A Caçada do Zequinha
01
Zequinha nasceu lá pelos anos 60. Sua mãe, dona
Comadre, e seu pai Poeta. Por vizinhos tinha dona Maria e seu
João. De resto, ah, só bananas. Sua cidade tomada
por bananeiras quase não deixava espaço para os
carros de boi. Bicicleta andava tortuosa pelos caminhos estreitos.
Era muito curiosa aquela situação, já que
todos viviam em função das bananas, bananeiras e
elas tomaram conta de tudo. Ruas estreitas já não
existiam. Casas, não havia uma sem bananeiras envolvendo.
Vizinhos para conversar ainda existiam e gritavam para conversar
janela a janela.
- Bom dia dona Comadre, como vai passando?
- Vou bem dona Maria e a senhora?
- Por aqui tudo certinho, mas e o seu filho Zequinha que não
vejo há muito?
- Vai bem, mas sumiu pelas bananeiras ontem e não sei por
onde anda.
- Ah, mas a senhora sabe que ele gosta de se esconder nas bananeiras.
- Mas dona Maria, aqui só tem bananeira, então não
sei em que bananeira ele está.
- Lá isso é verdade, comadre. Eu até falei
pro João ontem que ia cortar um pouco das danadas que estão
aqui entre nossas casas, mas ele achou melhor deixar como está.
Ele disse que não adianta cortar, porque no dia seguinte
estão elas lá de novo.
- Dona Maria, a senhora não quer vir aqui tomar um café
enquanto proseamos?
- Está bem, Comadre. Deixo o feijão com bastante
água e já vou até aí.
02
Passa o tempo, passa o tempo, relógio de sol e movimento
sombreando folhas grandes e cachos de banana no chão.
- Comadre, cheguei!!!
- Mas, Deus do céu, onde a senhora andou?
- Bem, estava dando a volta nesse bananal para conseguir chegar
até aqui. Está cada dia pior!
- É verdade, isso está um caso sério. A senhora
deixou bastante água no feijão, não foi?
Olha que já é hora de voltar! Até já
sinto o cheiro de queimado!
- Não se preocupe não, Comadre, que nem deixei o
feijão no fogo. Já nem fogo fiz. Mas onde anda o
Zequinha mesmo?
-Pois ele saiu ontem de tarde e disse que ia caçar e até
agora nada dele.
- Caçar? Caçar o que se aqui só tem banana
e aranha de bananeira? Agora a gente vai comer aranha?
- Ah, não sei que bicho não, mas ele saiu de espingarda,
colocou balas na sacola, pegou umas bananas, levou pão
e um pouco de feijão e saiu varando o bananal.
- Mas ele foi só? Não foi com o cachorro?
- Ah, foi sim. Levou o Biriba com ele.
- É bom assim. Cachorro é tudo igual, bateu fome,
corre pra casa.
- É, tomara que o Zequinha venha com ele.
- É, tomara...
Passaram-se os dias e nada. Zequinha não aparecia. A mãe muito preocupada e com razão, chamou o marido, seu Poeta, e disse que daquele jeito, apesar do Zequinha já ser burro velho, não podia continuar. Alguém tinha que ir se informar de seu paradeiro. Ela não se agüentava mais em agonia daquele silêncio.
03
O pai, um homem com alma de seu nome. Os pais do Poeta já
sabiam pois quando nasceu não gritou na palmada mas fez,
"ah, sol da manhã, que lindos raios que me trazem
às bananeiras. Estou feliz!" Ele que não queria
nada da vida a não ser comer bananas, já que tinha
de todas as formas, marcas e qualidades por ali mesmo, não
queria sair de casa, mas depois da insistência de dona Comadre,
colocou um pouco de pão e água na sacola e saiu.
Ah, bananas também.
Homem feliz aquele Poeta que vivia de bananas e pão com água.
Surge na luz
Pedaços amarelos
Formas de bananeiras
E assim ia seu Poeta caminhando em estreitas vielas por entre
as bananeiras e quase perdendo as quase desaparecidas marcas no
chão dos caminhos que talvez seu filho tenha cruzado.
Marcas de patas de cachorro. Achou! Uma, duas, três e quatro.
Isto significava um cachorro inteiro. Seguiu as que apareceram
subseqüentes quase escondidas nas pontas de bananeiras que
abriam fendas pelo chão, mas como eram bananas que dali
cresceria, dane-se. Estava era feliz. Feliz como Zequinha, homem
de bananas e bananeiras também.
