A Empatia Como Facilitadora Dos Relacionamentos Amorosos E As Influências Da Modernidade

Camila Morais Ribeiro é estudante de graduação em psicologia da UERJ

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Resumo: A instabilidade e a volatilidade das relações íntimas somadas às inúmeras transformações observadas nas práticas amorosas refletem a dificuldade de se manter um relacionamento em nossos dias, o que repercute numa ausência de comportamento empático para com o parceiro(a). Desse modo, o objetivo deste artigo é destacar a importância da empatia como uma habilidade essencial na sustentação de relacionamentos amorosos e discutir as influências da modernidade que repercutiram nos conflitos dessas relações.
Palavras-chave: empatia, relacionamentos amorosos, modernidade

THE EMPATHY IN THE IMPROVEMENT OF LOVING RELATIONSHIPS AND THE INFLUENCES OF MODERNITY

Abstract: The instability and volatility of intime relationships added to several observed transformations in affectionate practices reflect the difficult to keep a relationships in our days, which turns to a lack of empathic behavior with the partner. In this way, the aim of this article is to show the importance of empathy as essential ability to montain, to sustent the loving relationships and discuss the influences of modern times that cause conflicts in these relationships.
Keywords: empathy, loving relationships, modernity

A empatia trata-se da capacidade humana de inferir e compartilhar os pensamentos e os sentimentos das outras pessoas, e vem sendo apontada como uma habilidade essencial para a qualidade das relações interpessoais, (Motta, 2006). É preditiva de ajustamento marital e afeta a satisfação na relação conjugal, através de suas influências sobre ...

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comportamentos específicos de mediação(Falcone, 1999). Com isso, as pessoas que manifestam um comportamento empático são capazes de tornar suas relações mais prazerosas, reduzindo situações de conflito e de rompimento.

            A empatia é definida como uma habilidade de comunicação, composta pelos componentes cognitivo (compreensão dos sentimentos e perspectivas da outra pessoa), afetivo (sentimentos de compaixão e simpatia pela outra pessoa) e comportamental (transmissão do entendimento dos sentimentos e perspectivas da outra pessoa), (Falcone, 1999).


Dentro dessa concepção, é possível creditar à empatia um papel fundamental na dinâmica das relações entre casais, atuando como um instrumento facilitador da comunicação e do entendimento dos sentimentos, emoções e pontos de vista do outro.

Vale chamar a atenção para o papel da compreensão empática, que envolve o ‘prestar atenção’ e o ‘ouvir sensivelmente’, e para o papel da comunicação empática, que envolve o ‘verbalizar sensivelmente’. Quando bem ajustadas, essas funções promovem o desenvolvimento saudável das relações interpessoais, visto que a habilidade em ‘ler’ e valorizar os pensamentos e sentimentos das outras pessoas é o que, provavelmente torna esses indivíduos mais bem sucedidos em suas relações íntimas. (Falcone 1999, apud Ickes, 1997).

Dentro dessa concepção, é possível creditar à empatia um papel fundamental na dinâmica das relações entre casais, atuando como um instrumento facilitador da comunicação e do entendimento dos sentimentos, emoções e pontos de vista do outro.

Para entender melhor o funcionamento dos relacionamentos amorosos, faz-se necessário compreender (ou pelo menos assumir) o sentido do amor, sentimento pelo qual, as pessoas buscam estar juntas e que constitui a maior razão de união em matrimônio, (Figuederedo, 2005). Para tanto, podemos buscar as origens das concepções sobre o amor nos mitos, donde encontramos na mitologia greco-romana uma das primeiras formulações do significado do amor através das diferentes descrições do mito de Eros, o deus do amor (Braz, 2005).

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Nas diferentes versões que Eros assumiu na mitologia, podemos observar a união como uma característica constante, como nos aponta uma destas versões: Eros é visto como força de ligação e coesão do universo, trazendo em si o desejo de tudo ligar e unir(Braz, 2005). Todavia, o mesmo Eros que tudo une, começa a ser visto sob dois ângulos distintos: Na mesma versão de Eurípedes, Eros tem duplo caráter, num momento era força perniciosa que provocava a ruína dos homens e, em outro, o poder que levava a virtude e a salvação aos homens, (Braz, 2005). Assim, fazendo uma analogia com os mitos, também podemos ver nas relações amorosas esse jogo de contraste, em que muitas vezes de um sentimento saudável e construtivo, o amor passa a destrutivo, ao passo que patológico.

Não existe um consenso acerca da definição do amor romântico. Dentro da Psicologia Social coexistem várias abordagens sobre as diferentes maneiras de amar, dentre as quais encontra-se a versão de Zick Rubin, pioneiro no estudo do tema, segundo a qual o amor é composto dos seguintes fatores: ‘afeição, preocupação e intimidade’.

