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“O colapso de 1990 estabeleceu um hiato radical que projetou sobre toda a produção anterior a pecha de ciclo encerrado. A própria noção de ‘renascimento’, então em voga, sinalizou este sentimento de descontinuidade ainda vigente” (XAVIER, 2001: 41-42).
Palavras-chave: História do Cinema Brasileiro; Retomada; Público
A citação de Ismail Xavier acima sintetiza bem a compreensão geral que ainda hoje temos do cinema brasileiro da década de 1990: um momento de ‘crise’ advindo do desmantelamento das estruturas de financiamento e distribuição então vigentes, somado ao conseqüente desaparecimento do filme brasileiro e do seu público dos cinemas. A isto teria se seguido um ‘renascimento’, uma ‘retomada’ da produção, denominação pelo qual a época acabou ficando conhecida. Mas, além disso, o que Xavier destaca no trecho acima é a percepção, quase inevitável, tanto da chamada ‘Retomada’, quanto do momento anterior do cinema brasileiro (os anos 1980, o ‘período Embrafilme’), como “ciclos que se abrem e se fecham”. Ainda mais porque estes últimos estariam balizados pelo advento de uma ‘ruptura’ muito evidente: a suposta interrupção da produção de longas-metragens, a partir das medidas tomadas por Collor.
Uma primeira ressalva que poderíamos fazer a respeito desta última consideração é que, como alguns pesquisadores já vêm apontando (CAETANO, 2007; VALENTE, s.d.; BUTCHER, 2005), a crise de produção do início dos anos 1990 não representou realmente um “hiato radical”, ou seja, a paralisação da atividade ...
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audiovisual ou da produção de longas-metragens no Brasil. Por um lado, “curtas, programas de TV, comerciais, vídeos institucionais e video-clips continuaram a ser feitos em quantidade, sustentando setores da infra-estrutura (como estúdios e laboratórios) e empregando mão-de-obra criativa e técnica” (BUTCHER, 2005: 36). Este mesmo autor indica também o surgimento, nesta época, de produtoras que viriam a ser pólos de produção importantes, tais como Videofilmes, Conspiração, O2. Por outro lado, segundo Maria do Rosário Caetano (2007: 197), a realização de filmes de sexo explícito sustentou a produção de longas em 1990 e 1991. Em 1990, foram 47 longas brasileiros concluídos em película (entre eles alguns projetos iniciados ainda nos tempos da Embrafilme), dos quais 31 eram pornográficos. Em 1991, de 44 longas, 25 eram pornográficos. A partir de 1992, esse quadro muda: neste ano, foram apenas 9 filmes (2 pornográficos) e, em 1993, 11 filmes (2 pornográficos). Em 1994 e 1995 (anos que costumam marcar o início da “Retomada”), produziram-se respectivamente 12 e 13 filmes, dos quais apenas 2 eram pornográficos. A redução da produção não se deveria muito mais, então, à decadência dos filmes de sexo explícito? Por que falar em uma “retomada”, a partir de 1994-95, se a diferença do número de filmes produzidos é tão pequena?
Algumas respostas possíveis: em geral, a historiografia e a crítica não têm reconhecido os filmes de sexo explícito como dignos de consideração. Por outro lado, como quem realmente parou de produzir, neste momento, foi o grupo de cineastas mais consagrados e mais dependentes das verbas da Embrafilme (que costumava representar “o” cinema brasileiro), destacar o “retorno” ao trabalho de alguns desses diretores, bem como a estréia de diretores que já haviam se destacado no curta-metragem na década anterior, pode ser entendido como uma clara demonstração de que a defesa dos interesses e da perspectiva deste grupo ainda tinha grande peso político.
É certo que o termo “Retomada” serve bem para descrever um momento que teve, inegavelmente, suas especificidades. Não se trata de negar ou relativizar essas especificidades, pelo menos não mais do que o suficiente para que possamos explorar ...
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outras dimensões semânticas da noção de “Retomada”, e sugerir outras linhas de pesquisa e análise que se coloquem para além da necessidade de estabelecimento de marcos históricos. Neste sentido, um quadro teórico-metodológico interessante para pensar a história recente do cinema brasileiro (dos anos 1980 até hoje, pelo menos, se não toda ela), seria analisar, além das rupturas, as continuidades entre os períodos que são considerados “ciclos”, de forma a escrever uma história não apenas de filmes e de diretores (BERNARDET, 1995), mas também de idéias e de formações discursivas (FOUCAULT, 2004).
A “Retomada” pode ser um momento histórico rico para este tipo de análise, caso tenhamos interesse em olhá-la nem tanto como um período isolado entre marcos mais ou menos precisos (no entanto, onde se localiza o seu fim?), mas como uma etapa em que diversas questões e debates ganham novo relevo em suas relações simultaneamente de ruptura e de continuidade com momentos e movimentos anteriores. Neste sentido, é sintomático que, apesar do termo “retomada” indicar semanticamente uma idéia de continuidade, não foi este o aspecto destacado pela maior parte dos críticos e historiadores que se dedicaram a tratar dos anos 1990. Ao contrário, o que encontramos mais frequentemente é uma busca e uma ênfase nos aspectos que apontariam para o “ineditismo” do período. Não há muitas referências a linhas de continuidade com a década imediatamente anterior, por exemplo. No máximo, aponta-se a “recomposição de certos núcleos temáticos” ou o “retorno a espaços emblemáticos do Cinema Novo”, como a favela e o sertão (XAVIER, 2001: 45). Mas me parece que, neste caso, encontramos justamente uma ruptura e não uma continuidade.
