espaços de exposição interrogados. Desta
maneira, a paisagem, a natureza, o espaço natural, de modo
geral, sua geologia, seus aspectos fisicos e suas leis internas
tornam-se igualmente lugares em que a arte passa a existir, como
objetos de seu questionamento, matéria de seu fazer.
A Land Art, Smithson : da natureza como sintaxe
O termo Land Art surge no final da década de 60,
para designar ações que visam utilizar ou transformar
um lugar natural, geralmente em grande escala. Assim , uma de
suas significativas conseqüências é o trabalho
do artista fora dos circuitos dos museus e do mercado de arte,
num primeiro momento – fato que já havia ocorrido
com o surgimento das primeiras performances e happenings,
no final da década de 50, notadamente a proposta de Allan
Kaprow. No que concerne à Land Art, alguns nomes
tornaram-se referência, e assim citamos Heizer, Oppenheim,
Walter de Maria, Richard Long, Christo e, particularmente, Robert
Smithson. Este último, além de sua importância
relativa às intervenções na natureza, foi
um criador de conceitos, dentre os quais o de dislocation,
ou deslocação, que se pode compreender como algo
originalmente ligado à visão, mas que evoca igualmente
descentramento, fragmentação, decomposição.
O trabalho de Smithson abrange a construção de uma
teoria estética, paralela aos projetos artísticos,
e que pensa a arte em estreita relação com o território
(urbano ou natural). Não podemos visitar sua arte sem levar
em conta o período que se insere. Intregando uma série
de propostas oriundas de diversas esferas da cultura contra os
poderes institucionais. Smithson interroga a urbanização
massiva nos EUA, a arte de seu tempo, a história, os monumentos,
as diversas culturas, as noções de tempo e de espaço
e nossa percepção dessas noções.
Em 1961, o artista passa três meses em Roma, onde tem contato
com a história de maneira singular : - Antes da viagem,
eu tinha apenas afrontado a arte nova-iorquina. De modo que essa
viagem a Roma foi um encontro com o pesadelo da história
européia. Essa viagem, acompanhada pelas leituras de T.S.
Eliot, Willian Burroughs e Ezra Pound, entre outros, foi, como
afirma o artista, uma espécie de travessia pela fachada
do catolicismo, passando pela Renascença, rumo às
“estruturas arquetípicas”, as “necessidades
primordiais”, relacionadas às profundezas do inconsciente
– não esqueçamos da importância de leituras
de textos de Freud e Jung para Smithson. A partir desse percurso,
o artista buscou decifrar as características da arte européia
do período anterior ao modernismo, “para escapar
à visao formalista desse último”.
Em 1966, Smithson cria seus Mapping Dislocations, trabalho
estreitamente relacionado aos conceitos de site/non-site
(lugar/não-lugar) e de deslocamento. Afrontando as dimensões
da paisagem, sua arte transforma as condições de
visibilidade das obras. Na galeria ou no museu, Smithson propõe
uma obra fragmentada, que passa por uma ‘deslocação’,
ou decomposição; uma obra parcial que caracteriza
os seus non-sites. O espaço de exposição
torna-se um não-lugar, um entre-dois determinado igualmente
por uma não-visão (non-sight). Com a criação
de um dispositivo composto por texto, mapa e fragmentos de lugares,
o artista joga com o conceito de representação,
ou melhor, cessa toda possibilidade de representação,
criando uma espécie de ‘geologia abstrata’,
termo por ele criado.
Quando Smithson observa o crescimento massivo dos subúrbios
e zonas industriais americanos, emprega os termos deslocação
e descentramento para se referir a uma mudança drástica
das relações com as noções de linearidade
e centralidade, de ausência, no mundo contemporâneo,
do senso de território. O conceito de entropia, mais uma
vez, é aplicado. “A expansão urbana e infinito
desenvolvimento residencial do pós-guerra contribuiem para
a arquitetura da entropia” e essa entropia “é
a condição que conduz a um equilibrio gradual”,
explica. Para Smithson, que pensa a natureza também como
território, a paisagem urbana se torna uma espécie
de frase pontuada: seus elementos, torres, chaminés, fumaças,
luzes coloridas são pontuações dessa frase.
