Do conceito
e de sua variação
A opinião sobre o conceito de experimento, por ser mesmo
opinião – conjunção de uma
percepção com um hábito – tem difundido
a imagem de algo que se procura sem saber muito bem o que se quer.
Ou de algo que ainda não é profissional, que não
atende a requisitos de acabamento espetacular, não pertencendo
aos ciclos de fechamento próprios da obra de arte. Obviamente,
não é disso que se trata a presente abordagem sobre
teatro e experimento.
Caberia perguntar: o que vem a ser um teatro experimental? A questão
supõe, por seu turno, uma categoria de teatro que pertenceria
a um conjunto, o de experimental. Haveria um estado de coisas
que deveria supor identidade e exclusão do que não
é idêntico. Esse é um pensamento que opera
por enquadramento. Deleuze e Guattari nos incitam, antes, a exercitar
um pensamento nômade, no qual se dá a “variabilidade,
a polivocidade das direções”. (1) Isto já
é experimentação.
Que se tome, a partir disso, o trabalho do conceito. Em vez de
operar por delimitação, como peças
de um quebra-cabeça o fariam devido ao seu contorno de
encaixe, um conceito carrega a potência de sua definição,
numa variação contínua de seus elementos
constitutivos e na criação de zonas de vizinhança.(2)
Nesse sentido, não vou delimitar as fronteiras do teatro
experimental – o que não faria sentido algum. Desse
modo, torna-se mais fecundo falar das questões que relacionam
o teatro com o experimento. Nessa direção, pode-se
entender a poética das máquinas de guerra
que constituem os teatros experimentais: elas são, antes
de tudo, desejo posto à prova.
Para que o conceito de experimento encontre suas potências,
ele pode ser definido a partir da leitura que Stephen Zagala (3)
faz de Deleuze e Guattari, como sendo a variação
da experiência real. Dito em miúdos, aquilo
que difere, muda e diverge. E ao contrário do que aprendemos,
diria que o real não se dá a conhecer a um sujeito-organismo
dele separado, mas sim que é produzido pela experiência.
Isso já é, por si mesmo, um experimento. Evitemos,
entretanto, pensar essa produção do real como uma
interioridade, uma fantasia ou algo imaginário. Pelo contrário,
há sempre um fora – o que não quer
dizer uma realidade lá fora. Antes disso, produção
contínua de um fora.
Zagala contrapõe a essa variação do real,
entendida em sua constante divergência e mudança,
as condições da experiência possível,
de modo que estas não podem antecipar aquela. Existe, aqui,
uma diferença entre potencialidade e possibilidade. A experimentação
ocorre na primeira, mas não deixa de esbarrar na última.
Um corpo em cena: ele não irá voar por cima de nossas
cabeças sem máquinas ou fios e por aí afora.
Nesse sentido, sabemos de antemão o que é possível
para um corpo. Mas não sabemos, por sua vez, o que um corpo
pode. O real torna-se uma arena de experimentação.
Dito em outras palavras: o resultado não se encontra embutido
no processo. Porém, seria um equívoco imaginar que
há alguma arte que deveria corresponder a um plano de pensamento.
Ao contrário, o que se pergunta é pelo poder de
um pensamento em fazer avançar uma arte por seus próprios
meios. Não há, assim, obras que correspondam a conceitos,
mas conceitos e obras que ressoam entre si. Corpos que se encontram,
às vezes à distância, mas com os riscos que
decorrem disso.
Evito, desse modo, dois equívocos: o pensamento que visa
ser o fundamento do real e, outro, a derivação do
caso histórico (pensamento causal). Procuro exemplificar,
mas com o ceticismo afirmativo de quem antes se vê inspirado
por tais forças de pensamento criativo e criação
artística.
Pesquisa e experimento
Mistura-se, à questão já posta de um teatro
que se faz experimental, a chamada área de pesquisa em
criação cênica. Por vezes, num mesmo grupo
de trabalho, os dois conceitos tornam-se operantes, mas eles não
dizem da mesma operação.
A pesquisa em criação cênica envolveria, antes,
todo um movimento em direção ao rastreamento de
informações: às buscas realizadas nos diversos
contextos de vida ou textuais, com o intuito de reunir material
de criação. Na dança contemporânea,
observa Christine Greiner,(4) o treinamento não formata
o espetáculo e nem se apresenta ilustrativamente na cena.
A criação encontra-se atravessada por uma pesquisa,
na modalidade de perguntas que se fazem quanto às possibilidades
e potências de movimento e corporeidade.
No campo do teatro, a pesquisa envolve, na singularidade de cada
processo de criação, a busca de elementos que possam
alimentar a temática e/ou produzir novos materiais para
a criação cênica. Anne Bogart e Tina Landau,
(5) do novo teatro estadunidense, falam de dois procedimentos
de pesquisa: as fontes e a âncora da encenação.