            Segundo Rubin, há alguns elementos que são comuns a todos os relacionamentos amorosos, tais como, a ‘compreensão mútua, dar e receber apoio, gostar da companhia da pessoa amada’; bem como elementos distintivos, como no caso do amor romântico, em que muitas vezes o casal é capaz de se comunicar através da simples troca de olhares (Myers, 2000).

Hatfield (1988) define o amor romântico como “um estado de intenso anseio pela união com outra pessoa”. Sendo assim, podemos ver mais uma vez o amor como elo que estabelece os relacionamentos entre pares. Contudo, sendo o amor um sentimento tão intenso e prazeroso, por que então observa-se tanta dificuldade na sustentação de relações estáveis e duradouras?

O auge de um relacionamento, com todo seu estado de exaltação, não dura para sempre. O que garantirá a durabilidade de uma relação é o que Hatifield chama de ‘amor de ...

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... companheirismo’, no qual a ligação entre o casal é mais profunda e afetuosa. Contudo, o declínio do amor romântico é inevitável, e assim do fogo ardente da paixão, o amor passa ao calor ameno do afeto.

O mito de Eros e Psique nos traz uma bela visão do amor como algo poderoso e superador, capaz de enfrentar tudo, e em meio às dificuldades conseguir amadurecer. Mas, se até mesmo na construção poética dos mitos, o amor admite seu caráter de dificuldade, quiçá nos relacionamentos entre os casais, nos quais a prática cotidiana implica diversos problemas de uma vida a dois.


Desse modo, uma das características fundamentais de um bom relacionamento é a qualidade da comunicação, e isto inclui tanto a linguagem verbal, como a não-verbal.

Com toda a pressão do dia-a-dia, os conflitos tornam-se inevitáveis. Contudo, saber ouvir provoca efeitos positivos na interação com o outro; a escuta sensível é capaz até mesmo de diminuir a raiva diante de uma situação difícil e possibilitar o entendimento das razões e dos sentimentos daquele que manifesta raiva, tornando possível o rompimento da situação de conflito (Falcone, 1999).

Desse modo, uma das características fundamentais de um bom relacionamento é a qualidade da comunicação, e isto inclui tanto a linguagem verbal, como a não-verbal. Entretanto, como bem sabemos, na prática não é tão fácil conseguir falar de tudo explicitamente, ficando muito da nossa mensagem subentendida nas entrelinhas do discurso. Nesse sentindo, Goleman (1995) aponta que raramente as emoções das pessoas são postas em palavras, sendo expressas através de indícios, como pequenos gestos, que irão depender da capacidade de interpretação de canais não-verbais para que haja compreensão dos sentimentos do outro.

Dentro desse contexto entra a questão da intimidade. A intimidade é uma conquista, ou melhor, uma construção gradativa que se obtém através do tempo, e é claro, do nível de ...

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... proximidade do casal. Deste modo, é preciso sim, dispor de tempo em quantidade e qualidade no cuidado e atenção com o outro.

Experimentos em Psicologia Social demonstraram que o afeto direcionado à pessoa amada faz com que ela retribua da mesma maneira, (Myers 2000, apud Berscheid & Walster, 1978). Com isso, demonstrar que se gosta de alguém é um passo para despertar o interesse no outro. Quando pessoas sentem que atraem alguém, elas tendem a se sentir atraídas também, e passam a retribuir o afeto.

Nisso, pode-se dizer que entrar numa relação com alguém requer envolvimento, cuidado, atenção e respeito aos sentimentos da outra pessoa. Assim, a empatia está para o relacionamento como o veículo que possibilita que aquilo que é despertado em nós através do amor seja bem dirigido ao outro, de maneira que, numa situação recíproca, um casal se encontre verdadeiramente em ‘relacionamento’.


Assim, a empatia está para o relacionamento como o veículo que possibilita que aquilo que é despertado em nós através do amor seja bem dirigido ao outro, de maneira que, numa situação recíproca, um casal se encontre verdadeiramente em ‘relacionamento’.

Nos dias de hoje, podemos facilmente conferir a fragilidade dos relacionamentos modernos, nos quais se busca justamente evitar os problemas e as dificuldades. Bauman (2004) bem nos aponta, a fluidez dos relacionamentos através da noção de amor líquido, do qual a incerteza e a insegurança são fatores constituintes.

Numa situação ambivalente, as pessoas buscam relações íntimas e ao mesmo tempo se desvencilham dos laços que tais relações podem trazer. Com isso, fazem uso de ‘estratégias’ para construir e pautar seus relacionamentos: São manuais de conquista, sites de relacionamentos, namoros virtuais, enfim, inúmeros artifícios utilizados para a escolha do parceiro ideal, que deve ser desprovido de defeitos e que não tenha outra coisa a oferecer, a não ser perfeição. E se o ‘produto’ adquirido não corresponde às expectativas, basta lançar uma nova busca no mercado por um modelo melhor. Assim, nenhuma escolha é dotada de rigor e pode a qualquer momento ser substituída por outra dentro de um mundo de opções, sem que haja maiores danos, numa relação de consumo pautada pelo custo e benefício.