Este quadro teórico-metodológico me parece interessante para analisar, por exemplo, a questão do público do cinema brasileiro nos primeiros anos da década de 1990. A curva de queda do número de espectadores dos filmes brasileiros encontrou seu momento crítico entre os anos de 1991-1993, quando as bilheterias apresentaram números muito baixos (0,4% do total de ingressos vendidos, segundo Caetano). Esta “fuga” do público não deveria, no entanto, ser analisada apenas em sua conjuntura: um ...
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... pequeno número de filmes lançados em um momento de crise, uma safra de “qualidade duvidosa”, estratégias de lançamento inexistentes, etc. De fato, os historiadores apontam outras razões, mais estruturais, para esta queda. A crise econômica, o encarecimento dos ingressos, a disseminação do videocassete, a concorrência da TV, o fechamento de muitas salas no interior, nos centros e nos subúrbios das grandes cidades já vinham afetando o público dos filmes brasileiros desde meados dos anos 1980, pelo menos. Mas o que esta nova situação de mercado implica é o início de um processo de mudança do perfil sócio-econômico e cultural dos públicos de cinema no Brasil. O que significa que, ao longo da década de 1980, passaremos de um público eminentemente popular, a um público em que predominam as classes médias e altas.
O problema para o mercado do filme brasileiro é que o público das classes médias e altas, mais sintonizado com o padrão técnico e estético do cinema americano, já recusava o cinema brasileiro. Esse público o identificava com apenas duas de suas vertentes: o filme de sexo ou o de “miséria” (CAETANO, 2007: 198). O legado do Cinema Novo e a memória ainda fresca das pornochanchadas e dos filmes de sexo explícito não faziam parte do universo dos produtos culturais que essas “elites” desejavam consumir. Soma-se a isso a visão estigmatizada do cinema brasileiro como obra de técnicos incompetentes e da precariedade tecnológica. É por este motivo que grande parte dos filmes da “Retomada” se concentrará, ao que me parece, em “destruir” a imagem de sexo-miséria-precariedade relacionada ao cinema brasileiro. Sem desacreditar esta imagem, de todo distorcida, este público não se reencontraria, naquele momento, com o filme brasileiro.
Os produtores brasileiros precisarão preocupar-se mais, então, em adequar os filmes ao gosto deste espectador, buscando estratégias para conquistá-lo (como o desmonte da “imagem-estigma” apontada acima), já que é ele o novo senhor das bilheterias. O curioso é que este movimento de adequação ao gosto de um “novo” público, de busca por padrões ou modelos estético-comerciais que respondessem a esta mudança do perfil sócio-econômico e cultural do público, já é perceptível desde o final ...
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dos anos 1970, no discurso de um diretor como Cacá Diegues, por exemplo. Diegues já mostrava preocupação em alcançar padrões técnicos internacionais de qualidade (de som, fotografia e produção), e continuará reiterando essa posição até os anos 1990. Ortiz Ramos (2004: 26-41) aponta diversos outros exemplos que refletem essa preocupação durante os anos 1980, assim como Ismail Xavier. Ao falar em “enterro da estética da fome”, Xavier aponta a necessidade de afirmação da técnica e da “mentalidade profissional” como um dado importante dessa década (XAVIER, 2001: 40). A preocupação com a qualidade técnica e com a eficiência da narrativa, como reflexo de uma tentativa de conquista de um certo público, não é, portanto, um dado novo da “Retomada”.
Mas, com a “Retomada”, esta preocupação se torna uma urgência, em função de uma nova conjuntura (fim dos mecanismos de subvenção) que exigirá outras bases para a afirmação do cinema brasileiro – busca do respaldo do público e dos “sucessos” de bilheterias para justificar a sua existência, já que os projetos políticos e estéticos se esvaziaram. Neste sentido, a “Retomada” pode ser entendida como o “ápice” deste processo, que se inicia mais cedo e continua para além do fim da Embrafilme.
Se o resultado do processo de mudança do perfil sócio-econômico e cultural do público foi a queda das bilheterias dos filmes brasileiros, já a partir dos anos 1980, isso ocorreu, a despeito de outras razões, porque o cinema brasileiro não conseguiu responder com agilidade a esta nova situação. E foi pego “desprevenido” quando a Embrafilme acabou. Se, entre outras coisas, a “Retomada” significou, como sugiro aqui, o coroamento de um processo de “readequação” estético-comercial do cinema brasileiro em resposta a este “fracasso” inicial, mais do que apenas um período de busca de novas formas de produção, podemos considerar que este processo se iniciou antes do fim da Embrafilme, antes da “Era Collor” (1990-1993). E que, sob este aspecto, uma retomada nem chegou a existir.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERNARDET, J-C. Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro. São Paulo: Annablume, 1995.
BUTCHER, P. Cinema Brasileiro Hoje. São Paulo: Publifolha, 2005.
CAETANO, M.R. “Os anos 1990: da crise à Retomada”, in Alceu v.8 nº15, jul/dez 2007.
FOUCAULT, M. Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.
RAMOS, J. M. O. Cinema, Televisão e Publicidade – Cultura Popular de Massa no Brasil nos anos 1970-1980. São Paulo: Annablume, 2004.
VALENTE, E. Editorial. Contracampo – Revista de Cinema nº 52, s.d.
XAVIER, I. O Cinema Brasileiro Moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.
Recebido em 14/05/2008
Aceito em 27/05/2008
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