No trabalho sobre as fontes teríamos todo o levantamento
de imagens, sons, objetos e textos que possam contaminar toda
a equipe de criação sobre o tema escolhido. Desse
modo, as obsessões e paixões que impulsionam a encenação
não pertencem somente ao diretor e ao dramaturgo, mas a
todos os envolvidos. A segunda parte, a âncora, refere-se
a estudos ligados a movimentos artísticos e culturais que
possam apontar para a linguagem. Muitos grupos estudam, independentemente
da temática ou do texto literário, movimentos como
cubismo, futurismo, entre outros, que impulsionariam as forças
da textualidade cênica. Acrescentem-se a isso as criações
em que a corporeidade torna-se fonte primeira ou importante da
pesquisa, seja pela criação de partituras físicas,
seja pela instauração de processos em que o corpo
mesmo é o discurso da encenação. Adentra-se,
desse modo, em regiões híbridas e espaços
entre mídias, ou, ainda, contaminados por outras linguagens.
O encenador norte-americano Robert Wilson,(6) por exemplo, diria
que se trata de produzir, através dos movimentos do ator,
um visual book da encenação. Acrescento
a isso a feitura de um audio book. Nesse sentido, a pesquisa
envolve toda a gama da chamada criação textual do
espetáculo, ou das dramaturgias da cena. Tanto nos teatros
que se baseiam no texto literário de uma dramaturgia prévia
à encenação, quanto naqueles em que este
texto tem que ser criado, seja colaborativamente com a presença
de um dramaturgo, seja pelos próprios atores junto à
direção, a pesquisa torna-se, cada vez mais, uma
atitude presente, que não se satisfaz com os dados já
dispostos para o que seria uma criação cênica.
A experimentação, também aqui, torna-se um
fator muito presente.
Portanto, a experimentação pode fazer parte dos
processos de pesquisa em maior ou menor grau. Para tanto, é
preciso, ainda, defini-la no campo da criação artística.
Como fazê-lo? Tomarei, por ponto de partida, a radicalidade
das vanguardas experimentais.
Vanguardas experimentais
Richard Schechner (7) faz uma distinção entre as
Novas Vanguardas e as Vanguardas Históricas. Estas últimas
diriam dos movimentos do princípio do século XX,
como surrealismo, dadaísmo, futurismo, cubismo etc. Tais
vanguardas teriam o compromisso de denunciar a falência
do humanismo burguês, de sua arte e de seu modo de vida.
A 1ª Guerra Mundial foi o seu desencantamento. E a idéia
de revolução, de criação de um novo
homem, o seu corolário. Para Shechner, tais questões
não estariam superadas, mas não seriam o motor dos
novos movimentos, justamente criados após a 2ª Guerra
Mundial, tendo principalmente Nova York como pólo produtor.
Tais movimentos, apesar de inspirados ou motivados pelas vanguardas
históricas ressaltariam, antes, outras questões.
Trata-se, então, para Schechner, de criações
ligadas não mais ao horizonte da revolução
social, mas da experimentação – questão
central, então, das Novas Vanguardas. Experimental, aqui,
teria o sentido de ex-peril: o que sai do perímetro
e se aventura no desconhecido. As vanguardas experimentais teriam
redefinido a cena contemporânea, produzindo um campo
expandido: a) o que é uma atuação; b)
o que é teatro; c) em que lugar ele pode ocorrer; d) a
quem se direciona e com quem se pode envolver; e) como pode ser
produzido; f) e quem pode fazer. O que está em jogo é
a própria definição do que pode ser um trabalho
de arte. Na cena contemporânea, Renato Cohen (8) chamará
essa redefinição de working in progress.
John Cage (9) foi um dos personagens mais atuante das Vanguardas
Experimentais. O músico e compositor experimental irá
não só contribuir para a redefinição
do que pode ser um trabalho de música, mas, também,
irá influenciar a dança pós-moderna e sua
vertente improvisacional, sendo ainda considerado por Marco de
Marinis (10) personagem-chave do novo teatro norte-americano.
Em Cage, a experimentação teve por característica
principal o trabalho sobre a indeterminação. Trata-se
de uma atitude que procurava assumidamente operar com o não-controle.(11)
Entre os métodos, devem ser citadas as operações
de acaso, com a incorporação de quaisquer eventualidades,
rompendo com a noção de estrutura e adotando a de
processo. Cage rompe com a mentalidade de que o performer
ou intérprete deve se ater ao que já foi previamente
determinado (composição musical, obra autoral etc).
Mentalidade esta garantida por uma arte que busca estabilizar
o mundo. O lugar da performance, dirá Cage, não
é determinado: tudo está em mudança, o tempo
todo. Trata-se, nessa perspectiva, de uma abertura às influências
do meio, a todo tipo de atravessamento e incorporação
de instabilidades.
A cena experimental
Não se trata, como foi dito antes sobre o trabalho do conceito,
de encontrar modelos de experimentação. Seria mesmo
uma contradição querer delimitar o conjunto de características
que operariam com o experimento. As respostas de John Cage são
basicamente as de um artista que buscou, com suas criações
e colaborações, pensar e atuar em meio à
mudança. Em vez de a arte ser a contrapartida de um mundo
instável, ela passa a desposar a instabilidade do mundo.