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Além da transformação que a modernidade acarretou nos relacionamentos íntimos, outros fatores são levados em discussão para explicar os conflitos e as taxas de rompimentos dos relacionamentos contemporâneos. Um desses fatores é a consideração que homens e mulheres desenvolvem maneiras diferentes de expressar seus sentimentos em atitude ao outro. Goleman (1995) faz menção a isso, ao falar da diferença da educação entre meninos e meninas, nos quais uma cultura patriarcal leva os pais a ensinarem maneiras distintas aos filhos de como lidar com suas emoções. Será que conseguiríamos imaginar um pai dizendo ao seu filho para ser sensível e delicado, e demonstrar seus sentimentos?

Um estudo realizado com matérias de revistas masculinas e femininas procurou identificar a influência da mídia sobre esses dois públicos. (Babo & Jablonski, 2002). Os autores concluíram que o foco diferencial dessas revistas para cada gênero só faz reforçar velhos preconceitos e estereótipos em respeito a atitudes de homens e mulheres numa relação, bem como produzir a idéia de que existe um roteiro de sucesso para tais relacionamentos.

Ademais, podemos conferir que a transformação da modernidade instaurou profundas mudanças na visão dos relacionamentos amorosos. A facilidade do rompimento conjugal, a liberdade sexual, a mudança de papéis na sociedade tanto de homens e mulheres e toda uma influência e potência dos avanços tecnológicos (televisão, Internet etc.) tiveram repercussão nesse processo. Romperam-se numerosas barreiras de tempo e espaço; criaram-se idéias de felicidade e praticidade. Contudo, se esqueceu em meio a toda essa inovação, que as pessoas vivem em um mundo real, e este inclui uma gama de dificuldades e requer habilidades, esforços e disposição para lidar com ele.


E nisso, muitas das habilidades essenciais, dentre as quais destaca-se a empatia, ou deixam de ser devidamente estimuladas ou são alocadas em segundo plano, já que ouvir, compreender e procurar entender os sentimentos da pessoa amada são tarefas árduas que requerem disposição, entrega e envolvimento

Assim, de um lado temos a rapidez de um mundo volátil, inconstante e dinâmico; de outro o processo longo e trabalhoso da construção de um relacionamento. Diferentes lados de uma mesma realidade que se aproximam quanto à incerteza que ambos transmitem. O amor, que aqui foi admitido como a força capaz de unir as pessoas, tem de competir com a ...

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... rotatividade do mundo contemporâneo. E nisso, muitas das habilidades essenciais, dentre as quais destaca-se a empatia, ou deixam de ser devidamente estimuladas ou são alocadas em segundo plano, já que ouvir, compreender e procurar entender os sentimentos da pessoa amada são tarefas árduas que requerem disposição, entrega e envolvimento.

A possibilidade de trocar de parceiro a qualquer momento, não foi capaz de diluir a insegurança da aposta em um relacionamento estável; o incerto passou a ser endereçado à instabilidade dos relacionamentos modernos. A solução deste impasse talvez se encontre na simplicidade de um olho no olho, na sinceridade de uma palavra amável, no calor real das relações humanas. Algo de antiquado? Talvez sim, mas usando as palavras de Carlos Drummond de Andrade: “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.”


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BABO, T.; JABLONSKI, B. Folheando o amor contemporâneo nas revistas femininas e masculinas. ALCEU - v.2 - n.4 - p. 36 a 53 - jan./jun. 2002.

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

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166X2005000100008&lng=en&nrm=iso
>. Acesso em: 25  Apr  2008. doi: 10.1590/S0103-166X2005000100008 

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FIGUEREDO, Patricia da M. V. (2005). A influência do locus de controle conjugal, das habilidades sociais conjugais e da comunicação cojugal na satisfação com o casamento. Ciências & Cognição; Ano 02, Vol.06, nov/2005. Disponível em http://www.cienciasecognicao.org GOLEMAN, Daniel. Inteligência Emocional: A Teoria Revolucionária Que Redefine O Que É Ser Inteligente. Editora Objetiva. 8ª ed. Rio de Janeiro. 1995.

GUEDES, Cristiano. Sociabilidade e sociedade de risco: um estudo sobre relações na modernidade. Physis  ,  Rio de Janeiro,  v. 15,  n. 2, 2005 .  Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-
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>. Acesso em: 28  Apr  2008. doi: 10.1590/S0103-73312005000200009

MOTTA, Danielle da Cunha et al . Positive parenting practices bring benefits to the development of empathy in children. Psicol. estud.  ,  Maringá,  v. 11,  n. 3, 2006 .  Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-
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>. Acesso em: 28  Apr  2008. doi: 10.1590/S1413-73722006000300008

MYERS, David G. Psicologia Social. LTC Editora. 6ª ed. Rio de Janeiro. 2000.

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