Smithson vai mais além em sua ”percepção
sintática” do território, que o leva ao seguinte
raciocínio: não somente a arte é artificial,
como também toda a nossa percepção da natureza
e do mundo. Lembramos que para Delacroix a natureza é “apenas
um dicionário que fornece as entradas e nada mais”.
Ao contrapormos a definição de Delacroix àquela
defendida por Smithson, torna-se evidente o grau de transformação
da própria prática artística e suas relações
com a natureza, num espaço de um pouco mais de um século.
Para o artista, a natureza é algo de inacabado, na qual
ele tem o direito de intervir, de integrar seu processo de transformação.
Smithson utiliza praticamente objetos encontrados nos locais em
que investe para criar seus Earthworks (obras de terra).
Dentre elas, a Spiral Jetty tornou-se a mais célebre.
A obra nasce em 1970 e se trata de uma faixa de 5m de largura
e 500m de extensao, composta por toneladas de rochas basálticas,
desenhando uma espiral no Great Salk Lake (Grande Lago Salgado)
do estado do Utah, nos EUA.
Em 1972, uma brusca elevação das águas do
lago fazem a obra desaparecer. Ela passa, a partir de então,
a existir em suporte fotográfico ou fílmico (Smithson
realizou um filme sobre a Spiral Jetty). Em 1973, Smithson
morre tragicamente num desastre de avião aos 35 anos, quando
trabalhava no projeto Amarillo Ramp (Rampa de Amarillo), no Texas.
Quase três décadas mais tarde, a Spiral Jetty
foi elevada à superficie do lago e pode ser novamente
visitada.
A referência a Robert Smithson na obra de Cyprien
Gaillard
Robert Smithson é a fonte inspiradora das propostas de
Cyprien Gaillard, jovem expoente da arte francesa atual que, entre
vandalismo e estética minimalista, romantismo e Land
Art, interroga o rastro deixado pelo homem na natureza.
Desniansky Raion (2007, 30’) trata de situações
relacionadas à ordem e ao caos. Composta por três
partes, ela é introduzida por um plano fixo de um edifício
dos anos 70, espécie de arco do triunfo monumental que
marca a entrada de Belgrado.
A primeira parte do vídeo mostra uma briga entre duas gangues
de hooligans no estacionamento de um conjunto habitacional do
subúrbio de São Petersburgo, filmada de um edifício
das proximidades. Azuis contra vermelhos, alguns usando luvas
brancas, os dois grupos avançam, um em direção
do outro, organizados, antes de se decomporem por efeito do choque,
reconstituindo-se em seguida para um novo assalto. Evocando uma
cena de batalha de afresco medieval ou uma pintura de história,
o desencadeamento da violência, ao mesmo tempo selvagem
e codificado, repulsa tanto quanto fascina.
O segundo quadro é um plano fixo da fachada de um conjunto
habitacional do subúrbio parisiense, sobre a qual acontece
um espetáculo que combina som, luz e pirotecnia. Essa mise
en scène grandiosa, normalmente reservada aos monumentos
históricos, termina abruptamente com o desabamento do edifício.
A visão hipnótica desse monolito, sublimado pelos
fogos de artifício, antes de ser reduzido a poeira, soa
como um enterro em grande pompa das utopias arquitetônicas
modernistas.
Enfim, a última parte explora Desniansky Raion, bairro
da periferia de Kiev, filmado sem autorização de
vôo de um ultra-leve que flutua perigosamente à mercê
do vento, oferecendo uma visão ao mesmo tempo cinematográfica
e amadora dos lugares. Elevando-se numa paisagem nevada e melancólica,
a multidão austera de conjuntos habitacionais é
inicialmente desordenada, antes que apareça nesse caos
de concreto um grupo de torres organizadas num círculo
perfeito, lembrando o monumento megalítico de Stonehenge,
na Inglaterra.