As respostas, de cada artista, são únicas, singulares.
Há graduações, combinações,
misturas infinitas entre obra e processo, de modo que não
se pode dizer mais que elas sejam categorias excludentes.
O encenador Henrique Diaz opera com criações instáveis
do ponto de vista do significado textual. Tenho visto em diversos
debates que muitas análises críticas de seus mais
recentes espetáculos pautam pela noção de
que há uma proliferação de símbolos
e que seria preciso decifrá-los. Ora, envolvendo tanto
uma atitude de pesquisa quanto de experimentação,
Henrique Diaz coloca em cena uma poética de desestabilização
dos significados prévios de um texto teatral. As vicissitudes
do processo, nomeado por Renato Cohen como um dos procedimentos
working in progress, são incorporadas. As pesquisas
realizadas pelos atores em Ensaio Hamlet (12), para dar
um exemplo, em vez de apenas proporcionaram achados para a estabilização
de um texto teatral, de um modo de abordagem do mesmo e de configuração
de uma cena, tornam-se ruídos. Não há significados
atrás deles, mas cortes a-significantes, na trilha
do pensamento de Deleuze e Guattari (13) . Isso impede o fechamento
do sistema que caracteriza o dramático, como observa Silvia
Fernandes, a respeito dos conceitos e da criação
cênica de Renato Cohen (14). As variáveis abertas
produzem significados imprevisíveis.
Outras criações cênicas produzem, a seu modo,
relações com o campo da instabilidade. O grupo Zikizira
de Teatro Físico (15), liderados por André Semenza
e Fernanda Lippi, por exemplo, colocam em primeiro plano as micro-sensações
deflagradas nas criações cênico-corpóreas.
Nesse caso, a experimentação define-se pela busca
do corpo instável. Já na criação de
Henrique Diaz, ela se dá na desestabilização
do discurso cênico.
Os exemplos proliferam. A experimentação tem sido
a resposta de muitos artistas ao mundo em que vivemos. O que difere
é que, agora, a arte não mais se contenta em opor-se
à variação do mundo pela sublimidade, mas
torna-se, ela mesma, real em variação.
REFERÊNCIAS:
(1) DELEUZE, Gilles e GUATTARI,
Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia.
Vol. 5. Tradução de Peter Pál Pelbart e Janice
Caiafa – São Paulo: Editora 34, 1997, p. 54.
(2) _______________ e _____________. O que é a filosofia?
Tradução de Bento Prado Jr. E Alberto Alonso Muñoz.
Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.
(3) ZAGALA, Stephen. Aesthetics: A Place I’ve Never Seen,
in Massumi, Brian. A Shock to Thought: expression after Deleuze
and Guattari. New York: Routledge, 2002.
(4) GREINER, Christine. O corpo artista e suas conexões
indisciplinares. Conferência no projeto Laboratório:
Textualidades Cênicas Contemporâneas. Curadoria
de Fernando Mencarelli e Nina Caetano. Projeto Arte Expandida.
Teatro Francisco Nunes. Belo Horizonte: 25 de Agosto de 2006
(5) BOGART, Anne and LANDAU, Tina – The Viewpoints Book.
New York: Theatre Comunications Group, 2005.
(6) ROYER-HALPERIN, Ellen. Robert Wilson and the actor: performing
in Danton's Death; in ZARRILLI, Phillip B. (edited).
Acting (re)considered: a theoretical and practical guide.
New York: Routledge, 2002
(7) SCHCHNER, Richard. Ocaso y caída de la vanguardia.
In: CEBALLOS, Edgar (Director). Máscara: Cuaderno IberoAmericano
de Reflexión sobre Escenologia. Traducción
y notas: Antonio Pietro Stambaugh. n. 17-18, Año 4, 1994.
(8) COHEN, Renato. Working in progress na cena contemporânea.
São Paulo: Perspectiva, 1998
(9) CAGE, John. Silence: lectures and writings. Middletown:
Wesleyan University Press, 1974 (1a edição 1961).
(10) MARINIS, Marco de. El nuevo teatro: 1947-1970. Traducción
de Beatriz. E. Anastasi y Susana Spiegler. Barcelona/Buenos Aires:
Editoria Paidós, 1998.
(11) TERRA, Vera. Acaso e aleatória na música,
um estudo da indeterminação nas poéticas
de Cage e Boulez. São Paulo: Educ, 2000.
(12) Ensaio Hamlet. Companhia dos Atores (RJ-Brasil),
baseado no texto de Willian Shakespeare, com direção
de Henrique Diaz. Performance de Bel Carcia, César Augusto,
Felipe Rocha, Emilio de Mello, Marcelo Olinto, Malu Galli. Belo
Horizonte, Festival Internacional de Teatro Palco e Rua (FIT-BH),
02/08/2006.
(13) Cf. ZOURABICHVILI, François. O vocabulário
de Deleuze.Tradução de André Telles.
Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004.
(14) COHEN, Renato. Op. cit.
(15) Cf. site do grupo Zikizira Teatro Físico : http://www.zikzira.com/actionspace/BRZ/index_brz.html