-Zequinha, Zequinha! Homem meu filho, onde andas? Está me ouvindo? Responde, gritava Poeta, mas não tinha um som de resposta que não fosse um arrastar quase surdo das aranhas entre os verdes cachos pendurados. Como viviam com tanta aranha só Deus sabia também, já que delas não se fartavam, pelo contrário.
Nada, silêncio absoluto. O mundo e seu mutismo na noite sem estrelas.
04
Chegou a escuridão e seu Poeta enrolando-se em folhas de
bananeiras dormiu sonhos amarelos de doçura da pequena
nanica, da tenra e aguda d'água, da estranha maçã,
e depois acordou de manhã querendo fazer fogueira para
assar as bananas da terra de seus sonhos.
Pois não é que ali mesmo tinha uma?
Assou. Passada a fome, tomou rumo em direção ao
pico do morro, quer dizer, assim ele achava porque ia subindo
entre os diferentes bananais. Para cima nenhum santo vai ajudar
mesmo, seguia cansado.
Subiu até muito suar e foi lá no alto viu que o mundo não tinha só bananeira. Fechou os olhos, abriu, fechou, esfregou e não querendo acreditar, abriu-os e olhou de novo. Nada de bananeiras.
Casas e mais casas, todas muito bem arrumadas, com bichos que pareciam cavalos soltos nos jardins, sujando com seus excrementos a grama de dona Teresa, as belas flores de Dona Juliana, de dona Mariana, de Dona não sei mais quem. Deviam ser cavalos sim, porque este bicho ele conhecia, ora pipocas. Pipoca também. Lá em Bananal teve uma época em que havia estradas e cavalos também. Seu Poeta parou e olhou aquele enorme mundo à sua frente e sentou numa pedra.
Pedra, porque tão grande silêncio?
Onde anda a cor e o sangue de meu coração?
-Zequinha, Zequinha, onde está você?
Mais silêncio e as pedras não lhe ajudaram. As flores também não. A grama, as casas ricas e belas, os carros bonitos. Nada. Era como se o mundo fosse surdo.
05
Poeta não sabendo o que fazer, pensou que o melhor era
caminhar e aproveitar que, embora aquele lugar não tivesse
uma só bananeira, era aberto, podia caminhar, podia ver
o céu azul, podia ver aves voando e começou a gostar
daquilo tudo.
Tanto gostou que nem mais se lembrava de sua empreitada. Viu o rio Bonito que passava ao longo do caminho, os carros que levantavam poeira e continuou até encontrar uma cidade pequenina. Tanto era mínima que só uma menor ainda igreja no alto da colina e um botequim na curva do rio. Caminhou muito e saciou a fome com as bananas já meio molengas e bebeu água do rio.
Pessoas bem arrumadinhas, de carro, a pé, de bicicleta
e pessoas muito bem arrumadas com marcas - isto ele aprendeu depois-
de grife. Gostou desta palavra GRIFE.
Esqueceu também a palavra mas no lugar dele se lembrou
de sua procura pelo filho.
Foram dias e mais dias caminhando. Não o encontrou. A
fome açoitou o corpo.
Desistiu. Chega, pensou consigo, quem sabe o Zequinha já
está em casa. Voltou por caminho de beira'rio até
o cume do morro. A mulher não podia ficar só naquele
mundo de bananeiras e suas aranhas venenosas.
Retorno.
Bananeiras.
Tempo passando.
O sol mostrando pequenos raios no chão.
Relógio de sol novamente.
Espaço e aves brincavam ao sabor das correntes de ar.
06
Como era possível? Sem resposta.
Estradinhas.
Outra vida.
Aranhas? Onde? Não se sabia mais delas.
Dona Maria e dona Comadre conversavam agora.
Bananas ainda mas até melhores.
Que vidão!
Um dia, um avião rasante.
Avião pequenino.
Eles já viam o céu, logo viam borboletas e aviões
também.
Cai uma folha de papel
Corre e pega a folha de jornal e como sabia ler, por ser poeta
já nasceu letrado, e qual não foi a surpresa?
Manchete do jornal: 'Zequinha caça a onça de Rio
Bonito'.
Lá estava a foto do filho e um pedaço da cauda da
onça que ele segurava muito honrosamente.
- Mas que danado, ele sempre foi esperto. Que onça nada. Mulher! Olha aí aquele pedaço de onça que nós achamos no final do carnaval e que a gente usava dentro de casa na soleira da porta paras aranhas não entrarem!
Recebido: 29/03/2008
Aceito : 15/04/2008