| |
TEATRO & INTERMÍDIA:
ANOTAÇÕES SOBRE CONCEITOS, FORÇAS E POTÊNCIAS
|
Luiz Carlos Garrocho
é Diretor, pesquisador e professor de teatro, arte-educador
e gestor cultural. Graduado em Filosofia pela UFMG, e mestre
em Artes Cênicas pela UFMG/Belas Artes.
|
Susan
Sontag (1966) escreveu num texto intitulado A estética
do silêncio que toda época tem o seu projeto de espiritualidade,
entendendo por esse termo os aportes, idéias e experiências
que tentariam resolver ou enfrentar as dolorosas contradições
da situação humana.
Quando penso na conexão teatro e intermídia, vêm-me
à mente as questões que nos forçam a apreender
tais contradições pelo viés da fabricação
de paisagens sonoras e visuais, trazendo o campo das sensações
e da distribuição nômade para a configuração
de nossas cartografias existenciais.
Nessa entrada da questão, há que se definir o conceito
de intermídia.(1) O termo vem de intermedia, e
foi criado pelo poeta Dick Higgins (LONGUI, 2000), na década
de 60, abrangendo a interelação entre meios diversos,
dando o aparecimento de um novo meio, definido, então,
como um ‘entre-meios’. Higgins considerava o happening
um entre-meios por ser algo que tanto diferia das outras linguagens
quanto abre um espaço ‘entre’.
A conexão intermídia inclui, num aspecto, a pluralidade
das chamadas linguagens artísticas. Nesse caso, teríamos
a formação de hibridismos resultantes da fusão
entre dança, teatro, poesia vocal, poesia verbo-visual,
música, imagem etc. Porém, mais do que qualquer
soma, as potências intermídias apontam justamente
para o que está ‘entre os meios’.
Noutro aspecto, as relações intermídias fazem
parte do plano de imanência no qual, em termos de cultura
midiática, aparecem as novas tecnologias. Lúcia
Santaella (2003) distingue duas fases da imbricação
arte e tecnologia: a primeira seria pré-digital, de caráter
eletroeletrônico (fotografia, telefone, cinema, rádio,
vídeo e holografia) e outra, digital, ou cibernética.
Esta fase teria trazido para o campo da arte os conhecimentos
científicos provenientes das habilidades técnicas
então requeridas, enquanto a segunda, uma ciberarte, proporcionaria
um ‘salto quântico’, ao incrementar “conhecimentos
científicos de habilidades mentais” (p.175-175),
seguindo a trilha de Pierre Levy, quando este fala das ‘tecnologias
da inteligência’.
Entretanto, a emergência de obras e processos intermídia
na imanência de uma cultura midiática e tecnológica
(não necessariamente) pode ser capturada, na voracidade
do capitalismo tardio, numa espécie de fetichização.
Johannes Birringer (1991), artista e pensador de uma cena intermídia
e performática, alerta para o caráter ‘fashion’
de muita produção artística que, recaindo
sob a égide pós-moderna, não passaria da
exploração de estilos e posturas de um radicalismo
mercantilista.
Nesse aspecto, Bernard Stiegler (MEDEIROS, 2007), filósofo
do sensível, expõe o caráter hiperindustrial
de nossa época, que produz o impasse de tomar posse da
energia libidinal das massas e, ao mesmo tempo, esgotar a libido
dos indivíduos. O capitalismo cultural transforma a estética
numa arma de consumo. Tal estratégia tem por objetivo o
controle do comportamento, de modo a se obter a redução
de sua zona de indeterminação. Stiegler mostra que
a experiência estética, como uma experiência
do sensível, consiste justamente no oposto: na intensificação
das singularidades. O resultado dessa ausência de experiência
estética, segundo Stiegler, é a produção
de uma ‘miséria simbólica’. Ao mesmo
tempo, Stiegler mostra que, se toda resistência à
hiperindustrialiação da cultura (e as novas tecnologias
e novas mídias fazem parte desse admirável mundo
novo) é ilusória, seu predomínio e esgotamento
da vida sensível não deixará de produzir
a necessidade de um movimento contrário, de uma “ecologia
do espírito” (p.79). Por essa ‘ecologia’,
Stiegler postula um meio técnico do pensamento, capaz de
conferir a habitabilidade do mundo. Uma ecologia supõe
um processo de meta-instabilidade – abertura que, justamente,
as novas tecnologias e novas mídias potencializam, de tal
modo que as rupturas e revoluções possam ocorrer.
Defendo que conexão teatro e intermídia potencializa
a configuração dessa meta-instabilidade, dessa ecologia
do espírito. A cena de uma ‘vontade radical’,
com as potências de produzir novos mapeamentos da percepção
e de modificar a experiência do teatro e o aporte existencial
dos seres envolvidos tanto na criação quanto na
recepção.