Filmadas ilegalmente ou adquiridas por vias paralelas, as três
partes do vídeo são testemunhas de uma aproximação
sem pudores das imagens e de seu estatuto. Parte integrante da
obra, a trilha sonora do músico KOUDLAM, entre referências
clássicas e sonoridades contemporâneas, adiciona-se
ao caráter romântico do conjunto.
A da obra de Cyprien Gaillard traz à discussão pública
questões relativas às relações entre
as ações humanas e natureza, arquitetura, arte,
e suas implicações para a organização
do espaço urbano, para a formação cultural
de um povo, para a configuração do tecido social
constituído por indivíduos de uma mesma comunidade.
Utilizando conceitos como os de “ vandalismo”, “caos”,
“precariedade”, entre outros, Cyprien Gaillard interroga
uma certa idéia do Belo encontrada em paisagens naturais
que sofrem interferências e ações humanas.
Sua proposta dialoga com trabalhos desenvolvidos hoje, no Brasil,
por Thiago Rocha Pitta, Chang Chi Chai, Eduardo Srur, Lourival
Batista, Imaginário Periférico, Grupo Poro, Arte/Cidade,
Grupo Urucum, Grupo de Interferência Ambiental, dentre outros
projetos de arte contemporânea que compõem o cenário
nacional.
As noções de deslocamento e deslocação
sugerem um importante e denso trabalho sobre a estética
contemporânea. Ambos os conceitos indicam um número
infinito de casos a serem considerados e analisados de acordo
com suas especificidades. Entretanto, preservadas as singularidades,
podemos entrever, a partir dos conceitos aqui abordados, um novo
regime estético, uma nova possibilidade de existência
da arte, de seu prularismo de linguagens. Esse novo estado de
coisas é sem dúvida refrátario a classificações,
a rótulos, a denominações. A permanente mobilidade,
própria a essa nova configuração estética,
nos reúne nos não-lugares do próprio sentido,
criando novas maneiras de experimentar a arte, deslocando, desviando,
deslegitimando.
Nota
1. Esse trabalho nasce das férteis discussões em torno
de trabalhos dos artistas Célia Cotrim, Cleone Augusto, Cristiane
Geraldelli, Esther Bloch, Frank Ostrower, Gabriela Noujaim, Ivani
Pedrosa, Lídia Peychaux, Luciana Guimarães, Marcio
Zardo, Marilda Rezende, Marília Jaci, Sonia Távora
e Theresa Macintyre, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage,
no segundo semestre de 2006.
Referências
bibliográficas
ADORNO, Theodor. Dialectique
négative. Paris, Payot, 1992.
“Ateliers – l’artiste et ses lieux de création
dans les collections de la Bibliothèque Kandinsky”,
catálogo organizado por Didier Schulmann, Editions Centre
Pompidou, Paris, 2007.
Robert Smithson: The Collected Writings, editado por Jack Flam,
publicado pela University of California Press, Berkeley, California,
2nd Edition 1996, disponivel em : http://www.robertsmithson.com/essays/entropy_and.htm.
Textos online
Smithson: http://www.robertsmithson.com/
http://stephan.barron.free.fr/technoromantisme/bellon_helene/index-h.html
http://territoiresinoccupes.free.fr/art/partie222.html
COBEL, Laurence. « Robert Smithson : une cartographie de l’art
» http://www.atopia.tk/index.php?option=com_content&task=view&id=21&Itemid=57
Periódicos
Du Land Art sauvé des eaux - A la redécouverte de
la “Spiral Jetty”, Courrier International, n° 644,
6 de março de 2003, por John Dickie. Artigo originalmente
publicado no The Independent on Sunday. http://www.courrierinternational.com/article.asp?obj_id=4813
THIBAULT, Isabelle. Land Art, mythe et limites du territoire, dynamique
du regard. Publicado na revista online Edit, n°3, “Territoires/Territoires”,
março de 2006. Disponivel em: http://www.edit-revue.com/index.php