No entanto, caberia perguntar: por que esse campo carregaria consigo
tais potências?
Técnica
e midiologia
Não se trata de enveredar por uma possível redenção
metafísica através da técnica. Antes disso,
penso que se deve procurar, na trilha aberta por Stiegler, pelos
procedimentos meta-instáveis que a conexão intermídia
traz para a cena contemporânea. Investigo, primeiramente,
na dimensão técnico-estética, passando pelo
enfoque radical da midiologia proposta por Régis Debray
(1995), rediscutindo, então, o teatro.
A pesquisadora Ivana Bentes aponta para as interações
produzidas no campo tecno-estético desde os anos 60. Alguns
traços históricos e manifestos desse campo são:
dissolução das fronteiras, apresentação
de processos geradores de objetos artísticos paradoxais
(ciência e arte), arte cinértica e cibernética,
a influência do cinema experimental dos anos 60 e 70 (Andy
Warhol e Michael Snow), as vídeos-experiências, as
propostas ambientalistas dos anos 70 (land art), a body
art, as vídeo-instalações, a criação
de obras híbridas, a presença do artista na própria
obra etc. Ivana Bentes lembra, ainda, que não se trata
de um novo culto da tecnologia, mas, ao contrário, de um
projeto de base. O que perpassa tais experimentos e criações
é o fato de as novas tecnologias potencializarem transformações
no modo como percebemos o mundo. A percepção, submetida
ao plano técnico que a sociabilidade domesticou, libera-se
e abre paisagens novas e surpreendentes. Como exemplo, cito o
videomaker e pensador visual e sonoro, Bill Viola (2003),
que fala da possibilidade da “transposição
da barreira suprema que separa o território do corpo físico
do território da mente luminosa” (p.66).
A interação entre tecnologia e cultura constitui,
para Régis Debray (1995) num problema de midiologia. Debray
toma a ‘midiasfera’ como sendo o “meio de
transmissão e transporte das mensagens e dos homens”
(p.40), que, por si só, modificaria nossa experiência
espaço-temporal e na qual o emissor e o receptor se modificam
pela mensagem. Ao mesmo tempo, a própria mensagem é
modificada nas vias de transmissão, de modo que não
há uma informação anterior ao emissor e independente
deste. A midiologia de Debray realiza, além disso, uma
inversão importante: o suporte, historicamente submetido
nas ciências humanas, passa a predominar sobre o signo.
Trata-se do que ele chama de ‘vestígios materiais
do sentido’. O que ocorre, então, quando no teatro
esses ‘vestígios materiais do sentido’ passam
a constituir o próprio plano das narrativas? As mídias
do corpo, do som e da imagem, tornam-se, por si mesmas, o discurso
cênico.
Retorno da teatralidade: o teatro pós-dramático
Não falo, aqui, de outra coisa que não um teatro
pós-dramático, na esteira de Hans-Thies Lehmann,
ou das ‘dramaturgias híbridas’, nas formulações
de Fernando Pinheiro Villar (2007), nas quais se incluem as experiências
e manifestações da performance-art. No
caso da materialidade cênica, incluo, ainda, nessa entrada,
os teatros físicos e experimentais. O plano da narrativa,
então, é criado pela relação intermídia:
uma cena híbrida, apontando para a multiplicidade e justaposição
de paisagens e linguagens, com a presença, em alguns casos,
das novas tecnologias.
O que resta do teatro? A teatralidade – que pode ser tomada,
então, na perspectiva dos ‘vestígios materiais
do sentido’ de que fala Debray, configurando o plano da
materialidade cênica como discurso. Do teatro restam os
corpos, as forças que atuam sobre os corpos e as relações
intermídias. Além disso, o teatro incorpora elementos
de outras mídias, como o caso da utilização
do loop, criando novos procedimentos narrativos.
Ainda no campo imbricado por tecnologia e cultura midiática,
Renato Cohen denomina as novas experiências de Pós-teatro:
"Com uma imersão em novos paradigmas
de simulação e conectividade, em detrimento da representação,
a nova cena das redes, dos lofts, dos espaços conectados,
desconstrói os axiomas da linguagem teatro: atuante, texto,
público - ao vivo, num único espaço, instaurando
o campo do Pós-Teatro".
A telepresença, o ‘aqui e lá’ ao mesmo
tempo, para dizer com Levy (1966), tem por potência a conexão
entre o corpo e suas virtualizações. Se o teatro,
por exemplo, tem na relação de um corpo (o do ator)
diante de outro corpo (o do espectador) ‘sua matéria’,
essa não deixa de variar na conexão intermídia:
o atual tornando-se, muitas vezes, indiscernível em relação
ao virtual, quando não, fazendo parte de colagens e justaposições
que compõem o ‘fluxo material e expressivo’
– conceito de Deleuze e Guattari (1997) que utilizo como
inspiração e ferramenta pensar o plano das narrativas
cênicas pós-dramáticas.
Um fluxo de continuidades descontínuas, obra de arte total
que recusa as totalizações, a cena intermídia
é atravessada e aberta. Seu aporte restaura a indeterminação
que se torna, para os habitantes das grandes cidades, uma cartografia
existencial e estética diante das incertezas de nossa era.
NOTAS
(1) Carlos Mendonça, artista e pesquisador de estética
e um dos curadores do Projeto Improvisões – improvisação
intermídia no Teatro Marília (Ação
Arte Expandida dos Teatros da Fundação Municipal
de Cultura de BH), distingue entre intermídia e multimídia.
Para ele, o termo multimídia teria por referência mais
o aparato técnico midiátivo e intermídia o
entre-meios, como postulado por Dick Higginso.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BENTES, Ivana. O devir estético do capitalismo tardio.
Trabalhado apresentado ao Grupo de Trabalho “Estéticas
da Comunicação” Encontro do Compós, Associação
de Pós-gradução em Comunicação,
Curitiba, Paraná, junho de 2007. Disponível em: http://www.compos.org.br/data/biblioteca_228.pdf?PHPSESSID=631ff6cc950a4e
6c74eb433163b2f73e. Acessado em 07.11.2007.
__________. Arte e tecnologia no Brasil: do paleocibernético
ao bio-tecnológico. In Site do Museu vitural da arte
brasileira: Ensaios sobre Arthur Omar. Disponível em http://www.museuvirtual.com.br/targets/galleries/targets/mvab/targets/arthuromar/targets/
ensaios/languages/portuguese/html/arteetecnologia.html. Acessado
em 06.11.2007b
BERRINGER, Johannes. Theatre, Theory, Postmodernism. Bloomingtom
and Indianapolis: Indiana University Press, 1991
COHEN, Renato. Pós-Teatro: Performance, Tecnologia e
Novas Arenas de Representação Disponível
em http://www.agenciamento.art.br/textos/pos_teatro.html, acessado
em 20/10/07.
DEBRAY, Régis. Manifestos midiológicos. Vozes:Petrópolis,
1995
DELEUZE, G. e GUATTARI, F. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia.
Vol. 5. Tradução de Peter Pál Pelbart e Janice
Caiafa – São Paulo: Editora 34, 1997.
GAMA, Ronaldo Nogueira. As novas tecnologias e o ator pós-dramático.
Revista Polêmica Imagem n. 19. Universidade do Estado do Rio
de Janeiro. Disponível em://www.polemica.uerj.br/pol19/cimagem/p19_ronaldo.htm.
GOLDBERG, RoseLee. A Arte da performance: do futurismo ao presente.
Tradução de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo:
Martins Fontes, 2006.
LEHMANN, Hans-Thies. Postdramatic Theatre. Translated and
Introduction by Karen Jürs-Munby. Routledge: New York, 2006.
LEVY, Pierre. O que é virtual? Tradução
de Paulo Neves. São Paulo: Editora 34,1996.
LONGUI, Raquel Ritter. Intermédia e poéticas digitais.
40N0tFOund – revista eletrônica do Centro de Estudos
e Pesquisas em Cibercultura - Ano 2, vol. 1, n22, novembro
de 2000.
MEDEIROS, Maria Beatriz de (Org.). Bernard Stiegler: reflexões
(não) contemporâneas. Tradução de
Maria Beatriz de Medeiros. Chapecó: Argos Editora, 2007.
ROMANO, Lúcia. O teatro do corpo manifesto: teatro físico.
São Paulo: Perspectiva-Fapesp, 2005.
SANTAELLA, Lúcia. Cultura e artes do pós-humano:
da cultura das mídias à cibercultura.São
Paulo: Paulus, 2003.
SONTAG, Susan. The aesthetics of silence. In Styles of radical
will. New York: Picador, 1966.
VILLAR, Fernando Pinheiro. Dramaturgias Híbridas.
Conferência no Seminário do Projeto Laboratório:
Textualidades Cênicas Contemporâneas – ação
Arte Expandida: experimentação nos Teatros da Fundação
Municipal de Cultura de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Teatro Francisco
Nunes, 16/10/2007.
VIOLA, Bill. O som da linha de varredura. In: Cadernos
de Subjetividade/Núcleo de Estudos e http Pesquisas da Subjetividade
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica
da PUC-SP – São Paulo: Editora Hucitec/Educ, 2003
 
|
|